EXPOSIÇÃO NORDESTE

Pereira, Juliano Aparecido.

Lina Bo Bardi: Bahia, 1958-1964, EDUFU, 2008.

  • p. 100

Solar do Unhão, Salvador, Bahia 1963

NORDESTE Esta exposição que inaugura o Museu de Arte Popular do Unhão deveria chamar-se Civilização do Nordeste. Civilização. Procurando tirar da palavra o sentido áulico — retórico que a acompanha. Civilização é o aspecto prático da cultura, é a vida dos homens em todos os instantes.

BARDI, L. B. Apresentação-manifesto da exposição de arte popular do Unhão, 1963.

Folder da exposição. A exposição Bahia apresentação de uma cultura e não mostra de exotismo. Diário de São Paulo, São Paulo, 13 set. 1959.

  • p. 198

… de 57 pintores dos Estados de Ceará, Pernambuco e Bahia. Entre eles estão, da Bahia, Sante Scaldaferri, Emanoel Araújo, Calazans Neto, Riolan, Juarez Paraíso, Jacyra Miraheau, Jenner Augusto e mais 16 artistas. Do Ceará estão entre outros, Bandeira, Francisco Silva, Floriano e Sérvulo Esmeraldo, num total de 10 artistas. De Pernambuco participam 24 e entre eles sobressaem-se Vicente do Rêgo Monteiro, Brennand, Reynaldo Fonseca, Aloisio Magalhães e mais pintores do Movimento Cultural Popular, João Camara, Aron Simis, Roberto Amorim e Guita Charifker. Participa, também, da mostra de lançamento o pintor primitivo Aurelino Pedroso e o desenhista Naif Ganem.

BARDI, L. B. Nordeste. Salvador: Museu de Arte Popular do Solar do Unhão, 1963. Folder da Exposição no Museu de Arte Popular do Solar do Unhão, Bahia, Brasil.

Esta exposição procura apresentar uma civilização pensada em todos os detalhes,  estudada tecnicamente, (mesmo se a palavra técnico define aqui um trabalho primitivo), desde a iluminação às colheres de cozinha, às colchas, às roupas, bules, brinquedos, móveis, armas. É a procura desesperada e raivosamente positiva de homens que não querem ser “demitidos”, que reclamam seu direito à vida. Uma luta de cada instante para não afundar no desespero, uma afirmação de beleza conseguida com o rigor que somente a presença constante de uma realidade pode dar. Matéria prima: o lixo. Lâmpadas queimadas, recortes de tecidos, latas de lubrificantes, caixas velhas e jornais. Cada objeto risca o limite do “nada” da miséria. Esse limite e a contínua e martelada presença do “útil” e “necessário” é que constituem o valor desta produção, sua poética das coisas humanas náo-gratuitas, não criadas pela mera fantasia. É neste sentido de moderna realidade que apresentamos criticamente esta exposição. Como exemplo de simplificação direta de formas cheias de eletricidade vital. Formas de desenho artesanal e industrial. Insistimos na identidade objeto artesanal – padrão industrial baseada na produção técnica ligada à realidade dos materiais e não à abstração formal folklórico-coreogrática. O texto do folder é bastante esclarecedor da visão de Lina sobre a produção popular. A intenção é participar de maneira positiva do processo de transformação, pela consciência de que ele, isto é, a evolução é inevitável. A mostra é realizada com recursos muito simples: caixotes de madeira evocando a maneira como esses objetos encontravam-se originalmente expostos nas feiras e mercados populares. Lina Bo havia pensado na complementação deste conjunto reunido e que seria o acervo do museu, através da destinação da praça aberta à beira mar do Solar do Unhão, durante o funcionamento do Museu e da Escola, como um espaço para o comércio de artesanato, apresentações de música, samba de roda, teatro e …

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