Cartemas: composições abstratas … através da repetição dos postais

  • Galeria Múltipla de Arte

São Paulo até 4/4/1973

Veja – Arte

O cartema não se esgota, porém, numa gestalt; é que as células retomam sua significação visual própria, num jogo calidoscópico em vaivém de parte e todo, ambos prenhes de seu valor próprio, com um terceiro, que é o cartema em si, esse jogo mesmo concretizado. Antonio Houaiss (1915-99)

  • p. 106

Aloisio Magalhães: Cartemas Postais

Viajar de avião tem sido, para Aloisio Magalhães — artista visual, designer, pesquisador —, uma experiência comum. Ao contrário de outros viajantes, porém, ele a transformou também numa experiência criadora.

“As paisagens, aquele verde-claro, limpo, que você vê longe, dão uma noção poética muito precisa de qualquer projeto estético que você pretenda realizar”,

diz ele. Além disso, de volta das viagens, Aloisio traz sempre cartões postais, que coleciona há vários anos.

“Como designer, o cartão me interessa por sua linguagem universal, de fácil comunicação, usado por todo mundo.”

Desse interesse — e do tipo de paisagem revelado pelas viagens — nasceram, em princípios do ano, os “cartemas” desde a semana passada expostos pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo. São painéis de 1,10 m por 90 cm, produzidos a partir da repetição sistemática de um mesmo cartão postal, colado lado a lado, resultando em uma composição que o próprio autor define como

“uma abstração poética de incrível poder visual” .

O novo rótulo, por sua vez, foi criado pelo filólogo Antônio Houaiss – que é também o autor de um intricado texto de apresentação, quase restrito a um grupo seleto de iniciados nos delicados meandros da linguagem.

Industriais

As coisas, porém, talvez sejam mais simples. O próprio Magalhães, com sua vasta experiência em comunicação (são de sua autoria, por exemplo, as marcas da Bienal de São Paulo, do IV Centenário do Rio de Janeiro, o logotipo da Petrobrás e as novas cédulas brasileiras), define suas ideias com mais clareza:

“Através de duas exposições, esta de agora e uma anterior, no Museu de Arte Moderna do Rio, eu só quis lançar uma ideia, porque o cartema é um tipo de criatividade aberta. Qualquer um poderá criar um sistema para seus próprios cartemas — e consequentemente uma informação nova”.

O destino ideal para os cartemas, entretanto, é sua multiplicação industrial. Fazendo imprimir, a título de catálogo, uma série de cinco cartões postais que por sua vez reproduzem as obras expostas no Museu do Rio, Magalhães teve a boa surpresa de vê-los todos comprados rapidamente pelo público.

“Vou pensar na ideia”,

anuncia ele.

 “Sei que existem gráficas interessadas, e isso me atrai porque gosto de fazer coisas para grande consumo.”

E completa,

“Retransformar o cartema em cartão postal seria fechar o círculo. O cartão estaria de volta a seu estado inicial de comunicação — mas sob um novo enfoque”.

Um exemplo:

“Imagino ambientes humano-cartemizados daqui em diante – na infinita diversidade de concretitudes que poderão ser criadas. Imagino-as até através de mudanças dimensivas da célula, de suas mudanças modulares e dos módulos, de mudança na aplicação das superfícies, não apenas parietais, mas tectórias, e calceatórias, viárias, flutuantes…”

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