Que razões levaram o governo a escolher um designer para o IPHAN?

Pedro Redig

25/4/1979

Revista Isto É

A. M. – Seria interessante recuar um pouco no fundamento de criação IPHAN. O espírito da proposta (de Mário de Andrade) era de que bens culturais devem ser tomados como uma gama de objetos feitos pelo homem brasileiro. Desde o arqueológico até a preservação dos bens culturais do presente.

Está no centro da questão o relacionamento entre tecnologia e comunidade, desenvolvimento e comunidade. Nesse processo de luta enfática, de posicionamento do desenho industrial, me chamou atenção detectar a perda de valores culturais pela rapidez com que o processo de desenvolvimento é imposto, sem a necessária reflexão entre o que nós importamos como forma de fazer tecnológico necessário ao desenvolvimento. O trabalho que fazemos no CNRC é justamente o de identificar os segmentos da realidade que devem ser conhecidos e preservados, evitando o choque cultural.

Pedro Redig – Quer dizer que o IPHAN, de certa forma, estaria predisposto a proteger, inclusive, o patrimônio resultante do lixo industrial. Seria um patrimônio artístico?

A. M. – Sem dúvida, sem dúvida. Pelo que contém de criativo nesse processo. Você já imaginou o que é do lixo, de uma coisa que não tem mais uso, que foi considerada desusada, você retirar uma nova matéria-prima, e essa matéria-prima ser transformada em outro produto e esse produto ter encaixe e conveniência para o uso coletivo? Você vê o grau de elaboração que já chegou, no sentido da forma, adequação da forma, adequação da matéria-prima. O bujão de lixo que não machuca, que corresponde ao tamanho de uma casa média da família do Nordeste. Que é um utensílio que corresponde a uma necessidade básica da comunidade. Que ele já elabora ao nível da maneira de se carregar melhor, de se tampar, até o nível de se decorar esse objeto. Então, esse processo criativo, ele tem uma grande importância.

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