Conselhos da SEC Prestam Homenagem à Memória de Aloisio Magalhães

Maio-junho 1983

UT Libraries 2008

SPHAN, próMemória – nº 24

  • p. 16

Em homenagem à memória de Aloisio Magalhães, por ocasião da passagem do primeiro ano de seu falecimento, os Conselhos da Secretaria da Cultura do MEC reuniram-se, no dia 13 de junho passado, no Rio de Janeiro, sob a presidência do Secretário Marcos Vinícius Vilaça. A solenidade foi realizada na sede da FUNARTE e teve como orador o Conselheiro Fernando Moreira Salles, que, em nome dos seus colegas, fez o seguinte pronunciamento:

“0 Dr. Marcos Vilaça pediu-me que, perante vocês, evocasse a memória de nosso amigo Aloisio. Queria agradecer-lhe o convite. Neste momento grave que estamos vivendo, de reavaliação agônica do que somos e para onde vamos, esses dias de falta de crença e esperança, foi bom lembrar Aloisio.

“Reencontrei sua vivacidade, seu otimismo, seu desassombro diante da dificuldade. Foi reconfortante. Lembrei coisas ainda mais raras: o homem público com vocação pública, e o bom amigo. Foram para mim momentos quase alegres que queria repartir com vocês.”

Escolho não traçar-lhes um perfil biográfico nem percorrer passo a passo sua obra multifária, poliédrica. Todos aqui o conheceram e muitos acompanharam seu trabalho. Por isso é a natureza de sua inquietação, o fio condutor de sua reflexão, ou ao menos aquela parte que me tocou assistir, que queria relembrar com vocês. E se me perdoarem a esquematização, que certamente teria feito sorrir Aloisio, eu queria me referir a quatro noções:

— 0 valor da memória.

— A necessidade de ampliar a noção de bem cultural.

— A vitalidade da ideia simples.

— A importância da contradição.

“Escolhi em primeiro lugar o valor da memória porque creio que Aloisio preferia as visões amplas gestálticas. E não só ele. San Thiago Dantas ao se referir a um proeminente homem público dizia faltar-lhe o requisito básico da cultura: a memória. E que essa falta o levaria ao estranhamento, à incoerência, comprometendo-lhe a ação política. Aloisio sabia que o Brasil compartilhava esses mesmos riscos. Esquecemos o passado como o instrumento de compreensão do presente. Ignoramos a memória como inspiração do futuro. É preocupante, é muito grave. Se não nos conscientizarmos do nosso passado, arriscamo-nos a percorrer uma trajetória alienada de nossa realidade. Culturalmente indefesos ao que vem de fora, às verdades enlatadas para uso comum, entenderemos cada vez menos o que somos e para onde queremos ir.”

“Marcílío Marques Moreira, amigo e cientista político, lembra-nos que até mesmo para a disposição de esquecer é preciso saber lembrar. Para reencontrarmos um convívio político sadio numa sociedade que se pretende aberta, é preciso revigorar a memória nacional, para que atos ou fatos passados não sejam meramente reprimidos em refúgio inconsciente, ameaçando ressurgir em forma de ódio e ressentimento. Receio que esteja levando um pouco longe a minha digressão. Peço-lhes desculpas. Mas talvez tenha sido uma das virtudes de Aloisio, essa de nos fazer pensar.”

“Assim, preocupava-se em propor ideias simples. E por isso, porque eram simples, não temia percorrer caminhos difíceis. Por mais tortuosos, sombrios que fossem os meandros, Aloisio sabia para onde ia. E, se não chegasse, tinha ao menos entregue uma ideia clara.”

“Aloisio começou muita coisa. Terminou o que pode. Ocorreu-me até que pudesse ter mais amor pela criação que pela criatura. Mas não era assim. Tinha o que Felix de Athayde chamou de “ânsia da fundação”. Lançava suas ideias, auxiliava seus primeiros passos, e por vezes, deixava que a criatura buscasse vida por suas próprias forças. Se a ideia fosse boa, a sociedade saberia preservá-la. Se não, talvez não fosse tão boa assim.”

“Esse raciocínio nos diz muito de Aloisio. Da essência de sua preocupação democrática, e de sua reflexão sobre o papel do Estado e da comunidade no processo cultural. Para ele, cabe à sociedade produzir cultura. A preservação dela, a etapa de restauração, é um curto estágio antes de devolver à sociedade o bem cultural e a responsabilidade de criar. Com ele ou por causa dele. Se houver cultura e memória, o resto é só liberdade e participação.”

Mas não era sempre assim. Por vezes, ao sentir que a ideia não vingava, obstinava-se, lutava como um leão, não açoitava o revés. Inquirido, respondia com um sorriso moleque:

“São as minhas contradições. Doutor”.

“E acreditava mesmo em contradições. Nas suas. Nas nossas. Na inevitabilidade delas para uma sociedade em evolução, em busca. Para Aloisio esta era a maior riqueza de nosso país. Cultivava os paradoxos de nossa cultura como relíquias as quais era necessário referir-se. Dizia que era preciso buscar harmonia em meio à nossa diversidade. E sabia que nenhuma obra existe longe das pessoas, dos fatos, e da história. Sabia também que só vale a pena avançar com os outros. Pelos outros. Sabia das coisas.”

Perguntei anteontem a Pedro Luiz Pereira de Souza, designer, e também amigo de Aloisio, como ele via a contribuição de Aloisio, naquela profissão. Ele me disse que como nenhum outro designer brasileiro. Aloisio tinha consciência de que excesso ou falta de rigor conduz somente a tipos distintos de imobilismo. Por isso. muito mais que inovador formal, foi para o design um renovador de propósitos e ideias. Fiquei impressionado com o quanto esta definição era compatível com o sereno revolucionário cultural que eu pudera observar. E também que para quem se quis contraditório, que era mesmo muita coerência!

“Hoje faz um ano que Aloisio nos deixou. Mas os caminhos que abriu estão aí, a serem explorados, a nos convidar ao percurso. Cabe a nós mantê-los abertos.”

Sempre foi difícil falar de Aloisio. Sua inquietude, sua apetência de ação, a multiplicidade de seus modos de ser. Tudo nele resiste à fixação. Como retê-lo numa imagem, numa expressão, num arranjo de palavras? Seu tempo era o movimento. Sua dimensão a fluidez. Nem mesmo devo tentar. Lembro apenas que foi um garimpeiro do passado, um sonhador de novos horizontes para seu povo, e que era grande o seu desenho.

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