Gilberto Freyre

8a90ce422be6e270a7e91bd971ecec5fe9eecd171900-1987.

A propósito de frades, Progresso, 1959.

fonte: UT Libraries 2008

 

Destaque-se dos verdes de Pernambuco que fizeram Post pintar árvores diferentes das europeias, em pinturas quase sempre anedóticas ou quase anedóticas, que vêm sendo há anos objeto de paciente pesquisas da parte do pintor Cícero Dias no sentido de sua redução a cores que, em pinturas abstratas, tenham este poder evocativo: o de sugerirem, como puras cores, verdes de canavial, de cajueiro, de mangueira, de mar, de litoral; e, mais recentemente, objeto de esforço igualmente sistemático da parte do pintor Aloisio Magalhães no sentido da redução desses elementos de paisagem — a paisagem do Trópico úmido — a formas e cores típicas, extremamente simplificadas. O que mostra que mesmo na pintura abstracionista há quem faça regionalismo, que é uma expressão, em arte, de apego a formas, cores e valores com …

Diário Íntimo, 1960.

fonte: UCLA Library 2010

  • p. 67

Audácias semelhantes às do consagrado Cândido Portinari; e às quais se juntam as de outros recifenses, experimentais e renovadores em pintura, tendo por inspiração principal a arte francesa, como Rosa Maria, Lula Cardoso Ayres, Aloisio Magalhães, Ladjane Bandeira, Baltasar da Câmara: renovadores da pintura ou do seu ensino, dentro de um rumo ou de uma constante própria do Recife.

o Luso e o TrópicoO Luso e o Trópico: sugestões em torno dos métodos portugueses de integração de povos autóctones e de culturas diferentes da europeia num complexo novo de civilização: o Luso-tropical, Portugal, 1961.

fonte: M Library 2006, UT Libraries 2007

  • p. 192

… sociais de interação humana, inclusive os meios tecnológicos dessas formas se realizarem, condicionam a predominância de formas artísticas assim como alteram a hierarquização de valores tanto sociais — o analfabeto em relação com o alfabetizado — como artísticos: a literatura escrita em relação com a oral. Essa correlação entre formas sociais e formas artísticas não nos esqueçamos que se exprime, em grande parte, temporalmente, através de épocas caracterizadas por motivos de vida que se refletem nos de arte ou provocam reações nos de arte, e regionalmente. Daí a atualidade do movimento que vem pretendendo dar bases regionais às artes brasileiras sem prejuízo nem da sua universalidade nem da sua modernidade, embora outros, como o hoje paulista Antônio Rangel Bandeira, venham inteligentemente, salientando, do próprio Villa-Lobos que sua força — inclusive sua irradiação na Europa e nos Estados Unidos — está na expressão que ele dá à experiência do Brasil. Um dos melhores dos críticos literários mais novos do Brasil, o Professor e ensaísta literário Joel Pontes, referiu-se, não há muito, ao “regionalismo” como um movimento “sobrepujado”. Não me parece que Pontes tenha razão — a não ser que ele veja no regionalismo brasileiro um movimento, cujos propósitos seriam sectários e imediatos.

No Brasil, ela se manifesta em grande parte do que é melhor na mais recente arte literária: no romance do mineiro Guimarães Rosa, por exemplo; na poesia dos pernambucanos João Cabral de Melo Neto e Mauro Mota; e também no teatro de Ariano Suassuna e José Carlos Cavalcanti Borges, de Antônio Callado, de Jorge Andrade, de João Cabral de Melo Neto, Rachel de Queiroz e de Luís Jardim; na arquitetura de Lúcio Costa; na de Henrique Mindlin; na arte de jardim de Oscar Niemeyer e Burle-Marx; na pintura de Portinari, Cicero Dias, Di Cavalcanti, Caribé, Pancetti, Lula Cardoso Aires, Francisco Brennand, Aloisio Magalhães – esta uma interpretação admirável do Trópico úmido. Além do que, Guimarães Rosa e H. Villa-Lobos se consideravam solidários com o Regionalismo a seu modo modernista de origem recifense de criatividade tão salientada por Blaise Cendrars. Fora do Brasil, sente-se conciliação, coincidente com a preconizada pelo Movimento do Recife, de regional com tradicional e com modernismo, tanto nos Faulkner como nos Malraux; por ela se condiciona a teoria de arte de teatro de Jean Duvignaud; a cerâmica artística de Pablo Picasso não tem outro sentido; nem é outro o sentido daquela moderna arquitetura, rival da brasileira, que se ergue nas áreas devastas, todas da Alemanha, da qual é exemplo o novo Teatro de Munster.

