Cada Vez Mais Brasileiro

1965

UT Libraries 2008

Visão, vol. 26

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A primeira etapa do Seminário tratou do ensino do desenho industrial

Entre os dias 9 e 13 de novembro do ano que se findou, a Associação Brasileira de Desenho Industrial (ABDI) promoveu em São Paulo a primeira etapa do Seminário de Ensino de Desenho Industrial (a segunda etapa será realizada em meados de abril, no Rio de Janeiro). Levando em conta a crescente importância do desenho industrial em nosso País, Visão publica este Artigo de Capa, apresentando alguns dos temas discutidos na primeira etapa do Seminário e tecendo considerações sobre o assunto. Durante a primeira etapa foram examinados e debatidos problemas relativos ao ensino do desenho industrial no País e sua estruturação de acordo com a realidade brasileira nesse campo.

Para a segunda fase estão previstos o exame e o debate da definição e conceitos básicos do processo de ensino do desenho industrial, bem como um possível projeto de escola-padrão, de nível superior, para o ensino do desenho industrial no Brasil. Controvérsia — O que é desenho industrial e qual é a função do desenhista industrial?

“Desenho industrial” engloba, no inglês e no alemão, um significado que nem sempre está contido na expressão portuguêsa, dada uma limitação de nossa língua. A expressão designer em inglês significa “projetador” e “criador”. No alemão, Gestaltung significa “forma” ou “formação”, incluindo ainda a ideia de criação.

De qualquer modo, porém, o desenho industrial engloba uma vasta área de conhecimento, tomando o especialista na matéria, de acordo com o Professor Décio Pignatari, da Escola Superior de Desenho Industrial, do Rio, “um mediador entre a indústria e o mercado”. Ainda segundo Pignatari, “o desenhista industrial cria projetos técnico-formais, de objetos destinados à produção em série, visando a qualidade dos mesmos, dentro das necessidades sociais, econômicas e culturais ditadas pela época e pela comunidade para a qual trabalha”. “No planejamento do produto”, prossegue, ele é o coordenador. Coordenador entre o possível e o desejável. Entre a necessidade e a aspiração. E nisto reside a natureza especial de sua atuação técnico-profissional. O desenhista industrial cria a imagem do produto a partir do processo que resulta em produto, e sempre tendo em vista as possibilidades e necessidades reais do consumidor.” O produto em sua forma final “é um resultado original e criativo baseado na cordenação de dados técnico-operacionais de produtividade, mercadológicos, psico-sociológicos e culturais”, considera Pignatari.

Acredita ele que, “o desenhista industrial não é apenas um desenhista técnico, um “estilista” ou um “artista”. Soma a essas atividades aquelas necessárias à sua função coordenadora”.

Divisão — No Brasil, o desenho industrial se divide basicamente, pelo menos para fins didáticos, em duas partes:

Desenho industrial propriamente dito, que cuida da estética e do planejamento técnico e formal de produtos manufaturados.

Atualmente, em outros países, como a Alemanha, já existem no desenho industrial dois outros setores, ou seja, a pré-fabricação e a informação. A pré-fabricação estuda e pesquisa a fabricação de elementos “tipo” para a construção em série, principalmente no ramo da construção civil.

Em nosso País já existe uma possibilidade de o setor informação ser incorporado ao desenho industrial, graças ao convite que foi feito ao Professor Pignatari para lecionar no programa de televisão “Faculdade de Comunicação em Massa”, produzido pela Universidade de Brasília.

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O desenvolvimento de um projeto é determinado por uma pesquisa exata, um trabalho metódico, levando em conta sobretudo soluções técnicas, função determinada, estética e econômica.

Realidade brasileira — No Brasil, coube a um grupo de arquitetos do Rio de Janeiro, em 1930, a tentativa de reformular as relações entre a cultura e a indústria nacional. Liderado por Lúcio Costa, esse grupo não só valorizou certos aspectos industriais, como também fez da tecnologia o ponto de partida para o que desejava criar. Os beneficiados por essa iniciativa foram, a princípio, as indústrias de construção. Consequentemente, como decorrência da própria atividade profissional -, o arquiteto passou a concentrar seus esforços no sentido de melhor equipar o meio ambiente do homem, tarefa que lhe coube, em parte, devido à carência de desenhistas industriais. 

