Arte vai ajudar indústria

1962

UT Libraries 2008

Visão

Vol. 20

  • p. 59

1962 marcará o início de uma nova etapa na colaboração entre arte e indústria no país: começará a funcionar o primeiro curso de Desenho Industrial (Industrial Design), iniciativa do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro, sob os auspícios financeiros e didáticos do Instituto de Belas Artes do Estado da Guanabara.

Ao mesmo tempo, a longo prazo, servirá até para economizar divisas: muitas empresas estrangeiras que operam no Brasil, empregando mão-de-obra e materiais nacionais, estão enviando bons rendimentos às suas matrizes, mediante cobrança de royalties sobre os desenhos e modelos dos seus produtos. O curso enquadrasse nos objetivos que determinaram a construção do Museu de Arte Moderna, que possui instalações projetadas para funcionar com uma escola de criação industrial, nos moldes da de Ulm (Alemanha).

Carlos Flexa Ribeiro, Secretário da Educação da Guanabara e velho lutador pela causa do MAM, conseguiu agora associar o Estado e o MAM, instituindo finalmente o curso. Um grupo de trabalho especial foi designado por Flexa Ribeiro para as necessárias modificações no currículo original do curso: Maurício Roberto, presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil, Lamartine Oberg. Coube ao MAM diretor do Instituto de Belas Artes, e Wladimir Alves de Souza, diretor da Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, que secretariou os trabalhos do grupo. Uma importante distinção deve ser feita quanto a palavra design — desenho — de duplo sentido na língua inglesa. Ela tanto significa o “desenho” comum, como a atitude criadora da “forma” de todos os objetos produzidos pelo homem. O curso se destina a esse segundo aspecto. “Vivemos cercados pelo Desenho Industrial”, explica Wladimir Alves de Souza. “Em todos os objetos, da geladeira ao telefone, do barbeador ao liquidificador, produtos caracteristicamente industriais, prevalece uma fisionomia peculiar, exigindo relação íntima entre a função e a forma e concorrendo para o enriquecimento da sensibilidade do homem.” O currículo do curso de Desenho Industrial constará de um Curso Fundamental com a duração de um ano, comum a todos os alunos, e de seções, nome pelo qual serão designadas as diversas especialidades. Os alunos não serão submetidos a exames vestibulares e sim a testes de aptidão artística e entrevistas para verificar a sua integração na técnica das artes e das ciências contemporâneas. Somente serão admitidos no Curso Fundamental candidatos possuidores de certificados de curso colegial, que alcançarem um coeficiente mínimo nos testes e fornecerem respostas satisfatórias ao inquérito preliminar.

Wladimir Alves de Souza adiantou a Visão um desses nomes: Jay Doblin, diretor da Escola de Desenho Industrial de Chicago, EUA; e, sobretudo, professores italianos, hoje considerados mestres na criação das formas. Observadores temem apenas que o recrutamento de alunos nos meios artísticos, onde por vezes existe uma repugnância pela atividade científica, crie embaraços ao entrosamento dos futuros artesãos com as exigências da atividade industrial.