Folclore: festa e agonia

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9/2/1977

UT Libraries 2008

Revista Veja – ed. 440

Comportamento

  • p. 47

Na verdade, os estudiosos vêem uma constelação de motivos que, a exemplo desse, podem explicar a volta ao folclore. O antropólogo Antônio Arantes, que, n0 momento, se dedica à singular tarefa de defender uma tese de doutoramento sobre literatura de cordel em Cambridge, Inglaterra, culpa a própria industrialização. “O progresso tecnológico do país, ligado às grandes empresas estrangeiras”, imagina ele, “faz com que se percam as fronteiras da individualidade cultural e social do brasileiro. Daí a volta aos símbolos mais fortes de nossa identidade, contidos na cultura do povo.” Segundo Arantes, essa restauração folclórica seria um protesto contra a “produção cultural massificada” — e, portanto, um problema não apenas do Brasil. “Basta lembrar o sucesso da moda vitoriana na Inglaterra, do velho oeste nos Estados Unidos, e da volta idílica à natureza, por toda parte”, sustenta Arantes.

Sabedoria oculta

É possível que no exterior, a reconciliação do público com a música, a arte e o estilo de raízes populares não passe de um modismo de duração curta e resultados dúbios. No Brasil,  no entanto, segundo ensina o designer Aloisio Magalhães, diretor do Centro Nacional da Referência Cultural, o fenômeno parece ligado “a um importante momento de definição”, histórico e político — e, por isso mesmo deve perdurar. “Como disse o ministro Severo Gomes”, teoriza Magalhães,

“a preocupação não deve ser de resolver de imediato o problema do balanço de pagamentos; trata-se de tomar decisões quanto ao nosso próprio destino. A convergência de interesses na cultura popular é consequência da preocupação de descobrir nossa própria identidade.”

De certa forma, não deixa de ser expressivo o fato de que o folclore começa a ser colhido nas malhas da burocracia federal – já existe em Brasília um organismo oficial como o CNRC, mantido por vários ministérios e com a função específica de clarear a obscurecida memória nacional e aproveitar tecnologicamente a sabedoria oculta na cultura do povo brasileiro.

E esta é uma tarefa mais fundamental do que aparenta ser,

diz Magalhães. Citando Abraham Molles, mestre em comunicações, e Henry Rivière, criador do Museu do Homem, de Paris, o presidente do CNRC lembra que

“o Brasil tem condições especialíssimas e favoráveis ao florescimento de uma cultura nova. Isso porque está suficientemente maduro em termos de quadros especializados, de incorporação de novas tecnologias, e, ao mesmo tempo, é ainda um país virgem, com grande potencial de recursos a serem vasculhados”.

O ex-publicitário Marcus Pereira, que pessoalmente já vem testando na prática essa potencialidade,  com seu trabalho de divulgação da música folclórica — no qual, aliás, arrisca seu próprio dinheiro —, supõe que o renascimento folk seja basicamente uma reação contra a cultura do rock. “Ninguém se renuncia eternamente”, afirma Pereira. “Depois de cultivar a cultura doentia que nos é imposta, a cultura do impasse, das drogas, do nada, o artista se descobre iludido pelos artifícios da comunicação. Percebe que tem valores maiores — e volta-se para a nossa cultura, que é a cultura da vida e da alegria.”

Os organismos que mantêm o CNRC, em convênio: ministérios da Educação, da Indústria e do Comércio e das Relações Exteriores; Secretaria de Planejamento da Presidência da República; Caixa Econômica; Universidade de Brasília; e Fundação Cultural do Distrito Federal.

Fandango e maracatu

Talvez esteja aí a pista mais evidente para o mistério do falecimento de significativas manifestações folclóricas pelo país afora — embora a tendência indicasse o contrário.

No Recife, o frevo já não forma ondas de foliões como antigamente.

  • p. 48

Vergonha do Congo

“A televisão é um meio execelente”, diz Tinhorão, “mas o mal que faz é tenebroso: ela trai a realidade cultural. Se um programa vai retratar uma pequena comunidade do interior, ridiculariza as moças com trancinhas e minissaias de apelo erótico, para vender melhor os anúncios de intervalo.

Teares de Madeira

Argumenta Aloisio Magalhães:

“A arte popular não usa formas repetidas. Para que fazer um liquidificador apenas mais funcional? E bordar sobre o bordado”.

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