Pronunciamento

22/11/2007

Marco Maciel (DEM – Democratas/PE)

Senado Federal – Praça dos Três Poderes – Brasília DF

O SR. MARCO MACIEL (DEM  PE. Pela ordem. Com revisão do orador.)  Muito bem. Sr. Presidente, nobre Senador Mão Santa, Srªs Senadoras, Srs. Senadores  menciono expressamente a presença do nobre Senador Antonio Carlos Júnior, Aloisio Magalhães, nascido em 1927, faleceu aos 55 anos e este ano estaria completando oitenta anos se vivo estivesse.
Nasceu no Recife, numa proba família de intelectuais e políticos. Ingressou na quase bicentenária Faculdade de Direito do Recife atraído por seu prestígio cultural, imaginando-a sua primeira vocação.
De fato, a Faculdade de Direito do Recife, que este ano completou 150 anos de existência, juntamente com a Faculdade de Direito de São Paulo, da USP, era, como disse certa feita Gilberto Freyre, uma escola na qual não se estudava apenas Direito, mas também Ciências Sociais. Eu me diplomei na referida Faculdade e o meu diploma ainda contém Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais.
Aloisio Magalhães, todavia, em vez de se dedicar à Advocacia, migrou para o território das Artes Plásticas. Aliás, a Faculdade de Direito é também uma faculdade de humanismo ou, se quiserem dizer de uma forma mais abrangente, de humanidades.
Aloisio Magalhães fez uma opção correta e, ao se deslocar para o território das artes plásticas de modo especial, deu notável contribuição ao País em uma área em que não tínhamos ingressado, sobretudo no que diz respeito ao design.
Em 1951, ele vai a Paris com bolsa de estudos do governo francês para estudos de museologia no Louvre. Retorna ao Brasil em 1953 para expor pinturas na II Bienal de São Paulo. E aí se revelou o grande dom do pintor, que se prolongou em outros campos das chamadas artes plásticas.
Em 1954, funda, no Recife, o Gráfico Amador, uma editora com ateliê gráfico, em companhia de Gastão de Holanda, José Laurênio de Melo e Orlando da Costa Ferreira. Pelo Gráfico Amador, serão publicados vários livros da nova geração de poetas recifenses. No mesmo ano, expõe quadros de pinturas e desenhos no Museu de Arte Moderna de São Paulo e no Ministério da Educação e Cultura, então sediado no Rio de Janeiro, posto que ainda Capital federal.
Ele estará presente, mais adiante, na III Bienal de São Paulo, em 1955.
No ano seguinte, volta a expor no Museu de Arte Moderna de São Paulo e, em 1957, está no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. A partir deste ano, internacionaliza suas exposições de pintura, inclusive em Nova York. Em 1959, volta aos Estados Unidos e repete sua presença em galerias de Filadélfia, no Atlântico, e de São Francisco, no Pacífico. Ainda em 1957/1959, ilustra com gravuras dois livros do escritor americano Eugene Feldman.
Após integrar a representação brasileira na XXX Bienal de Veneza, em 1960, funda o que logo vem a ser um dos mais importantes escritórios de design do Brasil.
Pioneiro da comunicação visual no País, era também, como já disse, um artista plástico extremamente respeitado. São dele os desenhos das cédulas do Cruzeiro Novo e deu grande contribuição em outros campos do design.
Carlos Lacerda, quando Governador da Guanabara, convida-o para integrar o grupo organizador da Escola Superior do Desenho Industrial, pioneira no gênero em toda a América Latina. Sua atividade de designer leva-o a ganhar o concurso de criação do logotipo do IV Centenário do Rio de Janeiro.
O especialista alemão Max Bense dedicará extenso estudo sobre Aloisio Magalhães, levando-o a expor na Universidade de Stuttgart, na Alemanha.
Daí em diante, Aloisio Magalhães produzirá design para a iniciativa privada e empresas estatais no Brasil, tais como Petrobras, Banco Central, Caixa Econômica Federal, Furnas Centrais Elétricas, Itaipu Binacional, entre outras. Isso, todavia, sem abandonar o exercício, se assim posso dizer, da atividade pictórica. Volta a pintar, inspirando-se em Olinda, cidade pela qual ele tinha grande devoção.
Sem nunca perder o espírito público, aceita coordenar e implantar o Centro Nacional de Referência Cultural, reunindo em Brasília todas as informações possíveis, ao tempo em que era Ministro da Educação e Cultura o General Rubem Ludwig
