Aloisio Magalhães, um estrategista da cultura

2002

UT Libraries 2008

Nossa América

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Os vinte anos da morte de Aloisio Magalhães, um dos mais importantes designers brasileiros e defensor de uma política cultural, é lembrado em artigos de Isaura Botelho e Moacir dos Anjos, diretor do Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães (MAMAM), do Recife. Muita gente não sabe, mas as notas de dinheiro, como o chamado “barão”, que circularam de bolso em bolso por todo Brasil, de 1970 a 1982, foram desenhadas por Aloisio Magalhães.

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HOMENAGEM ISAURA BOTELHO

Aloisio Magalhães, um articulador

Os vinte anos que se passaram da morte de Aloisio Magalhães só fizeram reforçar o papel que ele teve na política cultural brasileira: o grande estrategista que soube articular politicamente o setor, lhe dar visibilidade, inclusive na mídia, que soube estruturar/reestruturar a área federal de maneira a refazer os elos com o projeto de Gustavo Capanema.

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Os cartemas de Aloisio Magalhães trazem o traço do designer inventivo. O sucesso dos projetos está ligado ao carisma de Aloisio. Por isso mesmo, qualquer discussão sobre a política cultural e o redesenho institucional, não só do final dos anos 70 e início dos 80, como também de hoje, passa obrigatoriamente pela figura de Aloisio Magalhães e de suas características pessoais. Estas características foram decisivas para o sucesso e o prestígio de sua gestão à frente da Secretaria da Cultura (SEC), criada a partir da transformação da então existente Secretaria de Assuntos Culturais em Secretaria da Cultura, em 10/4/1981, na gestão do Ministro da Educação e Cultura, o General Rubem Ludwig. Vemos também, hoje, a atualidade do intenso debate que ele instalou entre as instituições que compunham o sistema federal de cultura naquele momento. Vejamos rapidamente o percurso de Aloisio na área da gestão pública, pois este sinaliza os encaminhamentos que ele veio dar à política cultural da SEC. Seu percurso começa com a criação do Centro Nacional de Referência Cultural – CNRC -, grupo de trabalho criado no âmbito do Ministério da Indústria e do Comércio, em 1975, em convênio com o Governo do Distrito Federal, em espaço cedido pela Universidade de Brasília.

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Como admirador da cultura brasileira, ele sempre lutou para que as riquezas históricas do País fossem preservadas, e não apenas de suas instituições culturais. Essa seria a maneira adequada, não só de conscientização do fenômeno, como também garantiria a continuidade das ações, cada vez mais as desvinculando de pessoas na razão direta de um maior comprometimento de órgãos. Além disso, à diversificação de áreas envolvidas corresponderia uma fundamental diversificação de fontes de recursos, questão básica para a sobrevivência de qualquer projeto. Ao mesmo tempo, esse papel de articulador das diversas esferas administrativas reforçava politicamente a presença da Secretaria da Cultura.

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Em vez de focalizar a produção artística ele priorizou o universo cultural

Outro aspecto é marcante na figura de Aloisio Magalhães: sua habilidade política se expressava não só na sua capacidade de articulação com as mais diferentes escalas de poder, como também na clareza da indispensável necessidade de projetar as questões brasileiras na esfera internacional. Seja inscrevendo bens culturais brasileiros no patrimônio mundial – como Ouro Preto e Olinda -, seja arrematando documentos dos Autos da Inconfidência Mineira em leilão da Sotheby’s, em Londres, em abril de 1980, ou comprando as partituras de música barroca mineira que estavam no Uruguai com o Professor Francisco Curt Lange. Ou seja, por meio da projeção no exterior, ele conseguiria o reconhecimento interno. Para isso, Aloisio sabia que o apoio dos meios de comunicação de massa era fundamental. Isto foi básico, não só do ponto de vista de reforço interno da área cultural dentro do sistema governamental, como também foi instrumento de valorização de ações-exemplo, na medida em que foram amplamente divulgadas em âmbito nacional. Cada uma dessas ações dependia desta associação com a mídia para realizar o ‘componente didático-conscientizador’ da política cultural defendida por ele. Nas mais diversas circunstâncias, Aloisio Magalhães, coerentemente com seu perfil de designer, era um talentoso criador de emblemas com os quais “carimbava” suas ideias e sua ação política, ação esta feita de grandes gestos, em que ficava clara a consciência do espetáculo e do seu rendimento na mídia. A questão patrimonial foi indiscutivelmente a mais elaborada por Aloisio Magalhães, apesar de sua trajetória de artista plástico e designer. A produção cultural contemporânea e os inúmeros problemas que vão se associando à cadeia ‘produção, circulação e consumo’, pouca atenção tiveram em suas inúmeras intervenções ou entrevistas. Do ponto de vista da gestão da própria Secretaria da Cultura, esse desinteresse se manifestava claramente imputando a pecha de elitismo à instituição que cuidava da maior parte desse segmento, que era a Fundação Nacional de Arte (FUNARTE). Na prática, a política de Aloisio Magalhães elegeu o universo do sócio-cultural – na sua opção pelo conceito antropológico de cultura – como prioridade, relegando o da produção artística a um espaço secundário. Não por acaso isto acontece exatamente com o setor que é, potencialmente, produtor de transgressão e, portanto, vítima da ação censorial por parte dos regimes autoritários. Além disso, sabemos que a arte tem poder de intervenção mais imediata e de maior repercussão do que qualquer outro no âmbito das comunidades, que dependem muito mais da reorganização das estruturas sociais e da distribuição de recursos econômicos do que de políticas especificamente culturais. Em outras palavras, por trás de um discurso altamente politizado em favor das populações carentes e marginalizadas – e tendo clareza de que a área cultural sozinha não poderia dar conta de seus problemas – sua política jogou sutilmente,  para o campo secundário, o setor mais politizado e ‘perigoso’, em nome de uma política democrática e socialmente comprometida. Desta forma ele evitou problemas maiores com o regime e fortaleceu sua posição política no governo. O documento que expressa a política cultural do período e que foi “elaborado” pelo conjunto de técnicos das instituições – onde a área da produção cultural representava cerca de 15% dos 150 técnicos reunidos em Brasília – focaliza rapidamente o fluxo criador contemporâneo, por insistência e exigência de Mário Brockmann Machado, então Diretor-Executivo da Funarte.

