ABELARDO Rodrigues, idealizador e responsável pelo sucesso do MAP

Revista do Globo

UT Libraries 2008

Vol. 27

  • p. 168

ACOMPANHADO de Abelardo Rodrigues vou ao “Horto Florestal de Dois Irmãos”, fazer uma visita ao recém-criado “Museu de Arte Popular”, o primeiro instalado no Brasil. Abelardo Rodrigues, responsável por essa feliz iniciativa, para a qual contou com a ajuda financeira da Secretaria de Agricultura (e por que não da de Educação?) do Estado de Pernambuco, pertence a uma das mais tradicionais famílias nordestinas. É um sujeito dinâmico, meio nervoso, de fibra — um comerciante de bom-gosto, com vocação de artista. Ele gosta de arte, de organizar exposições, tanto de artistas modernos, como de coisas antigas, de santos principalmente, de que possui uma das mais belas e ricas coleções do país. A caminho do museu ele me explica pacientemente o resultado de suas pesquisas e iniciativas: — Imagine você que antigamente eu me via obrigado a mandar para fora tudo que havia de melhor, em matéria de arte popular nordestina. Você vá ao Museu de Arte Popular do Chile ou de Havana (Cuba) que encontrará as melhores coleções de peças de Vitalino, do Mestre Faustino Porfírio, de Canhotinho e algumas do Mestre Severino, de Trecunhaem. Agora a coisa é diferente, já se pode guardar aqui as melhores peças e coleções de figuras de barro, no museuzinho.

Adiante, quando já estamos chegando, nas alturas de Apipucos, ele arremata: — Aqui, meu caro, tudo tem que vir de iniciativa particular, da vontade de algum doido com eu e outros, que vivem lutando para conservar aqui na terra as melhores coisas da terra. E se não fosse por mim e por alguns outros idealistas, as melhores coleções de santos e figuras de barro, já teriam ido todas para o exterior. E, com aquele jeito bem seu, de nordestino: — Se a gente for esperar pelos homens do Estado, ou por uma meia dúzia de capitalistas, que só pensam na alta do açúcar para encher os bolsos, adeus viola!

ARTE POPULAR DO NORDESTE

Ao nos apearmos em frente ao museu, ele me tem pelo braço e explica: — Agora, veja você, um homem inteligente Aníbal Fernandes, inteligente, de visão larga, pois é …

Mas é um erro, porque, se existem museus, deve-se o melhor que possuem aos doadores, que são colecionadores particulares. Um exemplo: o Museu do Estado conta com três coleções valiosíssimas; pois bem, todas as três foram doadas por gente daqui, colecionadores particulares. Além do mais, é graças aos colecionadores que ainda se consegue reter no Estado ou no país as verdadeiras obras de arte, evitando-se, assim, de vê-las saírem impunemente, para o exterior, a fim de enriquecer o acervo de particulares e de museus estrangeiros!

O prédio onde funciona o “Museu de Arte Popular” de Pernambuco fica à esquerda de quem entra para visitar o “Horto Florestal de Dois Irmãos”; o projeto é da autoria do jovem arquiteto Borzoi, que fixou residência no Recife. É um prédio …

O museu conta, no seu acervo, com várias coleções de figuras de barro, ex-votos, pintura primitiva, santos e bonecas de pano (bruxas) e peças de mamulengo, …

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POPULAR DO NORDESTE AGORA O MERECIDO MUSEU

Seu nome é Museu de Arte Popular, se acha instalado um acervo, são as obras autênticas do nordeste…

… além de desenhos e xilogravuras de autores anônimos ou sumidos. As coleções de figuras de barro são as que mais dão na vista; os artistas populares responsáveis por tão impressionantes e magníficos trabalhos tem o seu nome num cartão, dando data de nascimento, procedência etc. Assim a gente fica sabendo que o artista tal, por exemplo, o Mestre Faustino Porfírio de Canhotinho, faleceu por voltas de 1943, trabalhava em barro branco e costumava fazer peças miúdas, na sua maioria. Eram cenas de casa-de-farinha, de animais domésticos, de noiva montada ao lado do noivo, na garupa de um cavalo.

Ele não viveu para alcançar a glória, isto é, para ver suas pecinhas expostas num museu bem organizado, à curiosidade e ao interesse dos visitantes e colecionadores. A outra coleção que impressiona, é a do mestre Severino, de Trecunhaem, que até bem pouco vivia na obscuridade …

É um artista  popular com um poder de imaginação fabuloso, com um vigor e um poder de criação extraordinários, que nos dá o que pensar; basta dizer que, …

As peças do hoje internacionalmente conhecido Mestre Vitalino, de Caruaru, são bastante apreciáveis, notadamente um “Lampião” e algumas outras de sua fase antiga; dizem que deixou de trabalhar (não sabemos se é fato), que agora os filhos fazem e ele carimba.

As peças do Mestre Severino, no entanto, valem elas só pelo museu inteiro, isso sem querer desmerecer o valor e o esforço dos outros artistas populares. São anjos e arcanjos magníficos, santas impressionantes e uns boizinhos líricos deitados ruminando, além de uma vasta quantidade de galos extraordinàriamente belos, que nunca se repetem nas mãos habilidosas do mestre.

A GLÓRIA DOS ANÔNIMOS

Os quadros valiosíssimos, cheios de uma ingenuidade impressionante, com que o museu conta, são de um …

A CAPITAL pernambucana tem agora, para oferecer aos forasteiros, uma amostra da autêntica arte nordestina…

… colorido que a gente não sabe como pode existir, tais como os dos primitivos José Alves e do pai-de-santo Rafael, ambos da Bahia. E a impressionante coleção de xilogravuras (já há um álbum feito numa prensa manual e organizado por Walmyr Maranhão) de artistas anônimos que nunca aparecem, preferindo antes manterem-se no mais completo anonimato, …

É um trabalho de mestre, feito com abnegação e paciência, à ponta de canivete ou com um pedaço de lâmina de barbear; trabalho que atesta perfeitamente, por sua técnica primorosa e poder de imaginação, a capacidade criadora e o talento inigualáveis do artista popular do Nordeste.

NESTAS fotos aparecem — parte da coleção de ex-votos, algumas das mais bonitas obras do Mestre Severino de Tracunhaem e um cangaceiro (ou macaco da polícia?) de autoria do hoje internacionalmente conhecido Vitalino.

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