Como se cria um símbolo

Visão, vol. 30 – nº 6 – 17/2/1967

UT Libraries 2008

Bibl. Centr. Ir. José Otão PUCRS 2014

Revista Noticiosa Semanal

Comunicação VisualAloisio Magalhães

  • p. 40

Na mesma semana em que foi anunciada a escolha, através de concurso, do projeto para a cédula definitiva do cruzeiro novo, um novo símbolo, escolhido também entre vários concorrentes, aparecia para representar a Light: a letra “L” repetida duas vezes, formando o sinal da energia, o raio. Os dois concursos foram vencidos por um pernambucano que antes já havia ganho outros, entre os quais o da Fundação da Bienal de São Paulo e do IV Centenário do Rio. Quem é esse criador de símbolos e o que é comunicação visual, disciplina tão nova no Brasil mas já adotada pelas grandes empresas do País?

Primeiro, uma centelha; depois, uma figura geométrica disciplinada, num misto de raciocínio e imaginação — e surge mais um símbolo criado no mundo artístico de Aloisio Magalhães, professor de comunicação visual, arte nova que exige do profissional uma perfeita integração na coletividade. Como afirma Aloisio:

Nada tem significação no nosso tempo se não traz um sentido coletivo.

Ex-pintor, participante das bienais de São Paulo e Veneza, expositor em 1965 de trabalhos de comunicação visual em Stuttgart, Alemanha, Aloisio Magalhães, iniciando-se na profissão em 1960, como pioneiro no Brasil, vem obtendo frequentes sucessos.

Nos concursos de que tem participado enfrenta designers de São Paulo e do Rio (no da Light, cinco, no do cruzeiro, sete).

Não há fórmula para sucessos,

diz.

Talvez eu obtenha esses prêmios porque a comunicação visual é para mim mais importante que uma simples profissão, limitada a horários ou a encomendas de empresas. Só assim é que a entendo e ela se torna existencial para mim. A partir de minha opção por essa atividade, preocupo-me com o coletivo. Ao se anunciar o cruzeiro novo, um ano antes do concurso comecei a pensar como a cédula deveria ser.

Cruzeiro, um segredo – A forma do cruzeiro novo, o tipo dos desenhos, sua disposição e mesmo sua cor — tudo é segredo. Faz parte da cláusula do regulamento do concurso que Aloisio ganhou, embora seja contra concursos para esse tipo de tarefa, preferindo a fórmula do grupo de trabalho. Ganhou 10 milhões de cruzeiros e a missão de ir a Milão acompanhar a transposição do desenho para o talho doce das chapas-padrão. Esteve na Itália em dezembro e lá voltará as vezes necessárias à complementação do trabalho, que só estará concluído no fim do ano.

Light: o autor serviu-se do mítico sinal representativo de energia, o raio, construído a partir da letra L repetida duas vezes.

Bienal de São Paulo: a estrutura da solução baseia-se na partícula BI. O enquadramento no círculo ajudou a despojar as letras e concentrar a informação num ponto focal.

Icomi: a solução baseia-se numa figura octogonal contendo um I serifado (Bodoni), cujas serifas se alongam até atingir os vértices do retângulo. O resultado é um perfil de trilho.

4º Centenário: a solução baseia-se num princípio de diversificação — uma ideia central e suas representações fundamentais: linha, plano, espaço.

Produtos Beija-flor: usado como emblema da companhia há mais de cinquenta anos, o beija-flor foi reestruturado.

Banco Moreira Salles: a solução está desligada de um contexto diagramático porque, para o autor, o caráter amplo da empresa transcende a dimensão do nome. Solução: três círculos entrelaçados formando linha contínua.

Ministério das Relações Exteriores: a solução de um logotipo RE para o novo Ministério em Brasília surgiu da estrutura do edifício, composto de arcos sucessivos, que são assim representados no próprio logotipo.

Docenave – Vale do Rio Doce Navegação S. A.: o caminho para o desenvolvimento da marca nasceu naturalmente. A ênfase nas letras D e N, iniciais das palavras que formam a sigla Docenave. A soma ou fusão das duas letras passou a constituir um novo sinal, uma nova letra. O caráter prioritário dado à letra D fez com que ela absorvesse a letra N.

Laboratório Maurício Villela S. A.: as letras M e V, iniciais do nome da empresa, possuem uma estrutura comum, o que levou o autor, naturalmente, a juntá-las num só elemento visual, resultando disto a integração das duas letras iniciais na marca do laboratório carioca.

CCPL (Cooperativa Central de Produtores de Leite): a solução procurou preencher ao mesmo tempo dois conceitos: o diagrama específico CCPL e a configuração esquemática de cabeça de gado.

A repetição da letra C,

diz Aloisio,

levou-nos à réplica do P e do L, obtendo-se uma simetria que nos convinha para a formação de uma figura icônica.

Brafor: o partido adotado por Aloisio Magalhães no caso dessa fábrica de móveis e equipamentos para escritórios tem por fundamento um dos problemas básicos das estruturas de madeira, que é o encaixe.

