O papel do artista na sociedade

Aloisio Magalhães

O que mais impressiona e interessa numa atividade como desenho industrial e comunicação visual é reinserir o artista num contexto social na medida em que o criador tem necessidade de representação, expressão e uma linguagem que é concretamente visual através de objetos, sinais ou formas de escritura.

O artista que necessita dessa linguagem encontra no social a sua maneira de exercê-la. Ele reinsere-se no contexto social como um elemento necessário, válido, útil à sociedade. Se compararmos essa ideia com o que acontecia antigamente, veremos que, a partir de um certo momento do processo civilizatório, o artista viu-se deslocado do centro de gravidade do contexto social e passou por um processo de criatividade mais livre, puramente autônomo, mais rico para alguns e mais pobre para outros, na medida em que a comunicação desse processo criativo se distancia muito do contexto coletivo.

Não devemos esquecer que em outros momentos do processo de civilização ocidental o criador trabalhava em função da sociedade. Na verdade, não haveria o culto simbólico de formas de religião – a Igreja como o centro do mundo – se não houvesse o artista que representasse esse componente necessário à função social que a religião tinha no contexto comunitário.

Giotto não foi menos artista porque trabalhava por encomenda nas igrejas de Arezzo; nem Piero Della Francesca; enfim, nenhum dos grandes representadores e criadores da pintura ocidental foram menores pelo fato de estarem engajados no processo social. Ao contrário, foi talvez o processo social e a exigência da comunidade que se representasse ali o Santo Antônio de Pádua, na cidade de Pádua, que deu a Giotto a condição das representações fortes de que ele foi capaz como artista-criador.

Depois, essa função social passa a diminuir, e o artista não tem onde verdadeiramente se situar como componente do contexto social, nem sequer o retrato continua a ser sua área de atuação. Os famosos retratos de Velásquez, de reis da Espanha, que se espalharam por toda a Península Ibérica, eram retratos pintados a mão.

A partir de um certo momento da trajetória do Ocidente, a tecnologia substitui, cria novas formas de representação, e até mesmo esse reduto, que era o retrato do rei, passa a ser feito por um processo mecânico como a fotografia e não mais pelo artista.

Essa perda de interligação social causa um embaraço, uma profunda modificação no processo criativo. De certo modo, o reencontro da representação criativa em termos plásticos e visuais se estabelece na sociedade mais contemporânea quando se verifica a necessidade de que uma tecnologia tão elaborada exige um mediador entre essa técnica e a comunidade.

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