Diplomacia cultural: seu papel na política externa brasileira

Edgard Telles Ribeiro

1989

UT Libraries 2007

Cultura e desenvolvimento

  • p. 84

Essa preocupação também caracterizara o pensamento e a obra de Aloisio Magalhães à frente de órgãos federais incumbidos de implementar políticas de Estado para as áreas de cultura. Denunciando o desprezo dos projetos de desenvolvimento sócioeconômicos pelos indicadores básicos de nossa cultura, Aloisio Magalhães indagava:

Será que a nação brasileira pretende desenvolver-se no sentido de se tornar uma nação rica, forte,  poderosa, porém uma nação sem caráter? Será que o objetivo do processo de desenvolvimento é somente o crescimento dos bens materiais, o aumento de uma ilusória alegria e felicidade do homem através dos seus bens e dos elementos de conforto material? Ou, ao contrário, o verdadeiro processo, o verdadeiro desenvolvimento de uma nação baseia-se em, harmonicamente, dar continuidade àqueles componentes que lhe são próprios, aos indicadores do seu perfil ou de sua fisionomia e, portanto, de sua identidade?

Não que essas palavras, ou a de outros pensadores que precederam e sucederam a Aloisio Magalhães e Celso Furtado, impliquem a desaceleração do processo de desenvolvimento brasileiro, pela condenação da absorção de modelos externos.

As influências exercidas sobre nossa cultura naturalmente obedecem a uma dinâmica própria e, nesse sentido, escapam ao controle do Estado.O que se propugna com as ideias discutidas ao longo do presente texto, contudo, é que o Estado se mantenha mais atento a esse processo, ao elaborar programas implementar projetos nessa área, de modo que essas influências e modificações sejam aferidas à luz dos valores próprios da nação, nelas se inoculando, na imagem de Aloisio Magalhãesuma vacina própria, a vacina da adequação dessas alterações à verdade e autenticidade do perfil cultural na nação.

  • p.87

Desdobramentos e Prioridades

Aloisio Magalhães, ao referir-se especificamente à questão da preservação do património — mas o comentário se aplicaria às prioridades culturais brasileiras como um todo — também chama a atenção para essa mesma realidade, ao considerar o baixo nível de conscientização que esses assuntos ainda despertam no Brasil. Relembra ele ser natural que, ao contrário dos países desenvolvidos, essa conscientização seja frágil e até inexistente em países jovens e pobres:

A miséria, a pobreza, a ignorância, a doença são situações muito mais prioritárias, muito mais fortes, que põem em xeque a sobrevivência, que impedem que o ser humano vá socialmente além dessas questões, e aí a preservação passa a ser um luxo.

  • p. 94

Aloisio Magalhães, por exemplo, divide os países, para fins de vivência e relação com seu patrimônio cultural, em quatro grandes categorias:

velhos e ricos (cristalizados, densos, onde tudo está feito), os velhos e pobres (com consciência de seus valores (…) mas sem condições físicas ou financeiras de evitar a dilapidação de seus bens), os novos e ricos (caracterizados por um dispêndio excessivo de recursos (…) e pela velocidade na absorção de património por processos poucos autênticos), e os novos e pobres (que precisam se apoiar nos frágeis e  pequenos elementos que constituem seus patrimónios para melhor enfrentarem um mundo caracterizado por impasses).

Conclusões

  • p. 99

Retomando outro momento do pensamento de Aloisio Magalhães sobre o assunto:

Não existe verdadeiramente uma nação que se forme, que progrida, que se enriqueça, a não ser à base dos componentes de sua verdade, de sua identidade autêntica, dentro de sua trajetória enquanto nação. Tudo o mais será evidentemente possível, inclusive a transferência de tecnologia e até mesmo o enriquecimento: a nação torna-se rica, mas (. . .) completamente dependente de outras nações.

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