Chico Antônio e seu meio

1982

No Balanço do Ganzá

Este disco é o resultado do encontro de dois grandes comunicadores brasileiros: Chico Antônio e Aloisio Magalhães.

Através da obra de Mario de Andrade, Aloisio tomara conhecimento da existência do coqueiro Chico Antônio, que costumava frequentemente dar como exemplo do significado e abrangência da cultura do povo.

A exemplo de Mario, Aloisio sabia meridianamente distinguir “as tradições móveis das tradições imóveis”.

Ninguém mais móvel, ninguém mais  prezador dessa tradição viva, em transformação, do que Aloisio, que tantas vezes recorreu à imagem do estilingue para exprimir a necessidade de um recuo aparente para o melhor entendimento de uma formulação projetiva: “quanto mais se estica a borracha para trás, mais longe vai a pedra.”

Em Aloisio a mesma reivindicação de Mario: a de um movimento recíproco de maior conhecimento entre saber erudito e saber popular, através de uma atividade que provoque o “erguimento das partes que estão na sombra, pondo-as em condição de receber mais luz.”

Cinquenta e quatro anos depois de avistar-se com Mario, Chico Antônio vem a Natal ao encontro de Aloisio, que logo depois, no Rio, pede uma ação em torno da pessoa e do significado da pessoa do cantador em seu meio, através do Instituto Nacional do Folclore.

Este disco, onde pela primeira vez os cocos de Chico Antônio soam com a sua voz gravada, é uma das maneiras de dar prosseguimento ao desenho, ao desígnio cultural de Aloisio.

Esse resultado multiplicador, que espelha o coletivo a partir da individualidade, visa marcar tanto em Aloisio como em Chico Antônio a presença do artista junto à do comunicador.

Foi uma vontade de criação semelhante que fez com que Aloisio desse forma à Secretaria da Cultura, modelando-a com a intuição de seu humaníssimo convívio e com a firmeza do fazer próprio do artista que conhece a fundo a matéria da sua linguagem.