Problemas de Conciliação do Moderno com o Ecológico-tropical

Aloisio Magalhães

Seminário de Tropicologia 29/4/1975

1981

UT Libraries 2008

capa: Cartema Wall Street( 1915), Aloisio Magalhães — Acervo Fundação Joaquim Nabuco

  • p.  19-34

Parece que se poderia tomar como válida a hipótese de que a trajetória do homem no seu processo civilizatório em tudo se assemelha a uma corrida de revezamento. Assemelha-se na medida em que a um percurso segue-se outro percurso e na medida em que, a cada percurso, o mesmo bastão é passado de mão em mão. Isto não significa que todas as etapas da corrida, cujo bastão é o mesmo, tenham o mesmo significado e a mesma complexidade. Cada etapa é diversa, cada etapa tem obstáculos ou facilidades conhecidas ou desconhecidas, esperadas ou súbitas.

Creio que se poderia dizer que nossa época se caracteriza por inúmeras mudanças. Talvez o aspecto mais precioso e mais válido dessa mutação seja o fim do pensamento linear, o declínio das ciências separadas e estanques e o advento do pensamento globalizador. Nenhum conhecimento poderá permanecer isolado na medida em que depende e se alimenta de uma forma de compreensão dinâmica e globalizante. Algumas tecnologias já nasceram em consequência disso. Não acredito que a tecnologia se antecipe à intuição e às ideias. Ao contrário, são as intuições e as ideias que determinam a modificação e o aceleramento do processo tecnológico, a fim de fornecer o instrumento necessário ao desenvolvimento desse tipo de pensamento.

É possível afirmar-se que o homem surgiu nos trópicos. O aparecimento da reflexão, esse momento, essa mutação fundamental, deu-se em áreas tropicais. Mas aí se poderia perguntar: por que o homem, nascido no espaço tropical, resolve deixar esse espaço tropical em busca de áreas mais temperadas e é nessas áreas que o homem tem atingido os seus pontos mais altos de civilização? É possível imaginar-se que o homem tenha tido necessidade de procurar espaços mais confortáveis, onde ele pudesse tranquilamente refletir. E parece válido dizer-se que o maior índice de reflexão reside nas áreas menos aguçadas pelos elementos naturais. Assim, na sua trajetória, o homem naturalmente tropical foi buscar em áreas mais amenas o acolhimento necessário ao desenvolvimento do seu pensamento, da sua reflexão. E construiu inúmeras civilizações, que se sucedem desde o princípio da corrida de revezamento.

O que seria interessante observar é que o mundo moderno talvez ofereça condições propícias para que o homem volte à área tropical e nela consiga estabelecer-se, com a carga enorme de conhecimentos que lhe foi dada pelas áreas mais temperadas e que aqui, com a ajuda da tecnologia que hoje lhe é possível dominar, consiga criar uma civilização nova. E, curiosamente, é possível supor que a reiterada presença de elementos provocadores, que a área tropical oferece ao homem, dê a ele, nesta altura dos acontecimentos, condições de retornar a uma forma de menor tensão psíquica e de maior liberdade natural. Parece evidente que a amenidade de outras áreas aumenta a reflexão do homem, mas é provável que diminua sua espontaneidade enquanto homem natural. Por isso entenda-se a ideia de uma liberdade no contato com os elementos de base, diante dos elementos de sua circunstância.
Essa hipótese é possível de prever-se para um contexto como o brasileiro. É possível com o espaço físico; é possível com o aglomerado étnico; é possível com a unidade de língua; é possível com a inexistência de tensões e repressões entre as culturas indígena, africana e européia. Parece existir um conjunto de fatores que propiciarão ao homem brasileiro uma nova forma de civilização. Esses condicionamentos não ocorrem com igual liberalidade em outras áreas tropicais, mesmo do Novo Mundo, na medida em que as tensões entre as culturas européias e não-européias ainda estão presentes e atuantes em toda a América Latina de origem castelhana.

Muitos acusam os portugueses de certa negligência, de preguiça intelectual. Mas da mesma maneira se poderia afirmar o oposto. Esses traços de comportamento são justamente favoráveis à miscigenação, à situação de um colonizador que se apresenta como igual. É possível ir mais longe. A lentidão portuguesa ofereceu ao Brasil um aceleramento relativamente lento em seu processo de civilização. E, na medida em que mais lentamente esse processo se desenvolve, mais seguramente ele se faz. Nações como a Argentina, por razões de ordem geográfica e climatológica, presenciaram um rápido desenvolvimento tecnológico, científico e cultural. Mas esse desenvolvimento acelerado não foi desenvolvimento, foi transplante. E por transplante entenda-se a presença de um corpo estranho dentro de outro corpo, com todos os perigos de rejeição. Tentou-se construir, na nação irmã, uma civilização européia. Esse transplante encontrou abrigo temporário, mas agora começa a ser rejeitado pela alma nacional. No caso brasileiro, esse processo de rejeição parece não existir, ou, pelo menos, não atingir a substância mais profunda do contexto cultural brasileiro.

