O olhar de Aloisio Magalhães

Ana Luisa Escorel

Folha de São Paulo 2004

A trajetória de um dos maiores designers do país

Não são poucos os que vêem a morte de Aloisio Magalhães como o marco trágico que teria ceifado na base a melhor possibilidade de gestão da política cultural, surgida nas esferas oficiais brasileiras desde Mário de Andrade. Partindo da criação, em 1975, do Centro Nacional de Referência Cultural (CNRC) e do pressuposto de que a noção de bem cultural abrange tanto o patrimônio material quanto o patrimônio imaterial de um país, Magalhães foi capaz de forjar instrumentos extremamente eficazes para, junto com sua brava equipe, “mapear, documentar e entender a diversidade da cultura brasileira” [Cecilia Londres, “O Centro Nacional de Referência Cultural -A Contemporaneidade do Pensamento de Aloisio“, in “Herança do Olhar”, pág. 228], da arquitetura ao artesanato; da paisagem ao fruto nativo; do audiovisual, da ficção literária, das realizações nas áreas das artes plásticas, música e teatro ao design. Num primeiro momento e sempre conferindo a mesma importância às manifestações eruditas e populares, o propósito foi construir de maneira sistemática uma base sólida de informações e referências, a partir da qual pudesse ser traçado o contorno do produto brasileiro, num período em que havia certa sensibilidade oficial para o tema da exportação de manufaturados e alguma consciência de que, sem desenho próprio e bom, nenhum país exporta nada nesse setor. Os resultados do impulso inicial se encarregaram, no entanto, de conduzir Magalhães a objetivos mais abrangentes, quando, num movimento progressivo, o foco sobre a identidade do objeto foi cedendo espaço à questão da própria identidade nacional.

CARREIRA INTERNACIONAL
Entendê-la, registrá-la, protegê-la e difundi-la das mais variadas formas passou a ser a tarefa principal, nesse trajeto iniciado no CNRC, que se expandiu para o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e para a Secretaria da Cultura do Ministério da Educação e Cultura durante o governo do general João Baptista Figueiredo e que, interrompido pela morte, em 1982, já havia conduzido Aloisio Magalhães a uma destacada carreira internacional, como administrador público de bens culturais. Se postas em prática, as premissas vindas à tona em torno de 1930, retomadas por Aloisio Magalhães a partir de 1975, teriam dificultado o retrocesso que se seguiu a seu desaparecimento. Tivesse Magalhães vivido, quem sabe haveria hoje equilíbrio entre os vários setores da produção cultural, do ponto de vista de sua relação com o Estado, diversamente do que vem ocorrendo, quando o acento em áreas que aprenderam a falar alto na defesa de seus interesses e a pressionar decisões por verbas em sua direção e benefício tende a embaçar a visão dos dirigentes, fazendo o país frear o passo e a possibilidade de atender, por meio de ações inteligentes, justas e sistemáticas, à riqueza e à multiplicidade de suas paisagens. Físicas, culturais e humanas. Assim, ao adotar uma visão limitada acerca do próprio alcance, a política oficial da cultura, no Brasil, tem desconsiderado a amplitude que lhe ofereceram Magalhães e seu grupo de colaboradores, nos sete anos em que tentaram desenvolver um projeto inovador. Além do olhar agudo e da inteligência acesa, Magalhães trazia outras qualidades, fundamentais para as tarefas que se colocou no período final de sua breve passagem. Como bom designer, estava acostumado a partir do levantamento e da análise das necessidades – financeiras, tecnológica e culturais – contidas nas encomendas de projetos, sabendo dar a elas a melhor solução no nível da forma e o melhor encaminhamento de fabricação. Como bom designer, acompanhava o processo até o final, até ter o produto fabricado nas mãos. Foi esse o treinamento que levou para os órgãos oficiais com os quais esteve comprometido, fazendo com que se beneficiassem da objetividade de seu enfoque e capacidade de realização prática, dados básicos de personalidade afiados na lida com o design, além de eficientes preventivos contra a endemia da lentidão burocrática. Artista plástico sensível, designer inovador, agente cultural único, Magalhães tinha a precisão total de um olhar definitivo. Ninguém como ele para definir o melhor desenho para um produto, o melhor encaminhamento para um projeto, nem os melhores quadros profissionais para o apoiarem, em suas iniciativas sempre instigantes. O livro dedicado a ele, concepção de Felipe Taborda e João de Souza Leite, projetado graficamente pelo primeiro, organizado e apresentado pelo último, torna acessível uma trajetória de extrema originalidade, até agora praticamente restrita ao círculo dos que conviveram com Magalhães. Encadeados de maneira cronológica, textos e imagens se sucedem num ritmo talvez um pouco entrecortado, fruto da variedade de estilos dos 12 autores e da diferença dos respectivos ângulos de observação. No final, completa-se o esboço da figura, não sem que o leitor tenha que lutar um pouco para unir as partes e completar o desenho.

PAINEL MULTIFACETADO
Clarival do Prado Valadares, ao refletir sobre o Aloisio Magalhães artista plástico; Chico Homem de Mello, ao escrever sobre o designer, e Cecilia Londres, com seu depoimento de membro da equipe de administração cultural, talvez sejam os autores que melhor traduzem a rica personalidade em razão da qual o livro dispõe seus núcleos irradiantes. Alguns textos de Magalhães sobre essas três áreas, por sua vez, completam o painel multifacetado com que se busca abarcar um percurso apaixonante. A esse respeito, são reveladoras as observações feitas por Clarival do Prado Valadares e Chico Homem de Mello sobre, respectivamente, o artista plástico e o designer, no tocante ao tecido visual obtido em cerca de 30 anos de lida com a forma. Ambos chamam a atenção para o uso recorrente da “unidade refletida” e para a importância que ela assume na obra de Magalhães em qualquer técnica e período. Chico Homem de Mello aponta, ainda, o volume e a rotação do círculo tripartido como traços constantes nos símbolos projetados pelo designer. Lança, também, a hipótese interessante de que a aderência de Magalhães à síntese necessária, à criação de sinais gráficos, numa reformulação do compromisso com correntes plásticas de cunho expressivo, tenha se dado não por intermédio dos movimentos concretos, muito em voga no Brasil e no mundo em torno de 1957, mas pela via da convivência com os trabalhos de Paul Rand e Ivan Chermayeff, no período em que ensinou no Philadelphian Museum School, nos Estados Unidos. Valadares, por sua vez, dá um belo exemplo de lucidez, comentando com igual empenho, num texto de 1974, a produção do artista plástico e a do designer, postura tanto mais surpreendente quanto rara em nosso país, até hoje. Finalmente, Cecilia Londres descreve, com clareza e emoção, os pressupostos, os compromissos e os métodos de trabalho de Magalhães e sua equipe, nos órgãos oficiais da cultura, mostrando a enorme carga de antecipação de que se revestiam e a propriedade do prisma que equiparava passado e presente, erudito e popular, tecnologias rudimentares e tecnologias modernas de produção de bens materiais, na busca permanente de “diferentes dimensões da vida social” [Cecilia Londres, ob. cit., pág. 239] e da cultura. Farto em ilustrações que documentam a movimentação de Aloisio Magalhães por seus diferentes mundos e períodos de vida – óleos, desenhos, litografias, aquarelas, projetos de design, fotos de cunho biográfico -, o livro oferece uma viagem iconográfica extremamente rica pelo universo mental de um homem que manteve os pés firmes em seu tempo e o olhar fixado nos horizontes do futuro.


 

 ANA LUISA ESCOREL é designer e autora de “O Efeito Multiplicador do Design” (ed. Senac) .

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