Rossellini e Aloisio Magalhães

2011

Revista Continente

Só agora, passados 43 anos, vim saber o que Roberto Rossellini veio fazer no Recife, precisamente no ano de 1958. Naquela época, no número 415 da rua Amélia, estava estabelecido o “antro” de uma vanguarda intelectual – O Gráfico Amador, o ateliê de Aloisio Magalhães, Reynaldo Fonseca, um escritório de arquitetura e outros de desenho. Por ali passava de tudo: era um referencial da boemia cultural do Recife.

De repente, apareceu por lá o famoso cineasta. Como de costume, cumpria-se o ritual do papo descontraído, regado a batida de maracujá ou limão, para, em seguida, proceder-se com o visitante um city-tour boêmio, que incluía as “zonas” do Pina, bairro do Recife e rua do Rangel, sendo que esta última tinha um ambiente mais comportado, um limbo para onde vinham, ainda inexperientes, as ninfetas desprotegidas do nosso interior. Lá trabalhavam as irmãs Passarinho, já adotadas pelo Ateliê 415 como acompanhantes de outros riscados.

Naquela noite, assim eu soube, acompanharam o maduro, calvo e meio cheinho visitante italiano, Aloisio Magalhães e Abel Acioli. A alegria e satisfação das irmãs Passarinho com a presença dos estimados protetores tornara-se incômoda com o assédio ávido e atrevido do cineasta, encantado com aquela singela brejeirice sensual dos trópicos, a ponto de, num determinado momento, suplicarem que as livrassem do “coroa” pouco atrativo.

Sem nenhum êxito, e tentando confortá-las com o maior dos argumentos para enaltecer a virilidade e a competência do conquistador, Aloisio e Abel cochicharam para as irmãs Passarinho: “Ele é o marido de Ingrid Bergman, a famosa atriz, a mulher mais bonita do mundo!” Inútil apelo. Esta senhora, objeto de tantos zelos e sonhos, não oferecia nenhum temor às musas da rua do Rangel.

  • Versão B

Cenários: Recife (à época uma cidade inteligente, bonita e amena, à qual Camus se referiu como a Florença dos Trópicos); O Gráfico Amador, gráfica artesanal e experimental, fundada por jovens artistas e intelectuais, instalada num sobrado da Rua Amélia, onde hoje tem um posto de gasolina; Pensão de Dona Bombom, na zona da Rua do Rangel, esquina com o Beco do Mijo (oficialmente, Beco do Marroquim). Personagens: Roberto Rossellini, 52 anos, italiano, diretor de cinema, um dos criadores do neorrealismo italiano (Roma, cidade aberta, 1946); Aloisio Magalhães, 31 anos, pernambucano, artista plástico e designer gráfico, seria, poucos anos depois, o mais importante e famoso designer gráfico do Brasil; Abel Accioly, 26 anos, alagoano, arquiteto, um dos fundadores do Gráfico, mais adiante, trabalhou com Oscar Niemeyer na construção de Brasília; As Irmãs Passarinho, entre 18 e 20 anos, prostitutas da pensão de Dona Bombom, ganharam o apelido do pessoal d’ O Gráfico Amador porque viviam rindo e falavam cochichando, como corruchio de passarinho; Dona Bombom, dona de pensão e cafetina.
Rossellini lera A Geografia da Fome, de Josué de Castro. Ficou impressionado. E bateu no Recife (pra conhecer Josué e negociar os direitos autorais do livro que pretendia filmar). O Recife se agitou com a presença ilustre. E Aloisio Magalhães foi escalado para recebê-lo, porque trabalhava na DDC – Diretoria de Documentação e Cultura, e falava italiano.

Aloisio foi encontrar com Rossellini no hotel. Pensou que o cineasta, porque neorrealista e socialista, queria conhecer o povo, a pesca de caranguejo no mangue (da qual falara Josué de Castro) e a cultura popular. Ledo engano. “Quero conhecer moças da sociedade”, disse-lhe o italiano.

Preocupado com a encomenda impossível, uma vez que as moças da sociedade recifense eram todas recatadas donzelas, Aloisio foi pedir ajuda ao pessoal d’ O Gráfico Amador. E Abel Accioly deu a solução: as Irmãs Passarinho. “É só Aloisio dizer a Rossellini que as duas são da sociedade”. Aprovada a sugestão, Abel foi incumbido da missão. Na mesma hora, pegou um carro de aluguer (o táxi da época, sem taxímetro), foi à pensão de Dona Bombom e acertou tudo com ela, o michê das meninas e um jantar caprichado.

Na noite seguinte, a caminho da pensão, Aloisio foi logo dizendo a Rossellini que as moças eram de família, sobrinhas de “Madame” Bombom. Rossellini cumprimentou Dona Bombom e as meninas com a devida e merecida fidalguia.
O ex de Anna Magnani e Ingrid Bergman rendeu-se aos encantos da Passarinho mais jovem e mais bonita. E lhe fez uma declaração de amor solene, no melhor (ou pior) estilo hollywoodiano, seguida da promessa: “Ti voglio portare in Italia”.

Sem entender nada do que ouvira, a Passarinho foi se aninhar nos braços de Aloisio. “Pelo amor de Deus, me livra desse careca.”

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