Seminário sobre Preservação e Valorização do Patrimônio Cultural

23/3/1982

UT Libraries 2008

  • p. 14

… preciso inclusive que se diga que a noção de progresso, sobretudo nos países jovens, nos países como o Brasil, com essa evolução rápida, acelerada, na direção do desejo de maior bem-estar da sua comunidade, tendem frequentemente essas comunidades a só olhar para frente. Mas esse olhar para frente é um olhar curto, é um olhar pequeno, é um olhar míope, que procura ver só coisas de atendimento imediato: melhorar o padrão de vida, melhorar certas necessidades econômicas, enfim, tudo aquilo que é legítimo, que é necessário, que é fundamental à vida de cada um de nós, de cada ser humano, de procurar o seu bem-estar. Mas, muitas vezes, isso dá uma miopia, que nesse afã, nessa luta de mudar, de olhar para frente, esquece-se  que o verdadeiro olhar para frente, que a única e absoluta maneira de se ver a longo alcance e atravessar um horizonte mais longo, não pode prescindir do passado. Só se pode fazer  o novo a partir daquilo que você é. Não creio que nós, sociedade brasileira, no fundo de cada um de nós, exista o desejo de resolver o problema do Brasil na base apenas do Produto Nacional Bruto, na base apenas de melhorar um pouco …

Não acho que isto esteja dentro dos objetivos fundamentais de nenhum de nós.

Não é possível esse desejo para frente, essa visão do novo, do verdadeiramente novo, do solidamente novo, se não estiver baseado naquilo, naqueles indicadores que foram frequentemente repetidos, reiterados através do nosso processo histórico. Costumo usar uma imagem que repito para vocês, é a do bodoque, do estilingue: a pedra vai mais longe de acordo com a elasticidade da borracha e do recuo que se pôde dar ao gesto de lançar a pedra.

Se a Bahia não entender Cachoeira, se a Bahia não analisar, se as novas gerações, se os nossos estudantes da universidade, os rapazes e moças que serão responsáveis, mais e mais serão responsáveis pelos destinos da Nação, não tiverem lugar para estudar as verdades, os pontos de referência, os componentes básicos do que tem sido dentro da história da Nação brasileira o Estado da Bahia, a região do Recôncavo, se esses jovens não tiverem à disposição deles, e essa é a nossa obrigação: a capacidade de nós devolvermos a esse pessoal, devolvermos o contato com essa realidade guardada, escondida, não tem sentido a memória apenas para guardar o passado, não tem sentido que esses documentos, os bens fiquem apenas porque foram belos, foram úteis no passado. É preciso que voltem a ser úteis, é preciso que estejam à disposição do pessoal moço, que precisa entender esses componentes para poder entender o que deve fazer deste país. E nesse sentido que a tarefa da preservação do patrimônio cultural brasileiro em vez de ser uma tarefa de cuidar do passado é, essencialmente, uma de refletir sobre o futuro. Muito pouca gente, e são poucas as áreas no nosso País que estão preocupadas com esse tipo de reflexão.

Mas não sairemos desse buraco, não conseguiremos construir um desenho projetivo do Brasil, nem nenhum modelo que seja verdadeiramente importante para a Nação brasileira, se isso não for feito à base daquilo que nós somos, das referências da nossa identidade.

Aloisio Magalhães, na solenidade de abertura do Seminário sobre Preservação e Valorização do Patrimônio Cultural e Natural da Cidade de Cachoeira.

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