  • p. 41

Embora seja proibida a divulgação do assunto, posso adiantar que a cédula traz elementos novos, mais condizentes com a nossa realidade. A principal preocupação foi eliminar padrões tradicionais, que são mantidos em nosso dinheiro, mas com os quais não temos nenhum compromisso. Contudo, era preciso, ao mesmo tempo, conciliar essas inovações com a permanência de alguns caracteres inerentes à própria finalidade do dinheiro, pois uma nota, representando um valor monetário de uso cotidiano, será manuseada por todos e deve ser imediatamente reconhecida como “dinheiro”. Na procura de novos desenhos, tive de me cingir e essa limitação, achando o equilíbrio entre o tradicional e o novo.

O equilíbrio, aliás, é uma preocupação constante do comunicador visual, tornando-se mesmo uma exigência para seu ingresso na profissão. Como explica Aloisio,

o bom programador visual (como deve ser entendido num sentido mais amplo) é o que consegue conciliar a intuição e a racionalização, estabelecendo uma “tensão ideal de equilíbrio”.

A partir daí, o profissional tem tudo para conseguir um bom símbolo, que Aloisio define como

“um elemento deflagrador, que apenas sugere ao espectador, pelo seu uso disciplinado, a sua significação, levando-o a associá-lo prontamente ao que ele representa”.

O símbolo ideal

O símbolo ideal atende a duas exigências: leitura e memorização fáceis. Para tanto, deve ser simples, mas conter elementos que lhe dêem uma certa “complexidade”, ou melhor, que o tornem característico daquilo que ele pretende representar. Um triângulo, por exemplo, é um sinal, uma figura geométrica convencional. Se quisermos que ele passe a simbolizar determinada empresa, teremos de introduzir nele elementos característicos, uma novidade (Random), um corte, digamos, em um de seus ângulos. Mas é essencial que esse sinal seja sugestivo, esse triangulo cortado caracterize bem a função da empresa, para que a pessoa, quando visualmente solicitada, o identifique imediatamente. O trabalho é complementado com o uso do símbolo, como ocorreu com o do IV Centenário do Rio, em que o algarismo 4 tem uma carga, uma ideia imanente, mas só a disseminação da marca permitiu sua associação inevitável como símbolo daquela festividade.

Entretanto, o símbolo em si não representa tudo: ele é “a informação concentrada”. Um escritório como o de Aloisio Magalhães, que funciona na base de encomendas de tipos variados de empresas (transportes marítimos de minérios, bancos, produtos farmacêuticos e mesmo o Ministério das Relações Exteriores), preocupa-se com muito mais: com um programa visual. Ali, na Ladeira Ary Barroso, no Leme, com uma equipe de auxiliares, ele elabora em cada caso, um programa “capaz de criar unidade e personalidade próprias para a empresa”. Esse programa inclui a indicação promocional da marca em preto e branco, em cores, programação de rua, estudo para uso do símbolo em papéis administrativos, em frota de veículos e até em uniformes de funcionários. Em média, uns 45 a 60 dias de trabalho em cada caso.

A opção – Aloisio chegou a essa atividade por uma decisão importante: abandonou a pintura. Formado pela Faculdade de Direito do Recife, foi em bolsa de estudos para a Europa. De volta da França, onde manteve contatos com gente ligada à comunicação visual, ingressou no novo trabalho.

“Eu não mudei”,

diz, incisivo.

Apenas minha arte passou a ser vinculada à coletividade e só assim eu a entendo. Senti que o artista no nosso tempo é levado a se isolar do coletivo, mas só os que nele se integram são importantes. Através da revolução industrial — que colaborou para o afastamento do artista de sua função social — é que ele volta a se reencontrar com a coletividade. A disciplina e ordenação dos meios de informação, a forma do produto industrial, são os caminhos para este reencontro. O objetivo industrial atinge não uma só pessoa, mas uma comunidade inteira. Daí a minha disposição de negar a validade desse isolamento, de defender a reintegração do artista na coletividade. Só assim ele pode ser útil, sobretudo num país como o nosso, onde o processo de desenvolvimento não só oferece condições para essa integração, como exige de nós a consciência dessa responsabilidade.


Hoje mais fácil – Para se obter hoje as qualidades de um programador visual, é muito mais fácil do que quando Aloisio começou. Há quatro anos funciona a Escola Superior de Desenho Industrial, de que foi também fundador, e onde se preparam os novos designers, trinta por ano. O programa prevê a divisão em duas categorias: aqueles que se dedicam ao aspecto da forma do objeto industrial; e os que se preparam para os problemas da comunicação visual.

Os primeiros são comparáveis aos escultores, pela preocupação com a forma; e os outros aos pintores, pois o trabalho está ligado às duas dimensões do plano. Hoje defendo a unificação numa só categoria, abandonando a divisão que fizemos no início da ESDI, porque esse campo de atividade no Brasil é muito novo, variado e de amplas perspectivas, exigindo formação eclética do programador visual.

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