Problemas comemoram quinze anos

Visão – Cultura

1977

  • p. 90

Aniversário da Escola Superior de Desenho Industrial: especialistas constatam que quase nada mudou, embora a profissão fosse uma esperança nos anos 60.

ESDI: os desenhistas industriais acabam sendo apenas adaptadores de projetos com “design” estrangeiro.

DESIGN – Até um inesperado manifesto de ex-alunos criticando duramente os caminhos trilhados pela Escola Superior de Desenho Industrial e propondo o design como um modo de “pensar a vida, pensar a felicidade e então realizar esta existência, concretizar este sonho” acabou por fazer parte dos festejos comemorativos dos quinze anos da ESDI, entre seminários, exposição, mostra de de filmes Super-8 e audiovisuais.

DESIGN – O designer alemão Karl Bergmiller, por exemplo, que veio para o Brasil no ano de fundação da ESDI, na certeza de que existia aqui um mercado imenso a ser explorado, comenta com ironia: “Enfrentei muito mais obstáculos do que imaginei,  país onde o design não era novidade”. O fato é que, ao que tudo indica, só agora, quando a profissão se tornou mais conhecida, as coisas ficaram mais fáceis. No entanto, se já não se confunde desenho industrial com desenho técnico, como nota Bergmiller, nem a profissão foi reconhecida oficialmente, nem as grandes empresas utilizam o designer brasileiro: junto com a tecnologia que importam, vem o design.

… viajava para o exterior para copiar modelos, pagando royalties”. Por isso, diz ele, a fundação da ESDI pelo então governador Carlos Lacerda tinha sua razão de ser.

Então, por que o desenho industrial não acompanha a indústria brasileira? Verschleisser destaca a falta de divulgação e principalmente a mentalidade imperante no meio industrial como razões principais. “O industrial brasileiro ainda vive a fase do lucro imediato. Nenhum empresário se preocupa com pesquisa de fundo perdido. Por isso, a maior utilização do designer brasileiro se dá na área governamental.” Nem todas as empresas estatais usam o profissional brasileiro dessa área, constatam os professores Bergmiller e Pedro Pereira de Souza: a Cobec (Companhia Brasileira de Entrepostos Comerciais), por exemplo, lançou uma loja nos Estados Unidos, Canela, especializada em móveis fabricados com mão-de-obra e matéria-prima nacionais, mas com design assinado por americanos. Henry Kupferberg, presidente da Cobec nos Estados Unidos, explica por quê: “Outras companhias caíram no erro de tentar vender no mercado americano a mobília desenhada e produzida no Brasil. Resolvemos abordar o problema de maneira diferente: apresentamos uma mobília americana com o selo made in Brazil”. Segundo consta, a recíproca nunca ocorreu aos fabricantes estrangeiros que exportam para o Brasil.

Prototecnologia

“Fala-se que a solução para o desenho industrial brasileiro é a prototecnologia”, disse o professor Pedro Pereira de Souza ao repórter Alceu Gama, de Visão no Rio de Janeiro. “Isso significa desenhar produtos que se enquadrem numa tecnologia não avançada, já que a tecnologia de ponta não interessa. Orientar o desenho industrial nesse sentido é uma estratégia que considero perigosa.” Mas Aloisio Magalhães, um dos mais requisitados profissionais da área e criador da ideia da prototecnologia, considera que “o que existe hoje é o desenho feito no Brasil e não um desenho industrial brasileiro”. Por isso ele desenvolveu uma teoria explicativa da situação do design no Brasil, segundo a qual, considerando que o universo brasileiro é mais diversificado que o dos contextos economicamente desenvolvidos, os desenhistas industriais locais devem ter duas atitudes.

“Metadesign, a primeira, seria a tomada de consciência de uma fisionomia globalizante e abrangente do contexto social, envolvendo todas as atividades que dizem respeito a uma planificação global. Paradesign, a segunda, seria baseada no reconhecimento de formas de fazer e atuar de um grupo social, criando alternativas tecnológicas e econômicas, além de contribuir para a afirmação de uma cultura nacional.”

Em Brasília, Magalhães procura desenvolver essas ideias e torná-las úteis na prática no Centro Nacional de Referência Cultural. É um trabalho de longo prazo e, enquanto essa reflexão não dá frutos, a profissão de designer continua a viver de impasses e contradições e o país continua a pagar royalties. José Luis Bartolo, por exemplo, que abandonou o curso de Medicina no terceiro ano para fazer desenho industrial na ESDI e já tem seu escritório montado, concluiu de sua experiência profissional: “Existe mais mercado para a programação visual do que para o design, que requer maiores conhecimentos e base teórica mais sólida”.