Salão de Pernambuco

Continente Multicultural, Recife, CEPE, v. 1, 2001.

fonte: UT Libraries 2008

Patrimônio Imortal – Cultura

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Em Conversão de Santo Humberto, 1962, o artista já utiliza a linha negra sobre espaços brancos e usa temas bíblicos com “roupagem” nordestina A mãe dos homens, 1981. Universo mítico recriado pela personalidade.

Então eu convivia com esses espaços e com cabras, bois, cavalos, passarinhos, cobra, sapo. E tudo isso passou a ser minha referência. Nessa época já estava formada a Sociedade de Arte Moderna do Recife, num apartamento em que Hélio morava. Então ele disse: “Olhe, aqui a gente se reúne. Venha sempre”. Eu não era mais aquele menino, já estava grandinho. Aí eu comecei a frequentar a Sociedade. Ela era visitada por jornalistas, fotógrafos, poetas e intelectuais. Era uma coisa muito boa, com muito bate-papo. E frequentavam também outros jovens com pretensões artísticas, inclusive Abelardo da Hora, que já tinha feito exposições, era um artista já com certo nome. Bom, lá pras tantas, Abelardo falou: “Olhe, esse negócio aqui está muito bom, mas a gente podia aproveitar esse tempo pra fazer alguma coisa e não só para ficar nesse bate-papo”. Quer dizer, nada impedia que se fosse lá de vez em quando, mas ele teve a ideia de juntar essa miuçada toda de jovens e fundar o Atelier Coletivo, que tinha um nome desse tamanho: Atelier Coletivo da Sociedade de Arte Moderna do Recife. E aí a gente começou a se reunir e desenhar numa das salas do Liceu de Artes de Pernambuco, ali do lado do Teatro Santa Isabel. Lá, inclusive, tinha estátuas, mãos, pés, ornatos, tudo em gesso. Abelardo instituiu a coisa da pose rápida. Pior que não tinha modelo…

Então você tinha meio minuto pra esboçar uma figura. Depois trabalhava mais o desenho. Aí, sim, comecei a trabalhar junto de outros artistas ou futuros artistas. Surgiam dificuldades, a gente mudava de casa, até que terminou na rua da Matriz. O Atelier findou-se ali, por volta de 1957, quando eu já tinha resolvido dar uma saída. Escolhi São Paulo. Já conhecia a cidade rapidamente e era um meio mais buliçoso, já tinha museu de arte, era uma cidade grande, com outros atrativos do ponto de vista artístico. Fui saber que o Atelier tinha sido liquidado muito tempo depois. Havia uma conta de aluguel enorme. Um dia (a coisa eu sei por alto), o dono adentrou pelo Atelier e foi pegando tudo o que estava nas paredes, pelos cantos, e foi jogando no quintal. Foi assim que aqueles meus primeiros trabalhos, quase todos se perderam. Alguma coisa Léo, mulher de Zé Cláudio, conseguiu salvar…

Um retrato de um dos participantes do Atelier, Mário Lauritzen Berguen, e mais uma cena que eu tinha começado num pedaço de compensado, daquela favela que você via da Ponte Velha.

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Olhe, eu conhecia naquela época Francisco Brennand, conhecia Aloisio MagalhãesCom Aloisio eu não tinha muito contato, mas quando eu ganhei o prêmio do Salão ele era membro do júri. Então, ele me encontrou e disse:

“Você está indo pra São Paulo fazer o quê?”

Eu disse: “Estou indo pra dar uma volta”. Ele disse:

“Eu sou muito amigo de Lívio Abramo, você quer uma apresentação pra ele?”

Eu digo: “Quero”. Aí Aloisio fez um bilhetinho e eu me mandei pra São Paulo. Ao mesmo tempo (isso é uma coisa de que nunca falei) Brennand me fez uma pergunta muito parecida: o que eu queria fazer e essa coisa toda. Aí disse:

“Eu tenho um grande amigo lá, uma pessoa que tem muita ligação com as artes; eu vou fazer uma cartinha pra ele porque é uma pessoa de quem você pode precisar”. 

Eu digo: “Está certo”. Aí ele fez. E foi bom porque era alguma coisa assim como uma segurança. Ele mesmo me chamou um dia para jantar na casa dele. Bom, isso vai dando a medida de como eu fui chegando para a gravura. Chegando lá eu procurei Lívio Abramo, e ele disse: “Eu estou ensinando gravura na Escola de Artesanato (que pertencia ao Museu de Arte Moderna de lá), você quer uma bolsa? “Quero.” Fui aceitando tudo, né? Aí, no outro dia estava eu lá, fazendo as minhas primeiras experimentações em gravura em linóleo norque ele dava aula em linóleo. A gravura foi uma espécie de topada, um acidente de percurso, porque eu nunca tinha me interessado por gravura. Havia no Rio Grande do Sul o Clube da Gravura, muito conhecido. Seguindo o exemplo, Abelardo pensou em fazer aqui o Clube da Gravura da Sociedade de Arte Moderna. Foi assim que eu fiz a minha primeira gravura. Não foi xilogravura, foi “gessogravura”. Numa placa de gesso. Não por minha escolha, Abelardo que achou que era muito fácil fazer um contorno de madeira e encher de gesso em cima de um vidro. Quando secava estava polido e tudo. Foi assim que ele justificou. E um material horrível pra se gravar, quebradiço. Eu dizia: “Mas Abelardo, a gente com tanta madeira…”, mas não tinha jeito. Então, eu, em casa, pegava um pedacinho de madeira e assim fiz uma ou duas gravuras. Minha experiência, quando fui pra São Paulo era essa. Mas eu já tinha mandado para o Salão daqui. E inclusive ganhei um prêmio, porque o único gravador que concorreu ao Salão fui eu (risos). Eu nunca pensei em ser gravador e acabei sendo ajudado por várias pessoas. Não é engraçado? Quando eu anunciei que ia para São Paulo.