Da Itália e do Brasil as homenagens a Aloisio Magalhães

1982

UT Libraries 2008

SPHAN próMemória

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O Ministério dos Bens Culturais e Ambientais do Governo da Itália criou, em julho passado, o prêmio “Aloisio Magalhães“, que será atribuído aos trabalhos de pesquisas desenvolvidos em países latinos sobre o tema “Cooperação cultural como elemento de coesão dos povos de língua e cultura latinas”. A homenagem do Governo italiano aconteceu um mês após a morte do Secretário da Cultura do MEC, quando representava o Ministro Rubem Ludwig em Veneza, no Seminário sobre cooperação cultural entre países de cultura latina.

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“Relembrando Aloisio Magalhães, o contorno que fica mais nítido na sua imagem é a total dedicação ao interesse público. Nada senão sua disponibilidade, poderia explicar a paciência com que ele se entregou à montagem institucional de seus projetos. Que guerrilhas administrativas, quantas excursões delicadíssimas a chefes de gabinete solenes, vencendo resistências impermeáveis a qualquer argumentação (menos à de Aloisio), quanto respeito e tato para erguer os andaimes financeiros de sustentação de seus projetos. Não havia porta ou burocrata que resistisse a seus encantos, à honestidade e à persistência gentil com que apresentava suas reivindicações. Uma vocação irresistível para a causa pública, além dos interesses pessoais ou de classe, raríssima na política brasileira onde o auto-benefício e os cálculos mesquinhos são de bom tom. Essa dedicação era solidamente fundamentada num compromisso fundamental com a sociedade brasileira. Apesar de ser um homem cosmopolita, sofisticado, o anti-caipira, era fascinado pelos assuntos e pelo fazer da gente brasileira. Uma consciência nacional acima das facções políticas ou ideológicas. Num momento que pretende ser de transição, era o homem público ideal, porque aberto ao diálogo, ao debate, receptivo à contestação, à crítica. Acreditando sempre nas vantagens da conversa, do entendimento. Fez bem em não esperar que um outro regime pudesse acolher mais entusiasticamente, quem sabe, seus planos renovadores. Quase premonitoriamente, aproveitou muito bem seu tempo. Mas antes que mais palavras possam transformar Aloisio em monumento, o que ele acharia detestável, o que fará falta mesmo será o amigo dedicado. Era a mesma disponibilidade desinteressada, tão pouco encontrada nos políticos e nos homens públicos que não sabem nunca pousar no convívio. Nesses tempos de grande voracidade na área intelectual o ritmo de Aloisio era um bálsamo. As alturas do poder quase nada sacrificaram a graça que ele sabia conferir aos encontros com seus amigos. E nos dele retirar”.

(Paulo Sérgio Pinheiro, professor de Ciência Política da UNICAMP)

“(…) Figura humana singular, o Aloisio. Era homem generoso por excelência. Sorriso aberto, nos olhos e no bigode, resplandecia no entusiasmo de suas ideias e ideais. Espírito criativo e inquieto, dava gosto ouví-lo desfiar, por horas seguidas e de um só fôlego, item por item da sedutora e complexa pauta de cada uma das reuniões do Conselho de Curadores da Fundação. Fico imaginando as dificuldades que deve ter tido para exercitar seu ânimo inovador, a sua visão prospectiva, no emaranhado de burocracia que costuma tolher a ação do administrador público (…)”.

(Antônio Augusto dos Reis Veloso, diretor do Banco Central e Conselheiro …

Com aquela presença insinuante, aquela voz sonora, as frases claras e as palavras bem pronunciadas, o Dr. Aloisio nos transmitiu a todos uma mensagem de otimismo, uma saudável mensagem de cumprimentos, quando durante todo o tempo, a alegria foi o tema central da sua saudação: o viver alegre da cidade, o espírito jovial dos moradores, a alegria transparente em cada diamantinense, transmudada até em casas cuidadas e pintadas ou em cantos, sorrisos, música e na satisfação de ser hospitaleiro (…)”. 

(Leandro Gomes da Costa, comerciante e professor de literatura).

