Brasília Segundo Feldman

Wladimir de Carvalho

CNRC 1979

“Material documental filmado pelo ‘designer’ americano Eugene Feldman, em visita à Brasília na época de sua construção: a precariedade da segurança dos trabalhadores em razão do ritmo acelerado das obras e depoimentos de pioneiros sobre as condições de vida dos candangos.”

1975

Do Faroeste à Polêmica As imagens eram precárias. A câmera balançava com frequência, o foco fugia ao controle do cinegrafista, as tomadas não se concluíam devidamente. Mas, aos meus olhos, aquele material bruto pareceu extremamente precioso. Não estava diante de mais uma filmagem oficialesca, celebratória ou meramente técnica da construção de Brasília. O que aparecia, como nunca vi antes ou depois, era o trabalho puro e simples. Eram as figuras casuais dos candangos, muitos deles andrajosos, trabalhando sem capacetes. Eram grupos de operários comendo suas marmitas ou socados em caminhões que levantavam a poeira vermelha do planalto. O olhar por trás da câmera era de um estrangeiro, o designer gráfico norte-americano Eugene Feldman. Seu parceiro intelectual, o também designer Aloisio Magalhães, integrante da equipe de Niemeyer durante a construção, o recepcionara numa visita ao Brasil, em 1959.

Naquela ocasião, Aloisio o levou a conhecer Manaus, Ouro Preto, Rio de Janeiro e por fim Brasília. Feldman entrou filmando na futura capital, fez imagens aéreas, percorreu com calma os imensos canteiros de obras. Tenho para mim que ele viu ali um novo faroeste. Feldman morreu em 1975, depois de publicar dois livros em conjunto com Aloisio Magalhães. Em 1978, sua viúva presenteou Aloisio com as três ou quatro latas contendo o material de Brasília, não mais que uma hora de película reversível 16mm. Aloisio chamou-me na UnB para opinar sobre o destino que poderia ser dado ao material. Foi quando eu me extasiei ante a sua originalidade. Surgia a minha primeira oportunidade de levantar questões que vinha coletando sobre o outro lado da epopéia brasiliense. Brasília Segundo Feldman viria a ser a primeira parte de uma trilogia informal, complementada mais tarde por Perseghini e Conterrâneos Velhos de Guerra. Dividi a autoria do filme com Feldman e assinei os créditos de compilação, estrutura e produção. O projeto foi abraçado pelo Centro Nacional de Referência Cultural, uma criação de Aloisio. A fim de salvaguardar os originais, produziu-se um negativo e daí a cópia que levamos para a moviola. No entanto, não bastava selecionar o material tecnicamente apresentável e montálo. Eu precisava dar-lhe forma e reavivá-lo. Não havia som direto, mas apenas algumas fitas gravadas à parte pelo mesmo Feldman, com cantorias nordestinas, um Olê Mulher Rendeira e um samba-exaltação. Como ele não estava vivo para dar um depoimento, optei por ouvir dois representantes da edificação de Brasília. Do lado dos mentores intelectuais, chamei Athos Bulcão, responsável pelas obras de arte que vieram complementar o trabalho de Niemeyer e já aparecia nas imagens de Feldman. Da parte dos operários, convidei Luiz Perseghini, que meu aluno Sérgio Moriconi havia descoberto em seus exercícios de documentarismo. Num auditório, exibi aos dois um copião prémontado, enquanto gravava suas vozes comentando fatos e situações, identificando pessoas e lugares. O processo se assemelhava ao já usado em A Pedra da Riqueza. Como material adicional, filmei um vernissage de Athos no Rio e uma entrevista com Perseghini em seu sítio na periferia de Brasília. Foi então que ele me perguntou se podia falar da chacina da Pacheco Fernandes. Em alguns momentos, os depoimentos se contradizem, criando uma polêmica interna no filme. Athos, por exemplo, diz que morreu pouca gente em relação ao que era esperado. Já Perseghini afirma que foram muitas as mortes, com os cadáveres sendo rapidamente ocultados para não desacelerar os serviços. O velho Perseghini ainda tinha muito para contar, e eu logo voltaria a ele.