Um laboratório unindo várias áreas do conhecimento para fazer um registro da cultura

1977

UVª Library 2010

Visão – Cultura – Memória

Vol. 50

  • p. 67

Pesquisadores do Idart documentam eventos culturais presentes e passados

Estaria a memória nacional ameaçada pelos cortes orçamentários que preocupam o país? Parece que sim. O Centro de Pesquisa de Arte Brasileira, órgão da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, que funciona no antigo solar da marquesa de Santos e que se propõe realizar trabalho dos mais importantes e originais, estudando e documentando os vários campos da cultura artística da capital, terá que frear parte das atividades previstas para 1977 — por falta de verbas. Maria Eugênia Franco, diretora do Instituto de Documentação Artística (Idart) e idealizadora do Centro — que prossegue as pesquisas realizadas há quarenta anos por Mário de Andrade, Paulo Duarte e Sérgio Milliet —, declarou a Visão que, para recuar no tempo como o trabalho exige, sente falta de pessoal. O projeto inicial, que previa sessenta pesquisadores, divididos em seis áreas, já os viu reduzidos primeiro para cinquenta e agora para trinta. E como a verba para a implantação da pesquisa já era inicialmente insuficiente, com o corte de 38% previsto para este ano a situação deverá agravar-se. Mas dificuldades funcionais, materiais e operacionais não são novidade para Maria Eugênia nem para quem quer que se ocupe de cultura no Brasil. Apesar do projeto de lei que lentamente tramita pelo Congresso — está atualmente nas mãos do senador José Sarney — e que visa à criação de incentivos fiscais para empresas que favoreçam instituições culturais, a exemplo das leis que vigoram em países como os Estados Únidos e Japão, o clima de desânimo, pessimismo persiste, expresso nestes termos pelo pintor Wesley Duke Lee, co-presidente da Comissão de Artes Plásticas do Conselho Estadual de Cultura: “No Brasil, vivemos numa oca em que tudo recebeu incentivo – menos a cultura”. Quanto a Maria Eugênia Franco, tão bem vivas em sua memória as dificuldades que enfrentou ao dirigir, durante trinta anos, a Seção de Artes e Biblioteca Mário de Andrade e ao – andamento dos trabalhos de instalação do Arquivo Documental de de Maria Eugênla: um projeto flexível da Arte Brasileira — logo paralisados por falta de verbas e de funcionários.

Estamos tentando realizar programa único no Brasil, propondo o estudo e documentação das várias formas de expressão artística da cidade de São Paulo, tomada como o laboratório de uma experiência estética sociológica”.

Décio Pignatari, crítico e professor de Literatura e Teoria da Comunicação e atualmente um dos diretores do Centro, explica que as pesquisas dirigidas e a cobertura de eventos culturais se processam segundo dois cortes: um sincrônico, que registra dados atuais de forma a facilitar o exame futuro das camadas cronológicas da cultura da cidade de São Paulo, e outro diacrônico, que pesquisa manifestações e documentos do passado.

O campo das atividades engloba os setores de arquitetura, artes cênicas, artes gráficas, artes plásticas, cinema, comunicação de massa (imprensa, rádio, tv e publicidade), desenho industrial, folclore e as várias manifestações de arte espontânea, literatura, música e som. Fundado em 1975, em sete meses de atividades experimentais o Centro de Pesquisa de Arte Brasileira já conseguiu realizar a cobertura documental de alguns dos principais eventos artísticos do primeiro semestre deste ano.