Bens culturais: Instrumentos para um Desenvolvimento Harmonioso

1979

UT Libraries 2008

Isto É

  • p. 170

Entretanto, quais são esses bens culturais, como é que eles participam de maneira viva do processo de desenvolvimento? Você mencionou apenas parcialmente o interesse como coisa urbana. A meu ver, o problema é muito mais amplo.

ISTO É. Um problema de perda de identidade cultural?

Magalhães.

Exatamente. Identidade cultural da própria nação. Ou seja: que obstáculos esses bens culturais têm que enfrentar para serem parte desse processo. Que, a meu ver, resulta na única maneira que o Brasil tem para se tornar um país independente, com um caráter e uma personalidade próprios.

ISTO É. Em que medida se poderá implantar essa maneira de pensar?

Magalhães.

Está no centro da questão o relacionamento entre tecnologia e comunidade, desenvolvimento e comunidade. Nesse processo de luta enfática, de posicionamento do desenho industrial, me chamou atenção detectar a perda de valores culturais pela rapidez com que o processo de desenvolvimento é imposto, sem a necessária reflexão entre o que nós importamos como forma de fazer tecnológico necessário ao desenvolvimento. O trabalho que fazemos no CNRC é justamente o de identificar os segmentos da realidade que devem ser conhecidos e preservados, evitando choque cultural. A adoção de tecnologia sem análise do contexto cultural significa um esmagamento. Esses segmentos são frágeis, não-identificados, sem alternativa. Estudando esses segmentos e conhecendo seus valores, cria-se uma alternativa para o que vem de fora.

ISTO É. Seria possível falar em tecnologia brasileira ou produto brasileiro?

Magalhães.

Depende do nível de generalização que você queira tomar. Se abrirmos o leque, vamos verificar que o universo-produto natural caju já indica perdas consideráveis na trajetória de uso cultural. Na segunda metade do século passado, Pernambuco exportava doce de caju para a Inglaterra. Isso desapareceu. Mas a diversidade do uso do caju é tal que ele já saltou para fora da relação direta e já tem os usos simbólicos: medidor de tempo, divisor de espaço temporal — antes e depois da “chuva do caju”, existe mobiliário com trabalhos de talha feito de caju, objetos de arte, literatura, música. Em 1940, o Estado da Paraíba tinha catorze fábricas de vinho de caju: hoje só existe uma, Tito Silva e Cia., fundada em 1892. Por que não se usa mais o vinho de caju? Aliás, a fábrica e o processo de produção deveriam ser tombados. Em 1952, o Instituto de Nutrição de Pernambuco preconizava o uso da farinha de castanha como complemento da …

Exemplares do vinho de caju M da Paraíba: por que isso tem de acabar?

Eu acho que nós devemos inverter essa posição: que o proprietário do imóvel seja o maior interessado em reformá-lo como um valor a mais e seja, inclusive, o principal beneficiado com essa conservação.

ISTO É. E qual será a disponibilidade financeira do IPHAN?

Magalhães.

Por mais que se tenha uma política necessária de previsão …

Eu não posso entender que um país capaz de construir Itaipu, o metrô de São Paulo ou do Rio, a ponte Rio-Niterói e tantos outros projetos não tenha recursos necessários para mostrar que o bem cultural é imprescindível nisso tudo.

ISTO É. Por que a dependência econômica é a principal responsável pela perda de identidade dos países em desenvolvimento?

Magalhães.

Não é a principal. Ela é preponderante, mas eu não acredito que uma nação, uma coletividade. possa ser passivamente dominada por uma dependência externa se ela tiver consciência de seus próprios valores. Eu acho que ela é dependente na medida em que é passiva e se liga de maneira inconsciente com seus próprios valores. Esse impacto a que você se refere é terrivelmente poderoso na medida em que ele estimula o sentido da trajetória e de evolução. Mas, se não há consciência interna, muda-se inevitavelmente para aquilo que é oferecido.

ISTO É. O documento que o senhor apresentou adverte que os programas de desenvolvimento calcados em importação de tecnologia são insatisfatórios. Em que outra direção eles poderiam ser orientados?

Magalhães.

Essa é, hoje, uma constatação dos próprios países desenvolvidos, tecnologicamente adultos.