Contei-lhe (a Lúcio Costa, seis meses depois de estar à frente da SPHAN, ainda IPHAN), o meu dia-a-dia no Instituto e ele comentou:

‘Quer dizer que além de tudo você está se divertindo muito?’

Pois é, aprendi a encarar taticamente os obstáculos desse tipo de encargo. Senão, como superar a ansiedade das salas de espera, a dúvida do vou ou não vou conseguir, a sensação de nos sentirmos uns chatos de tanta insistência na luta semtrégua para obter recursos? Tendo-se tática, um dia aparece a brecha para o diálogo com os que planejam e soltam dinheiro. Quando se trata do bem cultural, não há quem queira ser contra.

(Entrevista ao Jornal do Brasil, 5/1/81).

“(…) Para ele, o que valia era a ideia: se fosse boa, ótimo. Se não, parte-se para outra. Sobre sua trajetória de mudanças e imprevistos, dizia, quando o criticavam:

“São as minhas contradições, doutor”,

naquela sua fala compassada e sotaque pernambucano que nunca perdeu. Penso que o trabalho iniciado por Aloisio já contaminou, nos diversos escalões, àqueles que nele confiaram e lhe deram a necessária contribuição e que, assim, dar-lhe-ão prosseguimento. Ele acreditava nas criaturas”.

(Mário de Lima Belfort, arquiteto).

“(…) Contei-lhe certa vez que me preocupava, por estar ele se desviando da sua virtude principal de pintor de quadros e ele me respondeu:

“Não se preocupe, meu caro; o mais  importante é que o artista participe amplamente da comunidade e não se limite às dimensões de um quadro”.

Neste momento percebi que ele fizera uma opção pelo social. Era preciso participar da construção da Nação que, segundo ele, estava precisando urgentemente de um artista plástico para dar beleza e estética ao meio ambiente (…)”.

(Ageu Magalhães Fº, médico).

“Ninguém mais do que Aloisio Magalhães era tão espontâneo em desejar vida aos amigos e demais conviventes. A todos saudava: Viva! — renovando a mesma saudação a cada reencontro, sempre feliz em desejar felicidades aos outros. Assim foi na juventude, à porta do “Jornal do Commércio”, ponto de partida para as noitadas boêmias entre o Recife e Olinda, com Félix de Athayde e Carlos Pena Filho, quando aos versos deste juntava a sensibilidade artística do tocador de violão e cantor das madrugadas que foi Aloisio (…)”.

DEPOIMENTOS

Iniciada no dia 23 de março de 1981, a CPI teve como primeiro expositor o Secretário da Cultura do MEC, Aloisio Magalhães, que, entre outras questões, abordou a política adotada para a preservação e conservação dos bens culturais do país, remetendo-se ao trabalho pioneiro desenvolvido por Gustavo Capanema, Mário de Andrade e Rodrigo Mello Franco de Andrade, que resultou na criação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, “notável instituição a que a Nação brasileira deve muito”. “A lei que criou essa instituição, o documento de Mário de Andrade que concebeu esta instituição – disse Aloisio Magalhães  — que os componentes culturais brasileiros, na sua diversidade, vão desde os arqueológicos até os de belas-artes, passando por etnografia, por botânica, por arquivo, por livro — enfim, pelo universo de que se compõe, verdadeiramente, o perfil cultural de uma nação. Curiosa e felizmente, a percepção desses homens foi completa na medida em que a lei votada contempla esse universo tão amplo. Foi possível que guardássemos na lei, no instrumento legal, a dimensão verdadeira do patrimônio cultural brasileiro”.

“Nós, diante da aceleração do processo brasileiro de desenvolvimento, que põe em risco, como está pondo em risco, a nossa autenticidade, a nossa verdade, o nosso perfil de identidade nacional, temos que mobilizar tudo a partir desses componentes pretéritos, para chegarmos a uma ação mais efetiva, forte”,

disse ainda, Aloisio Magalhães. A uma observação do Deputado Fernando Coelho de que haveria por parte do Governo da União uma indefinição quanto à política cultural Aloisio Magalhães admitiu:

“Não há a menor dúvida de que a política cultural —e aí se entenda política na sua verdadeira acepção — o conceito de visão de conjunto, a aproximação dos fenômenos como uma linha de apreciação correta, não existia no Brasil, ou existia de maneira fragmentada e compartimentada, dentro de divisões setoriais e com pouca aproximação do fenômeno em conjunto.

