Brasís, Brasil, Brasília

Freyre, Gilberto 1900-1987.

Sugestões em torno de problemas brasileiros de unidade e diversidade e das relações de alguns deles com problemas gerais de pluralismo étnico e cultural, Record, 1964.

fonte: UT Libraries 2008

Brasil: Uno e Plural – uma constelação de Brasis e não um Brasil Único

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Será sempre incompleta a visão do Brasil de um estrangeiro culto ou de espírito que se limite a ver o Rio e, quando muito, acrescente, ao contato com o Rio, o rápido conhecimento das novas e grandiosas industrias paulistas e hoje também mineiras e dos sobradões velhos e pitorescos de Ouro Preto, das igrejas de Minas. Já que atravessou o Atlântico, esse estrangeiro, curioso do Brasil, deve incluir no seu itinerário brasileiro visitas rápidas, mas esclarecedoras, ao extremo Sul do Brasil, ao centro ainda agreste — e onde agora se ergue a monumental embora desordenada Brasília: expressão magnífica do que há atualmente de boêmio e de improvisado em quase tudo que se faz de grande e mesmo de pequeno no Brasil — e também ao ao Leste e ao Nordeste (Bahia, Pernambuco) e, se ainda lhe sobrar algum tempo, à Amazônia.

Nada de desprezarmos a Amazônia: sem um contato com Manaus, Belém, a selva amazônica, ninguém pode considerar-se ou dizer-se completo em sua visão do Brasil. Do escritor John Dos Passos ninguém imagine que no Brasil se maravilhou com o que no atual progresso brasileiro é imitação de progresso ianque ou de progresso burguês-industrial da Europa. Ao contrário: creio não ser indiscreto revelando seu desencanto pelo que lhe parece haver de aburguesamento de vida ou de cultura tanto no atual progresso brasileiro como no atual progresso mexicano. E ou muito me engano, ou o que para ele há de lamentável em tal aburguesamento exprime menos um desencanto de apologista de uma cultura “proletária” ante uma nova cultura “burguesa”, que um desencanto de artista ante a substituição de formas autênticas por formas postiças de vida e de cultura. Semelhante substituição estaria a ocorrer de modo por vezes brutal nas grandes cidades em que estão se expandindo no Brasil, como no México, burgos outrora equilibrados entre o que neles eram valores qualitativos e grandezas quantitativas.

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O seu aburguesamento é no sentido de sua inchação numa grandeza burguesa que pouco tem a ver com o sentido marxista da expressão; e sim com o artístico: com um sentido de desprezo artístico pelas formas antiartísticas de vida e de paisagem que torna a expressão “burguês” expressão pejorativa entre os homens para quem os valores estéticos situam-se entre os valores supremos de uma existência ou de uma cultura.

No Brasil, interessa, é claro, ao escritor John Dos Passos, o admirável experimento arquitetônico e urbanístico que Brasília representa. Empolga-o a música de Villa-Lobos. Creio, porém, não exagerar dizendo que mais do que a arte, talvez mais internacional que telúrica, dos modernos arquitetos brasileiros, prende-lhe a atenção e conquista-lhe a admiração o que, na carta de despedida que me escreveu ao regressar aos Estados Unidos, chama de “perícias artísticas” dos brasileiros rústicos. Perícias artísticas que na verdade, através de formas regionais ou populares de vida alongada em arte, integram esse homem rusticamente brasileiro nos seus vários Brasis e integram esses vários Brasis num Brasil que se distingue de qualquer outro país por essas várias perícias brasileiras.

A dos artistas que esculpiram na pedra e talharam na madeira das igrejas, criações caracteristicamente brasileiras. A dos artistas que ainda trabalham o barro com uma espontaneidade que encanta todo estrangeiro de espírito que nos visita. Daí o interesse especial que o escritor norte-americano me diz ter encontrado nos azulejos de Francisco Brennand e nas pinturas de Cícero Dias, Lula Cardoso Ayres e Aloisio Magalhães, animadas pelo mesmo sentido de integração do homem num meio que é, de modo particularmente íntimo ou amoroso, o seu meio: o meio regionalmente diverso, mas todo ele tropical, do homem brasileiro.

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