A forma em série

1980

UT Libraries 2008

UVª Library 2010

Visão

vol. 56

Cultura

O “design” brasileiro quer encontrar seu sentido na grande produção industrial, usando os atuais recursos tecnológicos. É o melhor meio para baixar custos.

Cadeiras do Programa ABX, da Forma. Uma solução para escritórios concebida no Brasil que envolveu estudos e criatividade técnica.

Apenas agora, após vários anos de operação, é que se pensa no desenvolvimento local de produtos. Para começar, como não poderia deixar de ser, ela lançará no mercado uma máquina de escrever. Carlos Drãnger lembra ainda certas resistências do público às inovações, identificando-as como “resistências à industrialização”.

DESENHO INDUSTRIAL

Pode ser uma caneta esferográfica de plástico, dessas que se vendem nos bares. Pode ser o isqueiro de ouro ou de aço inoxidável. Pode ser a cadeira em que você está lendo esta revista. Ou a própria revista. São produtos da moderna sociedade industrial, milhões deles, perenes ou descartáveis, que compõem o cenário do mundo em que vivemos. Queiram ou não, todos têm uma forma, que pode ser boa ou má. É exatamente o desenho industrial que trata de compatibilizar a forma e a função do produto, tendo em vista sempre sua utilização final pelo homem. Como o homem possui um corpo ‘com certas habilidades, a utilização do objeto deve levar em conta a comodidade, a economia de movimentos e a eficácia. Tudo isso é muito bonito em teoria, mas a verdade é que desenhistas industriais e arquitetos no Brasil queixam-se há muitos anos das dificuldades de introduzir a boa forma em nossas linhas de produção, apesar dos comprovados benefícios dessa técnica (ou arte?)  no sentido de tornar as mercadorias mais competitivas. A preocupação com o desenho industrial, nos Estados Unidos e Europa, começa nos próprios departamentos de marketing das empresas, quando se pensa em lançar um novo produto. Durante longos anos, o Brasil limitou-se a importar produtos manufaturados, cuja forma já vinha pronta de fora, concebida pela Inglaterra, nosso principal fornecedor até a II Guerra Mundial. A forma severa e pesada dos utensílios domésticos faz parte até hoje do gosto dos colecionadores das louças e metais ingleses. Com a politica de industrialização a qualquer preço dos anos recentes, a situação pouco mudou a forma dos produtos era ainda importada, dentro do imenso pacote estratégico que o Brasil comprou. Ou, diz José Mindlin, presidente da Leve e diretor da FIESP: “Consegui formar um grande parque industrial mas criaram-se uma certa dependência uma passividade a longo prazo; agora se começa a sentir a necessidade do desenvolvimento do desenho industrial, após esse longo processo de compra—absorção—adaptação”. Para o empresário, há fortes indícios de que é chegada a hora da inovação das formas dos produtos brasileiros, como ele decisivo para o êxito das exportações. “Há produtos brasileiros que não aceitos no exterior por causa de embalagens”, relata José Mindlin.

Algo mudou

O setor empresarial paulista parece ter efetivamente compreendido essa necessidade, tanto que dentro da poderosa CIESP foi criado o Núcleo de Desenho Industrial, que iniciou suas atividades mês passado com a exposição de peças do mais avançado desenho nacional, doadas pelo Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. Um do pulsionadores do projeto é exatamente José Mindlin, que, com os empresários Luis Villares e Dilson Funaro, vem tentando abrir canais mais adequados de comunicação entre os criadores, a indústria e os próprios consumidores. O “Núcleo de Desenho Industrial”, explica José Mindlin, “foi criado após um ano de estudos preliminares e sua finalidade é diagnosticar problemas de a …

A cadeira brasileira

Superar a dependência tecnológica. Essa tem sido a preocupação de muitos designers brasileiros. Mas como? Encontrando alguma empresa que pague para ver as decantadas vantagens da boa forma. Adriana Adam e Ana Beatriz Gomes encontraram. A Forma, indústria de móveis, está lançando no mercado o Programa ABX, linha completa de cadeiras moduladas para escritório. Foram três anos de pesquisas, estudando as posições mais confortáveis, conforme exaustivo levantamento antropometria). “O que nós fizemos aqui na Forma foi estudar até chegar a essas soluções propostas para o Programa ABX; tratamos de desenvolver uma tecnologia própria até chegar aos modelos mais racionais, de baixo custo industrial; tanto que ainda hoje estamos fazendo modificações para reduzir o número de operações na linha de montagem”, relata Adriana Adam. E ela explica que tais preocupações são essenciais na concepção do produto, vendas, verificando até que ponto o design pode ajudar; tudo isso será feito através de seminários com todos os interessados, discutindo livremente o assunto para se chegar a alguma conclusão. O Núcleo, no entanto, tem mais ambições do que as expressas nas modestas declarações de José Mindlin. Pretende recriar uma “tecnologia nativa”, incorporando-a às grandes linhas de produção nacionais. Fabricando em grande escala, a indústria teria condições de baratear o desenho brasileiro, atingindo um público consumidor mais amplo e gerando produtos nacionais exportáveis de acordo com as exigências do mercado externo.

A ideia é conquistar para a indústria moveleira e de utensílios para escritório em geral o enorme mercado governamental. Seria realmente uma grande virada no processo de vendas se os responsáveis pelas compras oficiais se convencessem das vantagens econômicas e funcionais da padronização dos interiores das repartições públicas. No próximo ano, o Núcleo deverá fazer sua primeira exposição brasileira de desenho industrial, servindo-se para tanto da orientação da Associação Brasileira de Desenho Industrial, entidade que reúne os profissionais do setor e que hoje mantém um escritório no próprio Núcleo.

Multiplicação

A iniciativa da CIESP pretende, portanto, recolocar o design na bitola da grande produção rentável, empalidecendo assim sua aura de objetos artísticos caríssimos, acessíveis somente às elites de bom gosto. Carlos Dránger, gerente do Departamento de Projetos e Publicidade Adriana Adam: caminho é pesquisar pois a realidade brasileira é muito diferente da situação da indústria americana, “que dispõe de um sem-número de máquinas-ferramentas para diversas operações”.

Mas ele vê a tendência do crescimento da importância do desenho industrial como irreversível, pois “os produtos estão ligados ao contexto sócio-econômico a que são dirigidos; o usuário deve ser respeitado em suas características culturais” do ABX eram efetivamente caras, pois a soma de operações era muito grande. Hoje, conseguiu-se chegar à integração das diversas etapas de fabricação, simplificando a produção. “O objetivo do desenhista industrial”, diz Adriana, “não é produzir uma escultura, mas conceber projetos em alta escala industrial.” Para ela, as cadeiras domésticas até podem ser caras, pois o consumidor procura um objeto escultórico, com características de objeto único. Mas, no escritório, o custo final do produto é decisivo para o êxito de um projeto. “O nosso desafio”, contam Adriana e Ana Beatriz, “foi provar a viabilidade das ideias, propondo soluções técnicas; e foi com altos e baixos, trabalho e emoção que chegamos a encomendar as primeiras ferramentas de extrusão para concretizar o projeto.