O Canto da Sedução

Eduardo Escorel

1993

Vida do Cantador

1997

Múltiplo Mário

2004

O canto sedutor de Chico Antônio

UT Libraries 2008

2005

Adivinhadores de água: pensando no cinema brasileiro

  • p. 9

Não por acaso, tudo começou para mim em torno de uma mesa de bar. Da rodada de chope, no calçadão da avenida Atlântica, participavam Aloisio Magalhães (1927—1982) e Carlos Augusto Calil. Naquela noite, apesar da nossa moderação, a bebida certamente contribuiu para que fosse lembrado o nome de Chico Antônio.

Meu amo, meu camarada,

agora vou lhe dizer:

Carro não anda sem boi

nem eu canto sem beber!

Aloisio, que embarcaria para Veneza na noite seguinte, nos contou que estivera com Chico Antônio em Natal, no começo do mês de maio, e comentamos, então, a necessidade de se registrar em imagens o grande cantador, já alquebrado nos seus oitenta anos de idade. Dias depois, a conversa sem compromisso mudaria de figura quando recebemos a notícia de que Aloisio partira numa viagem sem retorno. Gravar Chico Antônio passou a ser uma obrigação.

De forma imprevista, passados apenas dois meses, em setembro de 1982, a realização de um documentário sobre um projeto educacional me levava com uma pequena equipe ao Rio Grande do Norte. Concluídas as gravações, nas poucas horas disponíveis antes da viagem de volta ao Rio de Janeiro, partimos meio às cegas para a cidade de Pedro Velho, a oitenta quilômetros de Natal, informados de que Chico Antônio vivia nas redondezas.

Não sabíamos exatamente onde encontrá-lo, nem tínhamos ainda, na verdade, conhecimento maior das circunstâncias de seu encontro com Mário de Andrade e do lugar que viera a ocupar em sua obra.

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Queríamos, mais do que tudo,  aproveitar a rara oportunidade de estarmos na região com o equipamento de vídeo necessário para tentar registrar um depoimento do cantador e, com isso, atender o compromisso assumido com Aloisio Magalhães.

Acompanhados por um morador de Pedro Velho para nos mostrar o caminho, deixamos a pista de asfalto e seguimos por mais alguns quilômetros beirando o leito do Curimataú. Com a câmera já ligada, nos aproximamos da casa de pau-a-pique que nosso guia indicara como sendo a de Chico Antônio. Avisado pelos latidos de seu cachorro, ele veio até a porta, de chapéu de palha, meio curvo, caminhando com certa dificuldade, apoiado na sua bengala. Sem demonstrar qualquer surpresa pela nossa chegada, encarando em alguns momentos com interesse a lente da câmera, nos convidou para entrar e sentar nos três banquinhos que tinha para oferecer. Seis anos antes, em 1976, com a publicação de O turista aprendiz pudéramos tomar conhecimento do impacto provocado em Mário de Andrade pelo seu encontro com Chico Antônio ocorrido no engenho Bom Jardim, em 1929, por iniciativa de Antônio Bento de Araújo Lima. Encontro carregado de emoção entre um mestre erudito e um mestre popular. Um, sulista, o outro, nordestino, ambos de estatura elevada, muito acima da média de seus conterrâneos. Todos dois com a capacidade de despertar paixões. Uma convivência tão breve — seis dias apenas — quanto intensa, cuja marca ficaria gravada neles para sempre.

“Se aquele homem não morre eu não estava hoje nessas condição, eu já tava rico. O homem era bom pra mim… em tudo e por tudo. Era um pai ele e era um pai compadre Antônio Lima”. Depoimento de Chico Antônio gravado no dia 14 de setembro de 1982.

“… nunca mais me esquecerei desse cantador sublime.” ANDRADE, Mário de. O turista aprendiz.