Assim, depois das décadas de 20 e 30, quando Warchavchik e Flávio de Carvalho foram pioneiros, um novo grupo de profissionais surgiu no bojo da década de 40 – Rino Levi, Villanova Artigas e Bernard Rudofsky, responsáveis por desenhos de móveis e outros objetos domésticos. Em 1948, aparece uma linha de móveis, em madeira compensada e recortada, que se tornou muito popular no Brasil com a denominação de “Móveis z”, de autoria de Zanini. Ainda nessa época, numa tentativa que malogrou, foi instalada em São Paulo uma sucursal da firma americana Raymond Loewy Associates, que chegou a realizar a marca e o logotipo para as indústrias Pignatari, a linha de utensílios de alumínio para a Rochedo, a embalagem do sabonete Gessy e uma linha de móveis para a Brafor.

Em 1950, Lina Bo Bardi e Giancarlo Palanti fundam em São Paulo o Studio de Arte Palma, onde durante dois anos se dedicaram a projetos de desenho industrial, como cadeiras e poltronas, “partindo da simplicidade estrutural, aproveitando-se da extraordinária beleza das veias das madeiras brasileiras, assim como do seu grau de resistência e capacidade”. Também o Museu de Arte Moderna de São Paulo contribuiu para o desenvolvimento do desenho industrial no Brasil, exercendo, através de seu acervo (Le Corbusier, Max Bill, Burle Marx), uma grande influência e aproximando os artistas da indústria.

Pignatari tem fórmula para a querela entre a técnica e a estética

Em 1963 funda-se no Estado da Guanabara a Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI), a primeira do Brasil de nível universitário. Nesse mesmo ano, em São Paulo, funda-se a Associação Brasileira de Desenho Industrial (ABDI), cuja finalidade principal, segundo seu presidente, arquiteto Lúcio Grinover, é “atuar na criação de condições favoráveis ao desenvolvimento do desenho industrial e contribuir para a qualificação técnico-formal e cultural do produto industrial”. Em julho de 1963 o Brasil é representado, pela primeira vez, no Congresso Internacional de Desenho Industrial, em Paris, promovido pela ICSID — International Council of Societies of Industrial Design.

Mentalidade — Atualmente, pelo fato de o desenho industrial ainda não gozar em nosso País da atenção e do prestígio que bem merece, principalmente por parte da indústria, a profissão de desenhista industrial não é bem compreendida, sendo muitas vezes confundida até com a de arquiteto, ou ignorada por muita gente.

Embora o desenho industrial no Brasil venha evoluindo desde 1930, a verdade é que o que se realiza nesse campo, em sua maior parte, ainda costuma vir de fora e isto por diversas razões.

Em primeiro lugar, os nossos industriais, devido ao rápido desenvolvimento industrial do País, têm-se preocupado mais com o reequipamento necessário à expansão e à melhoria técnica e menos com o aspecto do objeto a produzir.

… Brasil. Por essa razão, o desenho de nossos produtos industrializados contém, muitas vezes, aspectos culturais de outros países.

O arquiteto Lúcio Grinover, de São Paulo, é o presidente da ABDI

… que muitas indústrias mantêm e que, na realidade, não se dedicam propriamente ao desenho industrial, porque neles os objetos são desenhados apenas parceladamente, isolados do todo.

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… estrangeiros, e pelo aparecimento, nos últimos anos, de uma nova mentalidade criadora, o desenho industrial brasileiro começa agora a expandir-se no sentido da formação de uma linha tipicamente nacional. A ESDI, por exemplo, vem pautando sua orientação no sentido da criação de um desenho industrial verdadeiramente brasileiro. O arquiteto Jorge Wilhem, falando a Visão, sintetizou o problema dizendo que “os fabricantes ainda não se adaptaram à nova mentalidade, e preferem copiar em vez de pesquisar”.

Amostra

É principalmente no campo da fabricação de móveis que já se pode notar o aparecimento de um desenho industrial mais brasileiro, embora ainda preso a algumas influências estrangeiras. Além dos móveis, a renovação também atinge refrigeradores, aparelhos eletrodomésticos, objetos de luminária, carroçarias de automóveis, vasilhames, embalagens e marcas, etc. No setor de móveis, destacam-se os fabricados pela Mobília Contemporânea SA e pela Brafor — Brasileira Fornecedora Escolar SA, ambas de São Paulo, e especializadas em móveis para escritório. A primeira, que já fabrica seus móveis semi-automàticamente, ganhou, recentemente, o Prêmio Roberto Simonsen, instituído pela Alcântara Machado Comércio e Empreendimentos. Ainda no setor de móveis existem a Italma SA Indústria do Mobiliário e a Play-Arte Decorações Ltda., também de São Paulo e especializadas em móveis para escritório. No Rio, destaca-se a OCA — Arquitetura, Indústria, Comércio SA, com móveis desenhados por Sérgio Rodrigues. No setor de aparelhos eletrodomésticos temos a Walita SA Eletro-Indústria, de São Paulo, que, segundo Pignatari, apresenta um desenho puramente decorativo, na base do styling americano o que não a impediu, entretanto, de alcançar grande êxito. A firma Plástico Atma e a louça sanitária Hervy também tem contribuído para o campo de ação do desenho industrial brasileiro. Na indústria de refrigeradores ressalta a Gelomatic, cujo projeto original, contudo, foi bastante mudado. Os modelos atuais pouco têm do primitivo. No campo das artes gráficas, destacam-se, no Rio, os trabalhos de Alexandre Wollner e de João Xavier. O concurso para o símbolo do IV Centenário do Rio, vencido por Aloisio Magalhães, também marcou um passo adiante para o nosso desenho industrial. Os modelos para 1965 dos automóveis da Willys Overland e os modelos da Brasinca são outro exemplo do que pode fazer o desenho industrial brasileiro, ora numa fase de expansão e consolidação.