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… ele projetava para nossa cultura: a conquista em leilão dos Autos da Inconfidência; o tombamento de Ouro Preto; sua escolha para o Bureau Internacional de Patrimônio Histórico, da UNESCO; o tombamento de Olinda; e se Veneza lhe tivesse permitido, teria ido até Cracóvia, logo em seguida, começar uma negociação em torno das aquarelas de Marcgraff, artista da época de Maurício de Nassau, com mais de 600 trabalhos inéditos sobre a flora e a fauna brasileira (…)”.

(Corinto de Arruda Falcão, representante da Hotelaria no CNTur – Conselho Nacional de Turismo).

“(…) Em Londres, ao entrar num antiquário indagou sobre livros e gravuras do Brasil. Ao vislumbrar nas mãos da vendedora oito litografias de Luís Schlapprirz, datadas do Recife — 1863, o nosso Aloisio, à maneira dos comerciantes árabes de diamantes, colocou os óculos escuros de modo que o brilho dos seus olhos não denunciasse o interesse pela compra. Ao efetuar a compra, triunfante e já sem os óculos que lhe escondiam o brilho do olhar, afirmou, apontando para a gravura onde se lia “Vista da Cidade de Olinda (tomada do Pharol)”.

“sabe, eu resido aqui” (…)”.

(Leonardo Dantas …

Na verdade, nós, do terceiro mundo, reivindicamos uma conceituação de bem cultural muito mais abrangente, muito mais ampla. Nós podemos inserir no conceito de bem cultural toda uma gama importantíssima de comportamentos, de fazeres, de formas de percepção de uma realidade que na verdade não está cristalizada, da qual sequer há ainda uma representação clara, mas que justamente pela sua fragilidade, pela sua vitalidade, pela sua importância como indicadores de uma formulação de identidade cultural, são bens que precisam ser preservados.

(Saudação aos participantes do V Curso Interamericano sobre Administração Cultural). 

“(…) gostaria de destacar uma obra tão relevante quanto as outras, e que com o passar do tempo ganhará ainda maior amplitude. Trata-se da integração das comunidades no projeto cultural da Secretaria através da participação dos órgãos locais, públicos e privados, e sobretudo da população. Esse trabalho, descentralizando o planejamento e a execução e permitindo um fluxo incessante de alimentação, dará ao projeto – necessariamente renovável – dimensões verdadeiramente nacionais. Como Aloisio dizia, o fenômeno cultural é espontâneo, não pode ser manipulado, nem direcionado através de normas exaradas à distância, na segregação dos gabinetes”.

(Ana Maria Miranda, artista plástica e poetisa).

Quando eu assumi o Patrimônio lembro-me de ter visto uma capela sendo restaurada numa pequena comunidade do interior do Nordeste, e havia uma placa dizendo o custo da obra: cinco milhões de cruzeiros. Eu fiquei perplexo com a relação entre o valor daquela restauração e a situação da comunidade, o nível de vida das pessoas que viviam em torno daquela capela. Quer dizer, não encontrei uma lógica entre a necessidade de sobrevivência da comunidade e o custo de cinco milhões de cruzeiros da restauração; algo me parecia errado nesta dicotomia. Ora, isto veio ao encontro das ideias que já defendíamos e trabalhávamos no tempo do CNRC, que é justamente entender o homem dentro do contexto, o que ele faz, como vive, como sente, como se ajusta ou se adapta, como enriquece ou empobrece, em função do contexto. O que se tornou óbvio é que era preciso sair da faixa em que predomina o restauro do bem imóvel no seu esplendor, quando a comunidade já não tem condições sequer de sobrevivência e, portanto, como poderia entender esse esplendor? Cabe também perguntar por que essa comunidade perdeu as condições de vida econômica e social que levaram-na à construção de um monumento esplendoroso? E até que ponto se poderia, através de um trabalho com a comunidade, retomar certos filões ou certas linhas de conduta que, naturalmente, não levariam por si só a um novo florescimento econômico, mas pelo menos a um melhor equacionamento da relação entre indivíduo e comunidade, seu bem-estar, sua economia e seu trabalho que permanece e pode chegar ao nível de um bem patrimonial? Isso nos leva também a pensar que bem patrimonial não são apenas aqueles bens sólidos e pertencentes ao passado, mas são os fazeres cotidianos.

