Camões

RIO 1985

UT Libraries 2008

Revista do Brasil

  • p. 40

Gulbenkian apareceu francamente aliada à jovem, mas rigorosa e profícua experiência da Fundação Roberto Marinho, no carreamento de recursos culturais e financeiros para aplicação e preservação do patrimônio cultural. Toda essa hoste profusa, pareceu concentrar suas estratégias no ataque às contradições entre o desenvolvimento urbano e a proteção dos bens imóveis. Diante do prejuízo que a urbanização acelerada causa, tanto à paisagem quanto aos monumentos e conjuntos urbanos tradicionais, supõe-se que só “uma perspectiva ampla e global como a que de ordinário preside a elaboração dos planos de desenvolvimento urbano” traria condições
para a defesa concreta do patrimônio histórico e artístico.
Na prática, essa conjunção entre a preservação de monumentos e o controle físico-territorial, além de fracassar, como todo o nosso planejamento urbanístico, quanto ao essencial — isto é, à melhora do convívio urbano — refletiu, como era inevitável, a infra-estrutura sócio-política do país.

Os planos diretores que inundaram grande número de estados, mesmo os mais bem intencionados, foram organizados de cima para baixo, em nome da higiene e da segurança e sem nenhum respeito pelos ambientes tradicionais.

No fim da década já se esvaíra a euforia autoritária do milagre econômico. Reassumia-se a certeza de que o Brasil é um país na sua maior parte subdesenvolvido, e onde a concentração de renda, a dívida externa e a inflação esmagaram o poder aquisitivo dos trabalhadores levando a maior parte da população à miséria absoluta. Previsões mirabolantes, como a de uma “Megalópolis-Rio-São Paulo”, por exemplo (baseada pelo plano TURIS da EMBRATUR, em dados colhidos na Itália e na Cote D’Azur dos anos 50 e 60), foram tardiamente desmentidas, deixando em seu rastro de corrupção administrativa o turismo especulativo e predatório que, ao longo de um litoral deslumbrante, liquidou rapidamente com enseadas e recôncavos, coberturas florestais, restingas e manguesais, cumes e encostas abruptas, povoados de pescadores e cidades históricas — tudo que ainda era equilíbrio ecológico e paisagem harmoniosa, qualidade de vida natural e integridade local. Entre as metrópoles brasileiras, o Rio de Janeiro mostra a síndrome mais triste da degradação urbana brasileira: deixa de ser a capital, mas vê preservados seus últimos monumentos excepcionais, cuidadosamente tosqueados da vizinhança espúria (… edificações ecléticas, ou de origem “vulgar”), preparando o palco para a sinistra combinação de uma caricatura descabida de Brasília com vestígios isolados e amesquinhados da cidade colonial e imperial.

Em 1963, quando não se viu mais como evitar o espigão desmesurado da Praça XV, no desencanto do IPHAN afloraram os versos de Camões:

“Mudam-se os  tempos, mudam-se as vontades Muda-se o ser, muda-se a confiança; Todo mundo é composto de mudança, Ao sabor das novas realidades.”

Curiosamente, o mesmo poema, lembrado por Lúcio Costa, foi lido em 1979, mas num ânimo oposto, de alegria, por Aloisio Magalhães em sua posse como Diretor do IPHAN. A citação tem mesmo essa dupla conotação cético-otimista, mas troca o quarto verso do soneto 45, aparentemente evocado em 1963, pelo que Camões realmente escreveu (“Tomando sempre novas qualidades”). Hoje, vale a pena relembrar o nono e o décimo versos (que Aloisio bem poderia ter escolhido): “O tempo cobre o chão de verde manto Que já coberto foi de neve fria.” Assim como os últimos (talvez subentendidos por Dr. Lúcio): “E, afora esse mudar-se cada dia, Outra mudança faz de mor espanto: Não se muda já como soía.”

SABORES DA NOVA REALIDADE

Vê-se como, nesse tempo todo, tanta coisa foi admirável. Como se dizia dos reis: o patrimônio morreu, viva o patrimônio! Para recomeçar pelo começo — de que é que tem que tratar o mandamento constitucional de proteção à cultura? Basicamente, de preservar a identidade cultural do Brasil.

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