Museu de Folclore Edson Carneiro

1981

UT Libraries 2007

Secretário da Cultura Aloisio Magalhães

Museu de Folclore

  • p. 62

Significativo momento na leitura do nosso universo de manifestações folclóricas é aquele voltado ao estudo e compreensão do patrimônio de nossa religiosidade popular. Ela é assentada nos mais diversos filamentos culturais, vindos das tradições européias, árabes, judaicas, africanas e indígenas. Assim, num complexo conjunto de ideias e procedimentos de culturas milenares, devidamente interpretadas, já em suas origens, pela inventiva popular, essas tradições tornam-se essencialmente funcionais, necessárias, procurando equilíbrio com as realidades dos grupos sociais. E é nesse clima altamente aculturativo e dinâmico que encontramos uma religiosidade fluente em todas as camadas e níveis de consciência do nosso povo, numa verdadeira armazenagem de motivos culturais ligados à vida diária, comum e natural dos grupos. A recriação dos temas tradicionais, os aparecimentos de novos mitos, a elaboração crítica de um elenco mitológico introduzido pelos mecanismos da colonização, a subjetiva crença individual, familiar ou comunitária, adequações de práticas cerimoniais em seguimento às técnicas de subsistência, sem dúvida procurarão atender às transformações de ordem socioeconômica, buscando a fixação da tradição cultural em consonância com os elementos ativadores da mobilidade social. A situação da religiosidade popular brasileira não está desvinculada de um caráter geral, eminentemente festivo, alegre por excelência, onde a imagem do cultuar, obsequiar, implica em preitos de criativa expressão, indo, do oferecimento devocional de uma flor nas águas em homenagem a Iemanjá, à participação e organização de um cortejo onde santos têm suas histórias e lendas lembradas, seguindo as romarias, oferecendo de maneira atribuitória os ex-votos, cumprindo tabus de ordem alimentar, sexual, obsequiando através de danças, como a de São Gonçalo, atuando publicamente em calendários cíclicos como a lavagem da escadaria de Nosso Senhor do Bonfim; oferecendo as pipocas em preceito ritual a Omulu, orixá das doenças e das curas; portando amuletos propiciatórios, tudo isso bem situando a pluralidade de linguagens de uso comum pelo nosso povo.

A importância de não estabelecer limites ao campo criativo e expressivo de nossa religiosidade, possibilita observações mais reais, numa contextuação sócio-cultural devida, onde o homem como elemento vivificador do processo é observado em seu meio ambiente, quando ecologia, colonização e grupos étnicos servem de indicadores da produção cultural, onde as práticas religiosas invariavelmente adquirem conotações devidamente hierarquizadas, seguindo os valores necessários à fixação de uma imagem social.

Situado numa organização restrita de um templo, de um terreiro ou condicionado a cerimônias particulares e domésticas, teremos um elenco de motivos ligados ao pensamento sincrético peculiar desse patrimônio. No entanto, a penetração e fluidez do que é religiosidade está presente na comida, na música e dança, nos folguedos, nas indumentárias, no artesanato, nas tradições orais, adquirindo morfologias que evidenciam identidade cultural e regional.

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