(Entrevista à revista Interior, do Ministério do Interior, outubro/1980).

“(…) Em todo o País,  o seu trabalho de remanejamento, paciente e cuidadoso, executado nos meios culturais de todos os tipos, foi verdadeiramente pioneiro. Foi ele quem conseguiu estabelecer as bases de uma integração, que agora se esboça entre a cultura urbana cosmopolita e a cultura urbana do interior do País (…)”.

(Maurílio Torres, diretor-executivo da Fundação de Arte de Ouro Preto e editor-chefe do “Jornal de Ouro …

Ele não queria deixar de agir, e muito, e logo, pela Pátria comum. Como se …

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… estamos tentando fazer é uma caixa de competência: um quadro onde o indivíduo entra. E o vai percorrendo horizontalmente, à proporção que o seu desempenho é bom. Então, ele vai ganhando mais dinheiro e responsabilidade, passando de um patamar a outro, mais alto, até chegar ao final de uma carreira onde tem, vamos dizer, uma plenitude de controle, de conhecimento. Não tem nome. Pode ser arquiteto, economista, sociólogo, antropólogo, mas se chama CT — é do Corpo Técnico. Pode ser CT 1, nível 1, ou 2, etc. Estou querendo dar uma visão de que o programa é interdisciplinar, o que significa que o trabalho é em várias áreas do saber, combinadas, e que não é possível distinguir, na hierarquia, a postura do arquiteto da do sociólogo, a do economista da do simples artesão. Então a próMemória alimentará o sistema e a existência da Secretaria se resume a isso: é o órgão normativo.

(Palestra na Casa Romário Martins, Curitiba – PR, 1980).

“Antes de conhecer Aloisio, fiquei conhecendo coisas que ele fazia — pinturas que me encantaram, livros que são um primor de arte gráfica. Isso vem dos anos 50, do tempo do Gráfico Amador, esse admirável grupo do Recife, inspirado ou orientado por João Cabral de Melo Neto, como gráfico, não como poeta, e de que faziam parte com Aloisio, entre outros, Gastão de Holanda, José Laurênio de Melo, Carlos Penna Filho, Orlando da Costa Ferreira, Ariano Suassuna e Sebastião Uchoa Leite. Amigos daqui e do Recife me falavam, dele, elogiando-lhe o talento, a criatividade, a simpatia, o contato humano. Não saberia dizer quando nos encontramos pela primeira vez, mas foi há bastante tempo, e a sensação que tenho, apesar de nossos encontros terem sido espaçados, é de uma amizade muito antiga, sempre descobrindo novas afinidades, interesses comuns. As conversas fluíam espontâneas, as ideias, os projetos de trabalho surgiam aos borbotões, num crescendo que não demorava a atingir a estratosfera. Mas o curioso é que tinham base concreta, tanto que muitas dessas ideias, que pareciam fantasia utópica, se transformaram em realidade. Sabia sonhar. Seu projeto favorito, de preservar a memória nacional, criou raízes, e Aloisio conseguiu estruturá-lo de tal forma que vai, estou certo, prosseguir na sua ausência, como pode prosseguir na sua ausência todo o programa cultural que elaborou. Falo de ausência, e não de desaparecimento, pois sinto sua figura presente, a servir de orientação e estímulo (…)”.

(José Mindlin, empresário, Conselheiro da FNPM).

(Estou sendo)

Muito utópico, e isso não me ofende. Nada que tenha um significado mais profundo deixa de ter certo aspecto utópico. Ele estimula a perseguição. É próprio do utópico você não atingí-lo, mas, se não for em busca dele, se você não quiser sair do convencional, aí então o marasmo será inevitável.

