Seminário Sobre Integração Latino Americana

1982

UT Libraries 2009

  • p. 80

… em matéria de integração — na manhã de hoje Enrique Iglésias nos falou nisso — e seguramente nossos colegas estão bastante eufóricos, talvez reconhecendo nosso progresso. No entanto, que revista latino-americana existe hoje com ampla difusão, ou que tipo de pensamento autóctone, periodístico? Além da revista Vision — e coube- me, durante certo período ser membro de seu Conselho Editorial — não conheço outro tipo de iniciativas de divulgação de caráter sistemático de publicação em nosso continente, o que vem em abono do que o Professor Aleixo dizia, pela manhã, no sentido de que, em nossas publicações, dos livros que se comentam, latino americanos são minoria; comentamos muito mais livros publicados em outros lugares. Estamos diante de uma série de desafios que, acredito, é possível enfrentar, porque seria absurdo que tenhamos feito aquilo a que nos propusemos 20 ou 30 anos atrás, ou seja, aumentar nossos empréstimos e nossas inversões, transformar o rio Paraná numa grande fonte de energia hidroelétrica, fazer trabalhos de grande escala na indústria, em todos os meios de transporte etc., no campo físico, e não sejamos capazes de fazê-lo no campo da criação humana — esta, a grande interrogação — exceto que estamos requerendo grandes instrumentos, os quais, se existem, são muito limitados, infelizmente, muito desintegrados, necessitando de uma profunda revisão, sob todos os pontos de vista.

ALOISIO MAGALHÃES:

Todos nós ficamos não digo surpreendidos, porque já conhecemos muito o pensamento de Felipe Herrera, mas verdadeiramente debaixo de um impacto, tal a clareza, precisão e coragem de Felipe Herrera em sua reflexão, seu pensamento, sua idade continental, em nome da integração latino-americana. E acho que Felipe Herrera colocou alguns pontos que, de certo modo, deveríamos, se possível, detalhar um pouco melhor. Eu, particularmente, refiro-me às observações feitas em termos dos meios de comunicação de massa. Trata-se, meus senhores, de uma arma de dois gumes, como, de resto, todo avanço tecnológico. Gutemberg, quando inventou a imprensa, tentava desesperadamente imitar a caligrafia, porque não se apercebeu de que poderia perfeitamente ter recriado a natureza da letra. Mas essa tentativa de sempre nos apegarmos a um elemento, em ver em profundidade aquilo com que lidamos no momento, faz com que a nossa civilização, sobretudo o mundo novo, corra riscos muito grandes. Estamos perplexos, também, diante de uma série de fenômenos diante dos quais não temos sabido conduzir-nos. Parece-me, por exemplo, que é preciso um grande cuidado para não confundir integração com homogeneização, e esse é um perigo iminente. Homogeneizar é o que tem sido feito pela civilização tecnológica do Ocidente. Tudo é igual. Desapareceram os componentes de heterogeneidade, que é onde reside justamente toda a criação do homem: nas diferenças do homem, nas peculiaridades do homem; nos seus matizes, suas peculiaridades pessoais ao lidar com matéria-prima, ao controlar a matéria prima.

  • p. 86

Luiz Navarro de Brito

… através deles que poderemos conseguir maior capacidade de osmose entre as ações do Poder Executivo e a própria integração que se realiza a nível popular. Não vou prolongar este comentário, porque já usei da palavra por bastante tempo e certamente haverá outras pessoas que desejam fazer intervenções. Quero apenas deixar aqui, como uma última palavra, uma fé imensa no futuro da comunidade hispano-americana ou ibero-americana. Creio que esses 300 ou 400 milhões de homens — e, no final do século, serão provavelmente 500 milhões, ou 10% da Humanidade — constituirão um mundo ocidentalizado no sentido menos pejorativo e mais cultural da palavra, mundo esse que terá de desempenhar papel de importância cada vez maior no concerto das nações, e neste sentido — e aqui termino — não posso senão louvar os esforços que vêm sendo feitos nas capitais ibero-americanas, tanto no Sul como ao Norte próximo ao mundo anglo-saxão, que constitui uma barreira cultural.

Esse projeto é sediado em Caracas, na Venezuela, abarca nove países da América do Sul e tem a ajuda da UNESCO e do PLUDO. Devo, aliás, salientar que, desde o início desse projeto, o Brasil recusou-se sistematicamente a dele participar.

A segunda observação é quanto à faca de dois gumes que representam esses grandes meios de comunicação de massa a que se reportou o Dr. Aloisio Magalhães.

De fato, parece que ninguém ousaria negar a grande importância que poderá ter a utilização massiva, intensiva, de programas de televisão, como meios, repito, de integração cultural. Mas é preciso ver também o outro lado, o outro gume da faca. E, nesse particular, eu queria lembrar apenas o temor, latente em todos os países do Terceiro Mundo, quanto exatamente à possibilidade de que, utilizando os satélites de comunicação, isso venha a ocorrer num futuro muito próximo, sobretudo quando se pensa na possibilidade de utilização industrial dos satélites de difusão direta, isto é, aqueles que podem transmitir mensagens diretamente para os televisores, nas residências, somente com o uso de um pequeno conversor. Se as nações industriais resolverem de fato utilizar esses satélites e industrializarem a baixo preço esses conversores, será que isso não se tornará também numa forma de estimulação de maior dependência cultural, numa forma de homogeneização cultural a que se reportou o Dr. Aloisio Magalhães, enfim, num grande perigo para a segurança nacional dos países do Terceiro Mundo?

  • p. 88

Aloisio Magalhães,

gostaria de citar — e perdoem-me tratar de fato pessoal — o seguinte: no ano de 1978, o redator cultural do “Washington Post” pediu-me por telefone uma entrevista — e veio ao Rio de Janeiro para realizá-la — sobre a importância da telenovela na América Latina. Logicamente, achei um pouco absurdo o assunto da entrevista. E, depois de uma conversa, em que se estabeleceu um clima de intimidade, perguntei: “Mas que importância tem para o Washington Post” a telenovela brasileira? E o redator do “Washington Post” me respondeu: Para nós, não tem; a telenovela brasileira tem importância para o para o produtor de enlatados americanos, porque, cada vez que o Brasil vende uma telenovela, em 150 capítulos, a um país da América Latina, está tirando da programação desse país 150 episódios da Série Kojak (73-78), 150 da Bareta, enfim, 150 enlatados americanos. De modo que essa homogeneização americana já não é uma realidade no Brasil, considerando-se que nossa programação é 75 a 80% nacional.

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