Ziraldo – Roda Viva

18/7/1999

O multifacetado Ziraldo comenta as características do mercado editorial brasileiro

  • Jaguar: E você, o que você faria se fosse o ministro…
  • Ziraldo: Era essa… Jaguar, muito obrigado, parece que a gente combinou. [risos] Era essa que eu queria que você fizesse. O negócio é o seguinte. Eu pegava o projeto do Aloisio Magalhães [pintor, pioneiro do design gráfico no Brasil, administrador cultural], do “SECMEC”, e acabaria com tudo que está aí feito antes, todas as coisas que foram feitas desde que acabou a ditadura até hoje, pegava estes ministérios todos, inclusive o ministério do Weffort, com todo o carinho que eu tenho por eles, e falaria: “Esquece tudo isso, pega lá no projeto do Aloisio Magalhães e executa na democracia”. Porque o projeto do Aloisio Magalhães era perfeito e ele, de tão perfeito, conseguiu subsistir na ditadura…
  • Paulo Markun: Qual era o projeto?
  • Ziraldo: O SECMEC era das duas vertentes: o Pró-memória e a Funarte. Um cuidava da memória e o outro da produção cultural. Então, você tinha a Funarte, que foi responsável por toda descoberta desses grandes núcleos de arte popular brasileira, daquele GTO [Geraldo Teles de Oliveira, escultor] lá de Diamantina, de Divinópolis, o pessoal do Vale do Jequitinhonha, Alceu Valença, todos esses cantores, Geraldinho de Azevedo, Elba Ramalho, todo esse pessoal do Projeto Pixinguinha. Quer dizer, o que a Funarte fazia? Ela detectava onde estava acontecendo a produção cultural importante, e sem interferir nela, criava condições para ela se exercer, sem dar palpite. E a Pró-memória cuidava do patrimônio cultural. É só isso. E com o Aloisio se fez isso na ditadura. Quando eu assumi a Funarte com o Aloísio Pimenta [ex-ministro da Cultura], a gente esperava que a gente fosse exercer o projeto do Aloisio na democracia, e eu percebi que não ia ser, que o Aloisio queria aquela coisa histórica. Quer dizer, antes de mim é o dilúvio, não tinha nada, agora vai começar uma outra era”. Não tinha era nenhuma. Tinha é que pegar aquilo… Descaracterizou-se o negócio do Aloisio, saiu o Pimenta, veio o Celso Furtado [economista], que pode entender muito de seca, mas não entende nada de Cultura, foi o maior desastre que…
  • Laerte: Eu ia te perguntar da época que você fundou a agência Funarte de distribuição de quadrinhos, o que desencantou depois de muitos anos de discussão e debate, esse negócio da distribuição de quadrinhos? E queria te perguntar se você acha que aqui no Brasil as coisas só dão certo mesmo quando entra o governo no meio. Porque fica todo mundo assim: “O que que nós vamos fazer, o que que nós vamos fazer?” E ninguém fazia realmente nada. Só o Maurício de Sousa que se distribui bem…
  • Ziraldo: Quando eu estava na Funarte, eu percebi que o cartoon, a charge, de costumes estava perdendo o espaço, na imprensa, para a tira.  Porque o cartoon é um tempo só que você tem que olhar e entender toda a narrativa só com uma informação. Então isso exige muita cumplicidade, do decodificador, do leitor. A tira não. A tira usa os quatro tempos da narrativa, então fica mais fácil a gente entender. Não precisa ser muito inteligente para entender a tira. E todas as tiras da imprensa brasileira eram americanas, não existia; um inglês e o resto americana. Não existia a tira brasileira. E não existia porque eles não conseguiam alguém para distribuir. E quando eu cheguei na Funarte, eu disse: “Eu vou fazer uma agência na Funarte para distribuir a tira”, que é isso que o governo tem que fazer. Quando há uma manifestação artística importante o governo tem que criar condições para que ela se exerça. É isso que está no projeto do Aloisio Magalhães.
  • Nirlando Beirão: Dentro disso aí, neste seu projeto aí de política cultural, quer dizer, e os famosos patrocínios? Hoje em dia eu acho que um produtor cultural no Brasil passa 95% do tempo não produzindo, mas com uma pastinha debaixo do braço, indo atrás do patrocínio. Quer dizer, você cortaria essas leis…
