DOIS NOMES: A MESMA CERTEZA

6/1982

UT Libraries 2008

Revista de Teatro

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UM DIÁLOGO QUE NÃO HOUVE NUM TEATRO IMAGINÁRIO

Neste sexto mês do ano de 1982, quase simultaneamente, ficamos presos a dois depoimentos em que se debate o mesmo tema: a cultura brasileira. Na “Folha de São Paulo” um repórter astucioso relata o que escutara de me’, – e Luis de Camara Cascudo, em sua casa de Natal, no RG do Norte, aos 82 anos de vida, surdo e quase cego. Preso, desde sempre, à sua dedicação sem limites na certeza de uma cultura brasileira. Pouco depois, no Rio de Janeiro, o “Jornal do Brasil” publicava um artigo do seu redator Felix de Athayde, recordando mestre Aloisio Magalhães, que acabava de ser sepultado, na cidade do Recife, sem ter visto Olinda, como tanto desejara e defendera, reconhecida pela “Unesco” como “Monumento Histórico Mundial”. Isto por sua paixão pela cultura brasileira.

Portanto: Dois nomes. Duas personalidades. O mesmo amor. Na verdade, não há amor que não seja teatro. Com isto queremos lembrar que a consagrada expressão TEATRO É CULTURA, também pode ser usada de modo inverso. E assim: cultura também é teatro. Ora, por ser teatro, é que ela cabe hoje nestas páginas, onde textos de Luis Camara Cascudo e de Aloisio Magalhães parecem formar o diálogo do corifeu com o coro, nas eternas peças do teatro grego.

— Pois o que é o teatro? Uma vivência espiritual em que, com máscara ou sem máscara, se procura exorcismar da alma humana a angustia eo desespero. No drama ou na comédia.

– E o que é cultura? “O conhecimento comparativo do que existe em volta de nós, e deslumbra e empolga os nossos corações, e a nossa mente”. Ora é disso que nos falam Camara Cascudo e Aloisio Magalhães. Um e o outro. O mesmo amor.

Folha de São Paulo: Com uma carreira toda dedicada à cultura do povo nunca pensou em se dedicar a outro trabalho?

CASCUDO: — Eu amei a minha profissão como se ama uma mulher. Não quiz mais nada na vida a não ser professor. Certa vez quizeram levar-me para o Senado. Se aceitasse, como voltaria a ser professor, e como me encarariam, anos depois, os meus alunos?

Folha: Seu trabalho sempre se destacou pela profundidade das pesquisas?

CASCUDO: — Sempre tive a presunção de estudar a origem das coisas. De onde vêem? Porquê? É a busca do contexto, jamais dissociado da realidade.

Félix de Athayde, no “Jornal do Brasil” falando de Aloisio: – Seus olhos pequeninos, achinesados, viam longe com perspectiva histórica. Seu amigo João Cabral de Mello Neto, notou em verso, que Aloisio

“apalpa tudo com o olhar dedo”.

Nunca terminava o que começava, mas não começava nada de improviso. E costumava dizer:

ALOISIO:

— O Brasil não suporta mais os erros de improvisação. A improvisação tão cultuada num Brasil emotivo, de estruturas fouxas de pensamento e de estrutura cultural, pois a improvisação conduz inevitavelmente ao fracasso.

FELIX DE ATHAYDE: — Quando Aloisio, em 1975, criou o “Centro Nacional de Referência Cultural” já tinha a ideia e o propósito de intervir consciente e produtivamente na “cultura brasileira”. O repórter da “Folha”, pergunta a Luis de Camara Cascudo, que mora onde sempre morou em Natal, numa casa deliciosa do século XIX, no mesmo lugar em que nasceu sua mulher Dália: — O chamado folclore no Brasil não parece artificial?

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Folha: Vem de tão longe?

Felix de Athayde, recorda quando Aloisio Magalhães modificou a estrutura cultural do Ministério da Educação e Cultura”, dizendo:

ALOISIO:

— Tenho a certeza de que a realidade brasileira contém riquezas que ainda permanecem desconhecidas e como que protegidas por um imenso tapete que as encobre e abafa.

Ai, leitor já estávamos por dentro das páginas do “Dicionário de Folclores de Luis da Camara Cascudo, quando este nos fala dos folhetos-de-cordel” que nos nossos primeiros séculos vinham de Portugal, da Espanha, e da França, com personagens arrancados de Textos de Gil Vicente, de Calderon, de Lope de Vega, ora evocando os cavaleiros da “Távola Redonda” diante das relíquias do Santo Graal, ora contanto o Heroísmo místico de Joana d’Arc, ora o amor à eternidade da assassinada Inês de Castro, de Portugal. Ora.

CASCUDO: — Ora foi com conhecimentos assim, que os brasileiros começaram a ter uma visão global do mundo.

Como global era a visão de Aloisio Magalhães, mas num sentido mais profundo e crítico:

ALOISIO:

— Reconheço a importância da continuidade cultural mas isso não representa uma aceitação submissa e passiva dos valores do passado, mas sim a certeza de que estão ali os elementos básicos com que contamos para a preservação da nossa identidade cultural. E ainda mais, é neles que temos de buscar indicações para a resolução dos nossos problemas, inclusive os econômicos. É preciso não esquecer somos um povo dotado de uma criatividade e inventividade que são impressionantes.

CASCUDO: — Acredito numa civilização brasileira como acredito na sua universalidade. Você é brasileiro de São Paulo, mas seu tipo fisiológico é universal. Mas acredito na perpetuidade de uma civilização brasileira. Nós vamos vivendo, e recebendo aquilo que nos vem de fora. E passa a ser nosso, o que não era só nosso. Entende? E agora, por favor, respeite a minha idade. Vá baixar noutro terreiro.

Quanto a Aloisio Magalhães a morte pegou-o de improviso, quebrando talvez a continuidade de um trabalho profícuo ligado principalmente a uma nova mentalidade dos bens culturais brasileiros.

Mas um dia, a sua mensagem, será por certo realidade, como acredita Felix de Athayde.

Estamos chegando ao fim. Não acha agora, o leitor, que foi justo dedicar estas duas páginas de JUNHO DE 1982, mostrando Aloisio Magalhães e Luis da Camara Cascudo, como se estivessem ambos no mesmo palco, falando de cultura brasileira num imaginário diálogo de teatro?