Cartilha ABC

Diagramação de Aloisio Magalhães, desenhos de Gilvan Samico e Ellen Sporer

1962

Língua Pátria – programa de emergência

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29/4/1963

UT Libraries 2008

Vol. 5

  • p. 265

… para distribuição gratuita. A cartilha ABC e o Manual do Alfabetizador, que reproduz cada lição e explica como deve ser ensinada capacita o professor leigo ou o simples cidadão que saiba ler e escrever, a alfabetizar um grupo de patrícios.

Referida cartilha  

— informa o prof. Darcy Ribeiro —

resultou de uma pesquisa empreendida em 1958 por um grupo de linguistas do Instituto Linguístico da Universidade de Oklahoma, encabeçado pela Doutora Sarah Gudschinsky, professora da Universidade de Brasília e uma das maiores especialistas do mundo em problemas de alfabetização, tanto que é consultora da UNESCO para esses assuntos. Os referidos linguistas foram contratados pelo Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais com o objetivo de elaborar uma cartilha que servisse tanto a criança como ao adulto analfabeto e que contivesse os sons básicos e as palavras mais correntes da língua portuguesa em todas as regiões para que pudesse ser adotada em todo o país. Procura-se por isso uma região em que a fala popular é pouco marcada e o vocabulário o mais usual. A escolha recaiu sobre a cidade de Leopoldina, em Minas Gerais. A pesquisa de campo focalizou a linguagem falada por moradores rurais e urbanos das camadas populares e especificamente pelos analfabetos. Recolhemos essa linguagem

— prossegue o professor Darcy Ribeiro  —

gravando conversas com o homem da rua. Realizamos um estudo intensivo da linguagem de uma família-base. Todo esse material serviu para o preparo de uma lista de palavras pela qual pudemos determinar a frequência em que elas ocorriam e a fixação dos fonemas utilizados espontaneamente nessa linguagem.

Já na etapa final, a Cartilha e o Manual foram entregues ao conhecido poeta e escritor Carlos Drumond de Andrade, para uma revisão estatística e ortográfica. Da composição, ilustração e apresentação gráfica encarregou-se uma equipe de artistas chefiada por Aloisio Magalhães que selecionou os desenhos e escolheu um tipo especial de letra de grande clareza, que tanto se aproxima da escritura manual como da tipográfica.

Dela se pode orgulhar o Ministério da Educação e a cultura brasileira. Todavia, o próprio Darcy Ribeiro lhe faz uma restrição, quando diz:

“A Cartilha pode ser, talvez, criticada por não conduzir nenhuma mensagem de caráter cívico nem motivação de natureza propriamente utilitária. Isto é porque sua função é tão somente a de simplificar a difícil tarefa de recuperação de um analfabeto adulto ou de alfabetizar uma criança. Confiamos

— prossegue —

em que o alfabetizador seja capaz de introduzir não só a motivação no sentido de manter vivo o interesse dos alunos pelo trabalho, mas, o de dar, através do curso em cada aula as informações complementares que cumpre assegurar ao analfabeto, no próprio processo de alfabetização que vai além do ensinar a ler e escrever — inclui também a recuperação total para a vida social integrando na comunidade da Nação, massas inteiras de brasileiros, hoje considerados marginais”.

1974

Estado e educação popular: um estudo sobre a educação de adultos

Celso de Rui Beisiegel

  • p. 162

… matricular-se em “classes noturnas de recuperação cultural e cívica, os jovens ainda analfabetos e que completassem em 1962, os 14 e 18 anos, de modo que, dentro de 5 anos, não existisse nenhum menor de 23 anos, que não tivesse tido uma oportunidade de alfabetização”. Em discurso pronunciado um pouco depois, o Ministro Darcy Ribeiro declarava ter destinado cerca de 1 bilhão de cruzeiros dos recursos desse programa para publicação de cartilhas e manuais de alfabetização de adultos. Começava a delinear-se uma nova ofensiva da União neste setor de atividade. No final desse mesmo ano, em discurso pronunciado na sede da Revista “O Cruzeiro”, por ocasião do lançamento de um empreendimento editorial visando à distribuição de quatro milhões de cartilhas de alfabetização e de cento e cinquenta mil exemplares do manual de preparo e orientação do alfabetizador, o presidente João Goulart definia as orientações e os objetivos do Governo Federal nesta área particular de suas atividades. A alfabetização de adultos seria colocada, ainda agora, como uma responsabilidade de todos os cidadãos: “em verdade, a educação é tarefa de todos (…), cada um há de contribuir segundo suas possibilidades, seja produzindo materiais para a instrução, seja cedendo instalações e recursos para a criação de classes, seja oferecendo os seus próprios serviços como instrutores para a alfabetização”. Estamos diante de um destes deveres cívicos que só podem ser cumpridos pela Nação mesma, por força do seu …

Mas, era principalmente enquanto requisito da participação de todos no processo político que a alfabetização se impunha: “é preciso que todos compreendam que o regime democrático, baseado na representação popular, será tanto mais forte quanto maior for a participação do povo no processo político. Considerando que temos uma população de quarenta milhões de pessoas maiores de dezoito anos; e tendo ainda em conta que atualmente é de 20 milhões o número de analfabetos registrados em nossa população adulta; e não esquecendo que a Constituição Federal nega o direito de voto aos analfabetos, é fácil concluir o quanto o regime democrático se enfraquece com a marginalização de parte ponderável do nosso povo, afastado do processo político nacional. Se nos detivermos na análise desse aspecto de nossa realidade, constatando que o analfabetismo atinge, praticamente, as camadas sociais mais baixas, temos que reconhecer a deformação a que estamos expondo, gradativamente, o sistema representativo, excluindo do debate político, que a Nação trava a cada momento, exatamente os setores da população que reclamam o  imediato atendimento das reivindicações mais elementares. Do ponto-de-vista político, a solução seria assegurar-se o voto aos analfabetos.

Em entrevista concedida à imprensa pelo Ministro da Educação e Cultura Darcy Ribeiro”, setembro de 1962:

“Por força da deliberação do Conselho de Ministros, que aprovou o Programa de Emergência, o Ministério destinará cerca de 1 bilhão de cruzeiros para publicar 4 milhões de cartilhas de alfabetização de adultos e adolescentes.

Myrian Barbosa da Silva

1981

UT Libraries 2007

Leitura, ortografia e fonologia

  • p. 7

Conhecemos apenas uma cartilha em língua portuguesa que faz exceção ao que dissemos. Trata-se da Cartilha ABC, produzida por um grupo de linguistas para o MEC, no que eles denominaram “Programa de Emergência”; foi publicada nas oficinas da revista O Cruzeiro e por esta distribuída. O material linguístico da referida cartilha baseia-se nos resultados de uma pesquisa realizada no Estado de Minas …

1984

Perspectivas e dilemas da educação  popular

  • p. 297

Durante o Governo João Goulart e na gestão de Darcy Ribeiro no Ministério da Educação, foi lançado o Programa de Emergência do MEC para 1962. Esse Plano colocava a educação de adultos como uma das prioridades nacionais e a alfabetização de todos os jovens de 14 a 18 anos uma meta a ser alcançada em 5 anos.

Essas cartilhas foram impressas pela gráfica de ‘O Cruzeiro’ e seu lançamento justificou uma solenidade na sede dessa revista, durante a qual o Presidente da República pronunciou significativo discurso sobre a importância política da alfabetização dos adultos. Enquanto material didático, entretanto, a Cartilha ABC e seu Manual do Alfabetizador significavam um enorme retrocesso no que se pensava e se fazia face à educação popular.

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