Inclusive — é evidente — uma arte simbioticamente luso-tropical, particularmente hispano ou luso-tropical, da qual a escultura já brasileira do Aleijadinho, a música de H. Villa-Lobos, a arquitetura de Lúcio Costa, de Oscar Niemeyer, de H. Mindlin, de Sérgio Bernardes, a pintura de Cândido Portinari, Di Cavalcanti, Pancetti, Cícero Dias, L. Cardoso Ayres, Guignard, Francisco Brennand, Aloisio Magalhães podem ser consideradas antecipações brasileiras já triunfantes fora do Brasil.

Gilberto FreyreSua ciência, sua filosofia, sua arte: ensaios sobre sua influência na moderna cultura do Brasil, José Olympio, 1962.

fonte: UCLA Library 2007 e UT Libraries 2008

  • p. 137

Semelhante crítica não implica, segundo esclarece Gilberto Freyre, que o Brasil não possua, em sua população, considerável número de brancos, alguns alvíssimos e louros.

É este o critério do escritor-pintor (podemos chamá- lo assim, pois é bem um dos nossos) que, segundo um dos seus críticos, é “genial na capacidade de ver”, e que, segundo outro— o crítico da Sociological Catholic Review— produziu, como escritor-pintor, em Casa-Grande e Senzala, “painéis shakespearianos”. São murais, os de Gilberto; “representativamente tropicais, telúricos, que não precisam ser de modo algum regionalmente folclóricos para terem esse caráter representativo de um mundo diferente do europeu pela luz e pelas cores e formas”. Di Cavalcanti, Guignard, Brennand, Aloisio Magalhães — este, segundo Gilberto, “um intérprete dos característicos mais sutis do trópico úmido”— é como vem desenvolvendo um mural brasileiro: dando relevo mais ao “representativamente telúrico — como diria Gilberto — nos característicos da paisagem e da gente de uma região que ao apenas pitoresco e folclórico”.

  • p. 371

Sem os seus rumores para acordar a bela adormecida em nossa paisagem, em nossos engenhos, no regime patriarcalista, em costumes tradicionais, em casas-grandes, em sobrados urbanos, com leões ou cachorros de cerâmica do Porto, “em guarda contra os moleques”, em sítios com pés de jaqueira, pitombeira, carambola, pitangueira, cajazeira e “mangueiras gordas”, nos alfenins e caramelos vendidos em tabuleiros rendilhados de papel colorido; em receitas de bolos “guardadas como segredo de maçonaria”; sem os seus rumores para acordar a bela adormecida no massapê, nos canaviais, nos cabriolés, nas crias de casa; nas águas, no chão e nas cores desta cidade, talvez não tivessem existido os romances do ciclo da cana-de-açúcar de José Lins do Rêgo, nem as Memórias de um Senhor de Engenho, de Júlio Belo, nem os poemas de Ascenso Ferreira, nem os estudos médico-sociais de Rui Coutinho e Clarival Valadares, nem os estudos socio-antropológicos de Gonçalves Fernandes e Alvaro Ferraz, nem a pintura da primeira fase de Cícero Dias, nem a atual de Lula Cardoso Aires, Aloisio Magalhães e Francisco Brennand, nem a música recifense de Capiba, nem as pesquisas de História Social de José Antônio Gonsalves de Melo, José Valadares e Diegues Júnior, nem o teatro nordestino de Ariano Suassuna e José Carlos Cavalcanti Borges, nem os ensaios sobre cantadores e literatura de cordel de Renato Carneiro Campos, nem a poesia mais recifense e pernambucana de alguns dos poetas mais atuais: Rodolfo Maria de Rangel Moreira, João Cabral de de Melo Neto, Carlos Pena Filho, Edmir Domingues, Garibaldi Otávio, mais caracterizadamente.

Vida, forma e cor, José Olympio, 1962.

fonte: M Library 2006

  • p. 218

Enquanto isso Recife, com toda a sua luz propícia dá apenas dois ou três artistas de valor (Lula, Aloisio Magalhães, Cícero Dias), acentuando com uma suficiência que os fatos não parecem confirmar que os pintores de Pernambuco “emigram para São Paulo, ainda que sem luz, ou Paris”. Não conheço caso algum de pintor nascido e criado pintor em Pernambuco que tenha emigrado para São Paulo ou em busca de ambiente ideal para sua arte — ambiente culturalmente ideal que compensasse no emigrado a perda do ambiente ecologicamente ideal.