(Entrevista à revista ISTO É. 13/1/82)

Aloisio sempre soube criar os meios e organizar os processos para a produção cultural. Sempre bem. Sempre procurou ver o simples nas questões complexas. Decerto por saber que os largos objetivos sempre acolheram resultados marginais, o que tornava falsamente difíceis esses processos resolutivos complexos. Agia com simplicidade por compreender que os processos simples sempre levam os resultados ao centro da sinceridade. Revolvendo a memória lembro um problema (complexo) permanentemente tratado por Aloisio: tomar memorável o instantâneo, tomar singular o plural. Os Volantes do Gráfico Amador são um exemplo. Volante: bilhete impresso; texto editado para circular de mão em mão; papel ocasional, forte todavia para memorizar o instante e o seu interesse. A tiragem desses Volantes, diante do porte das edições do Gráfico Amador, era alta: 250/300 exemplares. No entanto cada exemplar era uma peça original. De constante, apenas o texto poético. De variável, o grafismo do suporte — retraços de papel, restos de provas, experiências e ensaios fotolito-gráficos da Falcon Press (Filadélfia). O Volante 1, editado em 1957, registrava o poema de Vinícius de Moraes — Receita de Mulher. Distribuído durante a festa do segundo aniversário do Atelier 415, foi o “leit-motiv” daquela noite. O Volante 3, foi preparado para a exposição de Aloisio Magalhães realizada em setembro de 1958, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Ainda sobre fotolitografias que desígnios determinaram o registro, por Aloisio, em 1958, desses inquietantes versos de José Laurênio de Melo, em poema tão antecipa (dor): “Era mesmo preciso? Era preciso que o tempo, com seu martelo me esfarelasse os ossos, me pulverizasse os sentidos? Era preciso que o mundo montasse nos meus ombros e eu não pudesse erguer um canto testemunhal, uma lápide, uma inscrição?” Ver o simples e fazer com o menos sempre o mais foram os segredos que Aloisio procurou repartir com todos nós”.

(Moisés Andrade, arquiteto).

Na época do Portella, eu simplesmente não entrei (na estrutura burocrática do MEC). Se eu entrasse, não conseguiria fazer o que precisava ser feito. Fiz a Fundação Nacional próMemória. O ministro Delfim não queria, o ministro Golbery não queria, ninguém queria. Não se criariam mais fundações no Brasil. Era preciso que o Congresso estudasse o assunto e, se ele desse licença etc, etc. Tudo foi feito entre Portella e eu, dialogando, sem nunca dar entrada num papel no MEC.

(Entrevista à revista ISTO É, 13/1/82).

Para as pessoas ligadas à cultura, Aloisio representou o incentivador da cultura e sempre foi confundido como Ministro da Cultura do Brasil, Ministério que se esperava, fosse criado a qualquer momento. Ao representar o MEC, em reunião dos Ministros de …

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… preservação do nosso século XVIII. E o Patrimônio descobre o pouco que resta do nosso século XIX, a paisagem é vista como um bem cultural e não só isso, nosso artesanato e até o nosso versátil caju. Veio a Secretaria da Cultura do MEC e uma nova visão da cultura brasileira no seu todo, rever posições, arrumar a Casa da Cultura (…)”.

(Haroldo Barroso).

“(…) E lembro particularmente quando, em São Luís do Maranhão, num bairro pobre onde as casas eram revestidas de azulejos modernos muito mal-vistos pelos intelectuais presentes, Aloisio me segurou o braço e disse :

– ‘Por mim, tudo isso deveria ser preservado’.

Durante a visita às obras que a Fundação estava realizando em Cachoeira, na Bahia, pude conversar mais demoradamente com Aloisio, principalmente quanto à destinação que poderia ser dada à Casa da Família Lacerda (na Lapa, no Paraná). Ponderado, sugeriu-me que auscultasse a comunidade, declarando-me que a Fundação próMemória faria aquilo que a cidade decidisse (…)”.

(Sérgio Augusto Leoni, Prefeito Municipal da Lapa).

