O ESCORRÊGO

Vasconcelos, Everardo.

Recife, cidade sem monumentos, Artes Gráficas da Escola Industrial Government Agamemnon Magalhães, 1954.

fonte: UT Libraries 2008

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… o projeto de lei não poder ser aprovado, de vez que não houvera concorrência. Os seus pares balançaram a cabeça num apoucamento injustificável, concordando com a preliminar, a concorrência foi feita, mestre Bibiano a ela não concorreu, o paulista Luis Morrone — aliás merecidamente — foi o vencedor e o segundo prêmio, contrariando um edital e sem ter havido um protesto do sr. Paulo Cavalcanti, que fôra antes tão rigoroso no cumprimento duma formalidade tola, foi adjudicado a dois representantes de um suspeitíssimo “Atelier de Arte Moderna”, a mesma dupla que mais tarde seria encarregada da confecção do “Escorrêgo da Pracinha”.

O TRICENTENÁRIO

Do programa de comemorações do Tricentenário da Restauração Pernambucana deveria ter constado a ereção de um monumento aos herois da resistência contra os holandeses, como fez São Paulo ao comemorar o seu Quarto Centenário de fundação, com vários monumentos, inclusive o às “Bandeiras”, de Brecheret, erguido no Parque Ibirapuera. Aliás, existe aprovado um projeto de monumento que seria erroneamente erigido nos Guararapes. Mas, o governo federal deu uma verba “mincha” para as comemorações, e, somente para que não passasse em branco, a Prefeitura entregou ao “Atelier de Arte Moderna” a incumbência de construir uma obra ligeira, em compensado de pinho, e gesso, na Pracinha, ponto em que ficaria durante as comemorações oficiais, em janeiro. Então o sr. Paulo Cavalcanti, que é tão pronto em fiscalizar a conduta dos poderes públicos, não entrou em confabulações com os seus parceiros da Câmara Municipal para que “baixassem a lenha” e exigissem abertura de concorrência pública, porque o tal “atelier” pertence a turiferários do Partido Comunista e seria anti-partidário prejudicar os “tovaritchs” encarregados da execução do “monumento”. Assim, sem um protesto dos legisladores municipais, um arquiteto planejou um arco (?) em três planos, com uma espécie de passadiço ligando à meia altura as duas colunas laterais e terminando por abraçar um esguio obelisco de três faces, conjunto desproporcionado e de simbolismo complicado (se é que teve isso) que a irreverência popular apelidou de “escorrêgo da Pracinha”.

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Para completar a “obra-prima”, um fabricante de monstros fez três bonecos com pés de aristim, armados com escudos romanos e com espadas em posição de descanso, todos com a mesma fisionomia desanimada, como se procedessem de uma mesma forma, entrempados numa espécie de caixão de compensado, à guisa de pedestal, bonecos que deveriam representar o branco, o negro e o índio — as três raças que se bateram pela libertação da Colônia durante quase quarto de século — mas que, monstrengos ridículos, apenas provocaram hilaridade entre a populaça, que os apelidou de “Vicente, Caiçara e Lula”, os “Três patetas”, e uns tantos outros apelidos impróprios de serem aqui repetidos.

UM MONUMENTO

Falamos, linhas acima, que existe, aprovado, um projeto de monumento que seria erroneamente erigido nos Guararapes. Durante a interventoria de Agamenon Magalhães, no Estado Novo, foi aberta concorrência para um monumento que deveria custar o máximo de dois milhões de cruzeiros e ser erigido nos Guararapes, para inauguração quando dos festejos comemorativos da primeira batalha travada naqueles montes. Celso Antônio, Bruno Giorgio, Brecheret, Vera Janacopulus e Celita Vacani (esta que não queria se sujeitar aos termos da concorrência), inscreveram-se e apresentaram trabalhos relativamente bons, levando-se em conta o custo da obra (maquetes que foram expostas no Clube de Engenharia e hoje se encontram na Escola Industrial Governador Agamenon Magalhães, na Encruzilhada).

  • p. 45

Não é de mais acrescentarmos aqui um capitulo sobre o belo monumento a Sacadura Cabral e Gago Coutinho, erigido bem em frente ao local onde os dois heróicos aviadores desembarcaram no Recife, há 32 anos, numa das etapas do audacioso “raid” que realizaram de hidro-avião, atravessando o Atlântico pela primeira vez, pelo ar, e uma prova de que um arquiteto, “especialista” de um suspeito “Atelier de Arte Moderna”, não passa de um mero plagiário, pois, “projetando” um “monumento” que foi erigido na Pracinha, nada mais fez do que copiar a majestosa entrada do Autódromo de Buenos Ayres, precisamente no momento em que retornava de uma visita à capital portenha.

  • p. 50

Aloisio Magalhães, “artista” de um suspeitíssimo “Atelier de Arte Moderna”, juntamente com o escultor Abelardo da Hora, foi encarregado pela Diretoria de Documentação e Cultura de fazer um monumento comemorativo do Tricentenário. E o “artista” projetou um “escorrêgo” que foi, nada mais, nada menos, que uma cópia da monumental entrada do Autódromo de Buenos Ayres, cidade donde o “artista” voltara há poucos dias antes da Diretoria de Documentação e Cultura, sem concorrência entregar-lhe a incumbência de fazer o “escorrêgo”, que teve a enfeitar-lhe três bonecos monstrengos, filhos naturais do Abelardo da Hora, em má hora escolhido para fazê-los.

Vainsencher, Semira Adler – Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco
15/7/2003

Em 1954, a praça da Independência constitui-se no centro das comemorações do tricentenário da Restauração Pernambucana. Um conjunto de esculturas em gesso – simbolizando “as três raças unidas contra o invasor” -, bem como um arco de triunfo, ambos criados pelo notável escultor Abelardo da Hora, são erguidos ali.