E em fixar com traço quase sempre já moderno aspectos ou sensações do Recife se têm especializado já nos nossos dias, além dos irmãos Rego Monteiro — e sem contarmos o exato, meticuloso, e no desenho conservador, admirável, Manuel Bandeira — Luís Jardim, Aloisio Magalhães, Ladjane Bandeira, Reinaldo, Elezier Xavier, Baltasar da Câmara, Mário Nunes.

  • p. 220

Dentre esses, podem ser mencionados Pancetti, Guignard, Lula (Cardoso Aires), Francisco Brennand, Aloisio Magalhães, Manabu Mabe, Caribé, Mercier. São, porém, legião. Ao Brasil de hoje não faltam bons pintores, embora a esses bons pintores faltem ainda aqueles que, excedendo Cândido Portinari em imaginação criadora, se imponham ao estrangeiro por um vigor incomum de criação a um tempo poética e sistemática em torno de assuntos, também a um tempo originalmente brasileiros e amplamente universais em seus apelos ou em suas formas.

 

Arte, Ciência e Trópico: em torno de alguns problemas de sociologia da arte, Martins, 1962.

fonte: UT Libraries 20085e824f63cccd39bb244e3e9d3520268d859c85e5

  • p. 123

Estilização em móveis modernos, arrojadamente modernos — leves e elásticos — e ao mesmo tempo higiênicos e confortáveis e belos. Era uma estilização — repito — que devia ter partido do Brasil, de artistas brasileiros, de pesquisadores brasileiros, se as Escolas de Belas Artes do Brasil, em vez de puras academias de bom ensino, mas ensino apenas convencional, viessem sendo também centros de experimentação em que o Brasil procurasse dar às suas criações modernidade e universalidade, senão total, para todas as áreas tropicais do Oriente, da África, da Austrália, onde florescem ou começam a florescer civilizações modernas semelhantes à brasileira, — a valores e a técnicas não só de construção como de móvel e de vasilhame aqui já há séculos desenvolvidos em formas simbióticas ou luso- tropicais de arte ou de quase arte. São formas essas — repita-se — em que se vêm combinando, para uso brasileiro, a primitividade ameríndia ou africana com a civilidade europeia ou hispano-árabe. Elas se oferecem ao artista moderno com uma extraordinária riqueza de sugestões. Desses artistas nenhum me parece hoje mais atento ao que há de valioso em tais sugestões do que o pintor Aloisio Magalhães que, da pintura, vem se espalhando por artes vizinhas – a gráfica, principalmente, sob o vivo desejo de dar a essas artes uma expressão vigorosa e autêntica do Brasil tropical. Das suas formas e das suas cores de natureza, de terra, de água, de paisagem, de homem, de mulher; e também das suas formas e das suas cores já estabilizadas entre a gente do povo como cores brasileiras através de uma tradição de cultura antes folclórica que acadêmica. Esse é também o afã de outros pintores modernos do Brasil. Em Aloisio Magalhães, porém, semelhante afã vem se intensificando ultimamente num empenho sistemático de desenvolver uma arte gráfica tão representativa do Brasil e, ao mesmo tempo, tão universalmente moderna, quanto é a arquitetura de um Sérgio Bernardes ou de um Henrique Mindlin, de um Lucio Costa ou de um Oscar Niemeyer, quanto continua a ser a música esplêndida de mocidade desse velho ainda com o verdor dos adolescentes que é Heitor Villa-Lobos.

  • p. 124

… urbanismo, em que o problema de Brasília é posto em foco de maneira inteligente e idônea — de prestigiar na Suíça estudos e experimentos de arte gráfica daquele artista brasileiro, que já iniciou nos Estados Unidos trabalhos deveras interessantes numa especialidade ainda quase virgem da presença de um moderno ou de um renovador do nosso País. É que desses experimentos e estudos de Aloisio Magalhães nos Estados Unidos e na Suíça deve resultar um livro ilustrado em que se fará uma apresentação gráfica do Brasil que será ela própria, ao mesmo tempo, nova e inédita, moderna e brasileira: expressiva ou representativa do Brasil.

Será um livro, esse, do qual sem exagero algum se pode desde já dizer — à base dos experimentos já realizados pelo artista consciencioso que é Aloisio Magalhães — que marcará verdadeiramente época no desenvolvimento da arte brasileira como arte de repercussão mundial.

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