“(…) A sensibilidade do esteta aliava-se ao espírito público do administrador e a riqueza interior da alma do artista requintava as grandes obras, postas a serviço da coletividade. Esse traço singular do perfil de Aloisio Magalhães era sublinhado pela sua permanente preocupação em dar um destino utilitário e humano aos edifícios e monumentos, restaurados ou construídos. Os velhos solares deviam servir como escolas, nos casarões antigos funcionariam os abrigos, e os logradouros adaptados atenderiam à gente humilde da vizinhança (…)”.

(Macedo Costa, Reitor da Universidade Federal da Bahia).

Eu sei que muita gente picha o IPHAN — instituição parada, críticas que tenho ouvido nesse Brasil todo — mas eu sempre digo que é preciso ter cuidado, porque as pessoas esquecem o que ele fez de bom. Esquecem que nós ainda temos igrejas maravilhosas, cidades fantásticas, conjuntos incríveis e que, se não fosse o IPHAN, não existiriam. Então, as pessoas reclamam pelo que não feito e esquecem do que foi feito, ignoram. Esquecem, por exemplo, de que na década de 30 se derrubou um dos maiores monumentos da Nação brasileira, a Catedral de Salvador, na Bahia …

(Palestra na Casa Romário Martins, Curitiba-PR, 1980).

“(…) A luta nos primeiros anos do Patrimônio foi quase que circunscrita aos monumentos, pois as dificuldades eram muitas e diminutas as verbas para enfrentá-las. Não se havia, ainda, formado uma consciência histórica e muito menos um conceito de arquitetura-documento. Era enorme a  quantidade de exemplares da melhor qualidade que desapareciam anualmente, em todo o País, por ruína ou demolições arbitrárias. Somos testemunhas das lutas sem trégua a que Rodrigo Mello Franco dedicou metade de sua vida.

Assim, também, foi com Aloisio, consumido numa tarefa gigantesca destinada a completar a obra iniciada, isto é, estender as atividades do SPHAN a toda a área cultural. Desde as culturas pré-colombianas até as daqueles que, em levas alternadas, vieram povoar este País. A primeira iniciativa, neste sentido, Aloisio ainda a impulsionou no Centro Nacional de Referência Cultural. Em Orleans, no Estado de Santa Catarina, pessoas da comunidade resolveram contribuir de uma maneira concreta para a preservação viva de suas tradições. “Propunha-se principalmente, a: 1) implantar um Museu ao Ar Livre numa região típica de colonização europeia; 2) indexar e microfilmar cerca de oitenta mil documentos relativos à história da colonização da região e 3) estudar as técnicas empregadas pelos imigrantes do século passado e seus descendentes em suas unidades de produção, como contribuição ao programa de História da Tecnologia e da Ciência do Brasil…” Estive em Orleans.

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… didaticamente para nós no quadro negro era mesmo a que mais convinha aos interesses das artes cênicas brasileiras”.

(Yan Michalski, critico de teatro do JB).

Eu vivo dizendo para o Orlando Miranda (diretor do então SNT): Se você virar fundação sozinho, vai ter que se empetecar, vai ter que virar formal e aí não vai aguentar. Nós vamos encontrar a melhor maneira para que vocês possam gerir a vitalidade do instituto.

(Entrevista ao JB 26/3/81)

Será, talvez, menos conhecida a atuação de Aloisio Magalhães como homem de teatro, que, em épocas passadas não foi tão esporádica quanto se poderia pensar. E foi como homem do visual que se fez sentir, sobretudo, a sua atuação cênica. Os inícios dessa atuação remontam aos anos, entre 1947 e 1952, em que se desenvolveu a atividade do Teatro do Estudante de Pernambuco — TEP, grupo liderado pelo teatrólogo Hermilo Borba Filho, e que agrupava pessoas de teatro e das letras como Joel Pontes, Gastão de Holanda e outros. Essa ligação culminou simbolicamente com o diálogo aberto entre o homem público e a classe teatral, diálogo do qual resultou a criação do Instituto Nacional de Artes Cênicas – INACEN, como ponto fundamental na reformulação das relações entre a iniciativa pública e a coletividade, e dentro desta, particularmente, os criadores do produto artístico e cultural”.

(Orlando Miranda, diretor do INACEN – Instituto Nacional de Artes Cênicas).