Síntese

Durante sua entrevista a Visão, Décio Pignatari fez questão de frisar que, apesar de tudo, persiste ainda a velha querela entre a técnica e a estética. O desenho industrial puramente funcional ou aquele que se destina a ter uma função social ainda dão margem para muita discussão. Pignatari, no entanto, faz questão de simplificar a coisa dizendo que resolve o assunto de acordo com o seu “Brevíssimo Tratado de Antiestética Semântico-quantitativa”, uma fórmula de sua autoria através da qual, em poucas palavras, ele explica o problema do desenho industrial.

Quatro são os postulados do desenho industrial:

■ Qualidade é quantidade

■ O belo é o significado

■ O significado é o uso

■ O uso é a comunicação

Explicando esses postulados ele diz que: “Em face da produção em massa — motivação  fundamental do desenho industrial —, o problema da qualidade do objeto em si passa a ser secundário, pois o que importa é a qualidade do processo.” Em outras palavras, a quantidade exige uma inovada noção de qualidade que não é mais aquela do objeto isolado, porque na época da produção.

Centro pioneiro

Os industriais brasileiros interessados na modificação do padrão de seus produtos, sejam eles simples talheres ou automóveis, contam hoje com um centro pioneiro na formação de profissionais especializados: a Escola Superior de Desenho (ESDI), que vem de superar sua fase experimental e irá diplomar a sua primeira turma. Dirigida inicialmente pelo arquiteto Maurício Roberto e pelo crítico de arte Flávio de Aquino, a escola se encontra hoje sob direção exclusiva do segundo e pretende “recrutar vocações capazes de imprimir um cunho original aos produtos da indústria brasileira”. A ESDI está aberta a quaisquer candidatos que tenham o curso científico ou equivalente, sendo que “o que verdadeiramente importa nos candidatos é a satisfação de um mínimo de aptidão e de cultura geral”. Durante o ano inicial os alunos escolherão uma das duas especialidades que lhes são oferecidas — Desenho Industrial ou Programação Visual. A parte prática, cuidada com muito carinho pela escola, vai desde a produção de protótipos de utensílios até máquinas de grande porte, em massa e do avanço tecnológico o objeto não é mais feito para durar sempre e sim para ser substituído e renovado.

Isto quer dizer que não é possível aparelhar-se uma indústria para a produção em massa sem aquele nível necessário de qualidade. O que se nota, muitas vezes, é que o consumidor adquire um produto para adquirir status. E o produto que confere significado ao usuário. “Na produção em massa se dá o contrário: o usuário é que confere significado ao produto através do uso, de tal maneira que um mesmo objeto pode estar em milhares de lares e ser enriquecido pelo seu significado de uso econômico.”

A ESDI foi instalada em dois velhos pardieiros da Lapa, no Rio de Janeiro

O exame de seleção consiste de provas de português, inglês ou francês, teste de nível cultural, prova especial de aptidão e, finalmente, uma entrevista informal com a equipe de professores. Segundo a direção da escola, “o que está em jogo nesses exames é descobrir o sentido que os alunos têm das coisas e não sua habilidade em desenhar ou executar qualquer outro trabalho manual”. A entrevista final, por sua vez, “pretende descobrir o tipo de aluno que vai unir a forma com a função”. A ESDI dispõe de um Instituto de Pesquisa, que pretende atender a qualquer empresa privada ou governamental — e que já mereceu a atenção do Ministério das Relações Exteriores, que o procurou para projetar seus objetos de escritório. A escola se localiza na parte velha do Rio de Janeiro, perto dos Arcos, na Lapa, tendo sido instalada em antigos pardieiros recuperados por Maurício Roberto.