Gostaria de chamar a atenção para fato também extremamente importante. Ele assume, em 1979, a direção do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, retomando e revisando as diretrizes fundacionais de Mário de Andrade e Rodrigo Melo Franco de Andrade. Convém destacar que Rodrigo Melo Franco de Andrade fez com que florescesse no Brasil um grande esforço para preservar nossa memória.
A participação de Aloisio Magalhães dada na extensão desse conceito de memória, contribuiu para que não ficássemos apenas no patrimônio histórico e artístico de bens materiais. Ele entendeu que deveríamos cogitar também de tratar dos bens imateriais, hoje por todos reconhecido. Cada vez mais precisamos zelar por esses bens, porque fundamentais à definição da identidade brasileira.
Cultuamos e praticamos com algum sucesso em que pesem as limitações de verbas a questão do patrimônio do imaterial, a que Aloisio Magalhães trouxe notável contribuição.
No ano de seu falecimento, em 1982, ele, por assim dizer, despede-se do País pintando uma série de litografias sobre Olinda.
Vou abrir um breve parêntese, Sr. Presidente, para lembrar que, como Governador de Pernambuco, entre outras atividades nos planos administrativo, político, econômico, social e também no plano cultural, empenhei-me e obtive êxito e este trabalho foi prosseguido pelo meu Vice-Governador, Roberto Magalhães Melo, que me sucedeu no Governo de Pernambuco para que a Unesco reconhecesse Olinda como Patrimônio Cultural da Humanidade. Faço questão de mencionar esse fato porque estamos prestes a celebrar os 20 anos da Declaração de Olinda como Patrimônio Cultural da Humanidade.
Certamente, fiz muitas gestões. Fui a Paris, estive na Unesco, falei com o então Diretor-Geral da Unesco, Mahtar M¿Bow, que era um ilustre senegalês, pessoa de grande sensibilidade para os problemas culturais e artísticos. Fiz gestões também junto à Presidência da República e ao Ministério da Educação e Cultura. Minha tarefa não teria sido cumprida adequadamente não fora a dedicação, o entusiasmo de Aloisio Magalhães.
Por isso, não gostaria de encerrar minhas palavras sem salientar o trabalho por ele desenvolvido para que Olinda tivesse seu destaque devidamente reconhecido e pudéssemos trabalhar no sentido de, preservando a cidade, promovermos seu desenvolvimento, inclusive melhorando as condições sociais do povo. Tive uma preocupação muito grande em melhorar, por meio de obras de infra-estrutura, como abastecimento d’água e saneamento, a condição da gente que vive em Olinda.
Pela segunda e última vez, Aloisio Magalhães volta a Veneza, em cuja XXX Bienal estivera vinte e dois anos antes. Ali, ele adoece e na vizinha Pádua encontra a indesejada das gentes para usar uma expressão de Manuel Bandeira, que assim se referia à morte, deixando um grande vácuo no Brasil e enorme tristeza para todos nós, posto que foi retirada do nosso convívio uma pessoa ainda jovem e dando decisiva contribuição ao reconhecimento das nossas carências no campo cultural. O Brasil investe pouco nessa área e, embora já haja uma consciência da necessidade de sua valorização, não há recursos para atender a todas a demandas de preservação do nosso patrimônio.
Sr. Presidente, nesta manifestação, homenageio Aloisio Magalhães, que, ao final de uma vida tão breve quanto fecunda, enriqueceu o País no campo cultural. Tudo que se faz no campo cultural tem uma transcendência muito grande, porque aí está alojada a questão dos valores fundamentais ao travejamento de uma sociedade efetivamente democrática, atenta a tudo que o homem precisa de pão, espírito, justiça e liberdade.
Por isso, Sr. Presidente, encerro as minhas palavras dizendo que o Brasil não pode esquecer o testemunho de Aloisio Magalhães, que Pernambuco muito se orgulha de tê-lo como um dos seus filhos.
Obrigado.

Secretaria-Geral da Mesa – Secretaria de Taquigrafia
Secretaria de Informação e Documentação – Subsecretaria de Informações

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