Acupuntura urbana

Jaime Lerner

2003

UT Libraries 2009

  • p. 83

Memória produzida

“A História é como um estilingue. Quanto mais fundo você puxa, mais longe você alcança”,

dizia Aloisio Magalhães. Identidade, auto-estima, sentimento de pertencer, tudo tem a ver com os pontos de referência que uma pessoa possui em relação à sua cidade. Não canso de repetir que na minha rua tinha tudo. Andava e confirmava a hora no relógio da Estação Ferroviária. Quando não, era o apito da fábrica ao lado de minha casa que anunciava a hora. Ou o cheiro do Café dos Ferroviários, após virar a noite lendo ou estudando, onde ia tomar meu café. Ali, na praça da estação, ficava um avião de lona, que o fotógrafo usava como cenário para as fotos das crianças. 0 cheiro da tabacaria onde comprava meus gibis, a trama dos trilhos dos bondes. Ainda hoje posso imitar o barulho deles chegando à estação. 0 cheiro do verniz dos lustradores de móveis em frente. O barulho do ferro de passar da alfaiataria.