A reunião (com o pessoal de teatro) foi profunda e transcendeu o aspecto formal. Os artistas pediram esse encontro e aceitei. Na realidade, houve um reencontro, relembrando um pedaço de minha vida onde convivia com o teatro. Acho que esse dado acrescenta bastante coisa não só no aspecto formal, mas vivencial da coisa. Já de saída, foi rico e gratificante. Defrontei-me com uma situação complexa. A classe está mobilizada, coesa, tem força e coerência.

(Entrevista ao JB, 29/3/81).

Aloisio Magalhães era um homem que fazia conviver dentro de si o realismo e o sonho. Sua argumentação era precisa e brilhante. Dotado de uma extraordinária noção de tempo e ação, própria dos políticos mais hábeis e argutos. Creio de mérito extraordinário sua redefinição abrangente de bem cultural, e a maneira pela qual lutou para que suas ideias não ficassem apenas no papel. Como artista plástico; “designer”, um dos nossos mais importantes artistas gráficos, foi um produtor cultural às voltas com o problema da modernidade. Em seu querido Centro Nacional de Referência Cultural ou Fundação próMemória pôde satisfazer seu telurismo de pernambucano, de Olinda, enfrentando a delicada dialética entre a raiz da cultura e os frutos dessa mesma cultura. Uma de suas frases resume a forma pela qual via o problema:

“um País que constrói Itaipu tem de resolver o problema da Biblioteca Nacional”.

Via em conjunto a questão cultural – seu lado patrimonial e seu lado dinâmico. Via a memória como plataforma de referência; instrumento de identidade, função de inteligência. Seu Centro Nacional de Referência Cultural teve por finalidade identificar costumes, criações, gestos e hábitos que compõem as qualidades de invenção e graça do brasileiro. Acreditava que o homem brasileiro tinha obrigação de criar para si um desenvolvimento que não o violentasse, e assim criar uma tecnologia adaptada às suas necessidades. Afirmava que o homem deve estar exposto a alternativas, e não submetido a escolas, planos e projetos pré-determinados. Na Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, e, posteriormente, na Secretaria da Cultura agiu sempre como um patrimonialista renovador buscando o equilíbrio entre a preservação e o desenvolvimento. Foi sempre fiel a uma noção generosa: a de que revitalizar os bens culturais de uma comunidade é devolver a essa comunidade as riquezas que lhe pertencem.”

(Roberto Parreira, presidente da Empresa Brasileira de Filmes – EMBRAFILME).

“(…) Temos certeza que cada vez que olharmos para alguma coisa que nos lembre cultura, ali estará sua presença viva, em nossos pensamentos  (…)”.

(Altino Benedete, artesão).

“No Largo do Varadouro, à entrada de Olinda, o prédio de uma antiga fábrica de doces desativada há muitos anos está sendo transformado em mercado público. Ali deverão conviver, em princípios do próximo ano, dentre outras, produções de cereais, de frutas, verduras, carne, peixe, artesanato em geral e uma oficina de produção de conhecimento, a serviço, prioritariamente, das camadas populares  a quem este mercado é destinado. Para Aloisio Magalhães, este projeto era um dos mais importantes de Olinda. Viu com alegria e estimulou da melhor forma a ocupação desse espaço no sítio histórico desta cidade tombada, por mestres de fazeres populares. Um encontro “excelente” com diretores de museus, a última peça de um “designer” popular fabricante de móveis, as especialidades culinárias de Dona Zefinha, o tombamento e a restauração de uma “maravilha” arquitetônica de tempos passados, o vento movendo as transparências e as cores da vegetação de Olinda, a visita de velhos parentes, um projeto novo, tinham sabor de vida para Aloisio. O espaço criado por este homem público …

“Para muitos Aloisio Magalhães era o criador do “design” no Brasil. Para outros era o homem de cultura que viveu a sua meta de preservar nossa memória. Para nós, aqui de Olinda, Aloisio era isto e muito mais. Era o artista olindense a desenhar a luz e a paisagem de Olinda. Era um artista fraterno, solidário e inovador. Um grande e inesquecível amigo”. (Guita Charifker, pintora).

“(…) Embora ocupado em tarefas que o conduziam a uma …