  • Ziraldo: Você só patrocina… Quer dizer. Tem um gravador lá, o Manoel, um pobre de um pretinho, tadinho, é o maior gravador de xilo… de madeira do Brasil, depois do [Rubem] Grilo. O Grilo faz aquelas figuras pequenininhas, e ele faz coisas gigantescas. Ele ficou maluco. Ele ficou louco. Eu tenho algumas matrizes dele. Então, este sujeito é o maior gravador brasileiro que apareceu neste século. Agora, quem vai fazer aquela pastinha bonitinha para arrumar recurso para ele? Então a cultura está na mão hoje do cara que sabe captar recurso, e não de um cara que tem um belo projeto. Então a cultura está  sendo feita e está cheio de gente ganhando dinheiro…
  • Laerte: E você não acha que isso abre espaço, por exemplo, para um outro sujeito, que é o agente, o empresário…
  • Ziraldo: E você acha isso bom? Aí é que entrava o trabalho da Funarte, é de ficar atenta… Você leva o projeto lá e eu estudo o projeto. Então tinha um monte de gente estudando projeto. E digo a eles assim: “Gente” – tinha discussão – “essa história é maravilhosa, então chama o cara lá”. “O que você precisa, meu filho?”. O governo tem condição de te ajudar, então você podia ajudar todos os artistas que não tinham recursos…
  • Bob Fernandes: Você faria novamente?
  • Ziraldo: O projeto era perfeito…
  • Bob Fernandes: O projeto que você supostamente escreveu, que estava lá na gaveta, alguém pegou e meteu a mão, que você tomou tanta porrada por causa daquilo, quer dizer, na verdade, a sua concepção é aquela?
  • Ziraldo: Aquela carta que a Folha publicou, e que eu levei pau de todo jeito, era uma carta pessoal para o Aloísio Pimenta com quem eu não conseguia conversar…
  • Bob Fernandes: Mas com o que você pensava, que é basicamente o que você pensa hoje.
  • Ziraldo: Exatamente. “Aloisio, preste atenção”. Então eu digo o seguinte: “Olhe aqui, você sabe, a comida é cultura; como se come e como se prepara a comida é cultural”. Isso não devia ser do Ministério do Interior e do Ministério do Trabalho. Tem um departamento que cuida de alimentação no Brasil, que é de um Ministério que eu não sei de quê. Mas, por exemplo, todas as comidas que se faziam no Brasil no século XIX, com os recursos daquela época, não se fazem mais. Depois, no Brasil é assim, chegou o novo e você abandona o que está no passado. Você conhece, você consegue comer um confit de canard [prato francês à base de pato], na França, aqui no Brasil você não come carne de lata mais. Você sabe o que é carne de lata? É confit de canard  brasileiro. Você pega a carne, assa a carne e bota dentro da banha, tampa a lata de banha e a carne fica conservada ali dentro.
  • Bob Fernandes: Mas onde é que entraria o [?]
  • Ziraldo: E você tem uma carne maravilhosa, mas veio a geladeira e acabou o confit…
  • Bob Fernandes: Mas onde entraria o Estado nisso?
  • Ziraldo: Peraí. Ué? Aí, pergunta para o Jacques Lang [ex-ministro da Cultura da França]. Todo o programa do vinho na França e todo programa da comida do confit de canard  foi problema do Departamento do Ministério de Cultura, na França. É cultura, companheiro. Então eu escrevi isso para o Pimenta. Pô, fui ridicularizado até a raiz.
  • Belisa Ribeiro: A cultura não sobrevive sem este tipo de amparo…
  • Paulo Markun: Claro que[?] o Estado é que tem que decidir o que é cultura e o que não é cultura?
  • Ziraldo: Exatamente. O Estado é que tem que decidir. Você falou, Markun, é o seguinte. O Estado, não o Estado, mas o “departamento de especialistas” do Estado tem que olhar e dizer, com o nível de informação que eles têm e dizer: “Bom, isso aqui merece ser estudado”. Mas você não vai interferir, quer dizer: “isso daqui tem mais importância do que isso”.  Você vai dizer que isso é impossível? Que isso é interferência? Isso não é interferência. Então, o seguinte. Quantos bons pintores este país tem, que nunca vão arranjar óleo, tela, pincel para pintar, porque ninguém vai… A não ser que ele tenha um cara que faça aquele programinha para ele e leve num produtor [?]
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