Parece-me claro que, em relação ao processo cultural brasileiro, o primeiro passo que se deu, no sentido da percepção desses valores novos autônomos e de seu possível aproveitamento no sentido da formação de uma cultura brasileira brasileira própria, foi o da sua intuição por alguns grandes homens brasileiros. A essa intuição segue-se naturalmente uma conceituação.

E, em terceiro lugar, a consequência lógica disso tudo que é a ação. Não seria da minha competência analisar detalhadamente esses grandes homens, mas citaria apenas dois: Euclides da Cunha e Gilberto Freyre. Em ambos os casos, as duas primeiras etapas desse processo civilizatório – a intuição e a conceituação apresentam-se de maneira clara. Esse tem sido o papel imenso e extraordinário dos grandes homens brasileiros.

O primeiro índice fundamental da passagem para a ação foi a construção de Brasília. Por mais que se queira negar, por mais que se queira, com pequenos argumentos, diminuir a importância desse gesto, acredito firmemente que significou o momento decisivo da ação cultural brasileira. Dentro da concepção de que nos trópicos convivem pólos opostos, podemos dizer que Brasília tenta unificar o cartesiano e o barroco, isto é, o espontâneo ou natural. E por que o aspecto cartesiano na construção de Brasília? Por causa da necessidade de, através de um certo formalismo, de uma certa hierarquização, de uma forma simétrica, realmente propiciar um sistema adequado ao desenvolvimento do pensamento globalizante do todo brasileiro. E tudo que possa haver de excessivamente cartesiano na concepção de Brasília foi rapidamente compensado, em termos de espontaneidade, pelo surgimento de uma constelação de cidades satélites, trazendo o pó, a presença dos valores naturais, oriundos de todas as áreas brasileiras, balanceando os excessos de racionalismo porventura existentes na cidade.

Quero ainda citar dois exemplos, na área da criatividade artística. E por que nessa área? Porque o artista possui uma argúcia, uma espécie de radar ou de percepção mais rápida do que se encontra noutras formas de desenvolvimento cultural. Peço desculpas por citar dois exemplos que me são muito caros no plano sentimental e afetivo. Mas, ao mesmo tempo, acredito que justamente pela existência do plano afetivo é que o conhecimento se torna mais amplo, mais profundo e mais adequado. O primeiro exemplo que eu citaria é a obra escrita de Ariano Suassuna. O escritor encontra-se num posicionamento, num tipo de comportamento criativo que é novo no contexto brasileiro. E, como no símile da corrida de revezamento, utiliza-se do material, da substância, do bastão da ligação com a cultura hispânica, com a cultura ibérica. O próprio Guimarães Rosa, que se poderia contrapor como antecessor de Ariano, acaba comprometendo a força de seu posicionamento pela carga excessiva no uso do instrumental, da língua. Ariano utiliza uma linguagem normal e quotidiana, sem abusar desse elemento linguístico ou instrumental. Ariano não necessita do descritivo, do anedótico, do linear. A pedra do reino pode ser lida em qualquer página, qualquer página contém o todo do livro. Certa crítica literária superficial acusa o livro de repetitivo, esquece que ele é reiterativo e que cada página contém o todo do universo do próprio livro.

O outro exemplo que eu citaria como posicionamento novo, além de Brasília, além de Ariano Suassuna, é o do pintor Francisco Brennand. Aí o problema é mais complexo. Porque o veículo — no caso de Ariano Suassuna, a linguagem — , o veículo do pintor, a maneira de expressão plástica neste momento histórico, nesta etapa da trajetória histórica do processo plástico, está totalmente transtornado. Os valores antigos foram arrebentados e não há nenhuma forma de apoio mais imediato para a expressão do pensamento plástico. E vejam bem que Brennand, de maneira criativa e absolutamente correta e coerente, não se preocupou com o o moderno. Brennand se preocupou com os renascentistas, com os pré-renascentistas, o máximo que concedeu foi chegar até os impressionistas, até Cézanne. Porque para ele não teria sentido um comportamento que teria sido mimético quanto a modelos estrangeiros, como de resto é o comportamento da maior parte dos artistas plásticos brasileiros. Ele queria ir ao encontro de uma forma de autenticidade cujo caminho não passaria através do processo moderno de expressão plástica. E ele tem a coragem, a imensa coragem, de dar o salto e de assumir a responsabilidade de um posicionamento que se poderia chamar primitivo. Ainda mais, assume a responsabilidade de reativar aquilo que é profundamente caro ao homem, que são os valores do decorativo. Qualquer atitude mimética teria rejeitado o decorativo como sendo arte menor, como sendo uma arte sem significado. O salto que ele foi obrigado a dar foi muito maior do que o que Ariano teve que dar.