VARIAÇÕES SOBRE DOIS PINTORES

Osman Lins

1959

DECA – Departamento de Extensão Cultural e Artística de PE

2004

UT Libraries 2008

Vitral ao sol: ensaios sobre a obra de Osman Lins

  • p. 33

Um, cerebral, trabalha com fervorosa inquietude sobre as incitações de luz e cor de que é tão rica a nossa paisagem; outro, emotivo, faz da pintura um instrumento de suas confidências, convida-nos a participar de suas profusas ternuras. Que vale mais: este espanto, essa repentina alegria que estala em nós ante um palhaço de Eliézer Xavier, ou aquela penetração lenta, a vagarosa e difícil assimilação sem a qual as paisagens de Aloisio Magalhães passam por nós como criaturas das quais não víssemos o rosto?

Nascida e formulada nos precisos limites em que o espírito, colhendo da paisagem as sugestões dominantes, já se despojou de toda sobrecarga de elementos inúteis e começa a recriá-la num sentido mais amplo, essa arte de Aloisio Magalhães, guardando todas as prerrogativas da elaboração livre, não se desvia para um abstrato de emergência, sendo fiel a um pacto com o objeto, que se transfigura, é encantado, mas não desaparece, mantendo na composição a sua presença fecunda, que vai libertando no contemplador as virtualidades da imaginação. Custa-se a adivinhar a folhagem de uma acácia naqueles verdes claríssimos, para além do qual algo se entrevê; mas no instante em que isto acontece, o quadro já não é um objeto que nos desafiava com a sua mudez; desperta-nos para outras acácias vistas, para as muitas que não vimos, como que dá o tom para um “impromptu” e faz-nos criadores: com a luz e a cor ali fixadas, criamos o nosso quadro particular, que é sempre outro e nunca será o mesmo. Se Aloisio Magalhães, com seu duplo movimento de expansão exterior em busca de valores plásticos e de aprofundamento interior em sua ânsia de soluções formais, liga-se àquela espécie de artistas cuja conquista de expressão — mesmo a da alegria — é sempre dolorosa, por uma espécie de inquieta ânsia que os marca e que é a sua danação.

  • p. 34

Eliézer é o homem que apenas se entrega aos dias, às noites e deixa-se amadurecer. Complexidades técnicas, preocupações teóricas, fórmulas verbais, a tudo isto parece um tanto alheio — e até o óleo, com sua dificuldade artesanal, raramente o atrai. É um homem delicado com uma caixa de aquarelas. Sem nenhuma inquietação, com a placidez de um amigo que nos conta distantes episódios da infância, ele vai realizando esses quadros onde estão os personagens de toda criança nordestina do interior: o palhaço, zabumbas, lavadeiras no rio estendendo panos coloridos, reizados, pastoris, os moleques do circo, meninas de mãos dadas. Ante as suas aquarelas, não é a imaginação e sim a memória que reage. Na poética reconstituição das figuras da infância, ele nos traz de volta personagens extintos; e do Recife de hoje, é precisamente o que vai morrer, o que dentro em pouco haverá sumido – os passistas de frevo, os reis de maracatu, os balaieiros da madrugada e os sobradões agonizantes — que ele surpreende e aprisiona com amor. Há qualquer coisa de elegíaco em seus trabalhos.

Aloisio Magalhães não se enternece. A paisagem é um pretexto para o exercício de sua ousadia. Nele, o que vai atingir o observador não é o motivo (que aliás não lhe interessa), mas os resultados do laborioso processo em que suas indagações, sua sensibilidade e sua extrema curiosidade se estendem e conciliam, em busca de um fim nem sempre previsto. Para Eliezer Xavier o que importa não é tanto a forma como o tema. Ele nunca se atreve a experimentações arriscadas, não super-excita as suas faculdades. Entrega-se aos pincéis e deixa o quadro acontecer. Se aquele palhaço já surgiu em quatro ou cinco quadros, não importa. É agradável reencontrá-lo, reencarná-lo, tentar infundir-lhe uma leveza, uma mobilidade que não existia nas aquarelas precedentes. Esses carnavalescos no passo, esses flautistas, esses meninos de rua podem voltar sempre. Há lugar para todos. E se os passistas não são bastantes ágeis, se o flautista não parece devidamente triste, se os meninos ainda não comovem, não faz mal: “tem tempo”. E as cores e as formas se repetem, vão ficando mais fiéis à proporção que os anos passam. Também Aloisio não se importa com o retorno dos temas.

  • p. 50

Vimos que ao artista é indispensável um inicial ambiente egoístico em que são fundamentadas as diretrizes de sua atividade criadora sem que haja uma preocupação social que venha invalidar o momento demoníaco da criação quando, possuído por uma ânsia de autoidentificação, apodera-se da realidade e procura afixá-la. Sabemos, entretanto, que, se a atividade criadora não consegue ultrapassar este primeiro período, denominado “infantil” por Mumford e atingir a síntese daqueles elementos sensoriais afetivos e conceituais, então a obra de arte não subsiste tornando-se amorfa e indiferenciada. A Arte deve, assim, atender a um desejo de comunicação que, embora não deva existir no momento da criação, pois seria a pré-fabricação, o dirigismo artístico, faz-se necessário após o período de autoidentificação. Ambos os aspectos — o individual e o social — são partes integrantes de um todo homogêneo cuja subsistência reside no desenvolvimento completo destas mesmas partes. E, parece-nos, que ao enquadrarmos a Arte Popular nesse dualismo essencial à atividade estética, não consegue ela realizar a total integração social indispensável à sua autenticidade. De fato, o artista popular, tal como Vitalino, em seu contato com a Metrópole, começa a descuidar do período artístico primário e passa a existir apenas em função de uma certa classe social que lhe admira e (o que nos parece de grande importância) compra-lhe os trabalhos.

O assunto é vastíssimo em suas sugestões e envolve todo um conjunto de problemas sócio-econômicos que muito bem poderiam ser perscrutados por uma equipe de pesquisadores sociais (e aqui nos lembramos dos inúmeros e capazes estudiosos do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais) que, se assim procedessem, haveriam de trazer valiosas contribuições para um mais seguro conhecimento da Arte Popular que — como bem o salientou a articulista de “Au-jourd’hui” — é a raiz de nossa arte moderna. De qualquer maneira, a incorporação do Museu de Arte Popular, fonte inesgotável e bem aparelhada de estudos populares, ao Departamento de Extensão Cultural e Artística, significa já uma esperança – e parece-nos que o pintor Aloisio Magalhães já começou por fortalecê-la — de que o interesse pela Arte Popular deixe de ser meramente assunto de “hobby” ou de esnobismo mesclado de comiseração.

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