O referido documento considerava como evidente «… a necessidade de serem considerados na política de desenvolvimento sócio-econômico os indicadores culturais, sobretudo aqueles identificados no fazer popular».

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Debruçado ás margens do Rio Capibaribe, no Recife, o Museu Aloisio Magalhães, também conhecido como Mamam, abriga uma coleção de arte brasileira.

Ou seja, sua legitimidade só existia na medida em que fosse instrumentalizada, facilitando a alfabetização, a consciência comunitária e a recuperação das maneiras tradicionais de expressão do «fazer brasileiro». A visibilidade que Aloisio Magalhães deu à Secretaria da Cultura do MEC – e para a qual sua intensa presença na mídia foi fundamental -, apesar do curto período de sua gestão, o fizeram reconhecido, na prática, como ministro da cultura. Com relação à criação de um ministério específico, ele achava prematura a ideia, consciente da fragilidade e fragmentação do setor. A Secretaria da Cultura teria antes de amadurecer e se consolidar, e aí, talvez, a questão de um ministério pudesse se colocar. Os fatos posteriores só serviram para confirmar que ele tinha razão. Do meu ponto de vista, a maior qualidade da gestão de Aloisio Magalhães – e prova disso é como seu nome se tornou emblemático para a política cultural do país – foi sua capacidade e desenvoltura em articular ideias, originais ou já em pauta na área da cultura, mas que ele soube utilizar numa difícil costura entre discurso técnico, desenho institucional, neutralização de forças externas e internas ao próprio aparato governamental para a cultura. Ele soube articular com maestria, teórica e politicamente, as propostas matriciais de Mário de Andrade com as da Unesco, que há tempos vinha levantando a bandeira do desenvolvimento cultural como premissa para o desenvolvimento econômico. Se este mesmo discurso continua a servir de retórica àqueles que o sucederam na gestão cultural em nível nacional, nenhum deles lutou tanto para que este fosse, de fato, a política cultural do país.

Aloisio Magalhães foi um criador múltiplo. Pintor, pioneiro do design gráfico e da política cultural no Brasil, foi um administrador incansável na defesa do patrimônio histórico e artístico nacional – traço a traço, em esboços mágicos, desenhou um novo cenário brasileiro.

A Secretaria da Cultura funcionava através de duas subsecretarias: a Subsecretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Sphan – e a de Assuntos Culturais – SEAC -, cada uma delas com suas respectivas fundações, a PróMemória e a Funarte, braços executivos da política da SEAC. A Embrafilme, a Fundação Casa de Rui Barbosa e a Fundação Joaquim Nabuco, por sua especificidade eram subordinadas diretamente ao Secretário da Cultura. Aloisio: a noção de que não pode haver verdadeiro desenvolvimento …

‘O PCH da Seplan foi um programa interministerial criado em 1973, com a finalidade de revitalizar os núcleos históricos em estreita colaboração com a comunidade, formando mão-de-obra especializada e gerando empregos. Temos mais uma vez aqui um importante projeto cultural, realizado fora do âmbito da área da cultura’. Isto já havia ficado claro na maneira como ele havia conduzido a institucionalização do  CNRC. Também Maria Cecília Londres da Fonseca, em tese de doutorado (Construções do passado: concepções sobre a proteção do patrimônio histórico e artístico nacional – Brasil: anos 70-80. UnB. 1994), grande entusiasta de Aloisio Magalhães, reconhece que a novidade de seu discurso não vem

‘Francisco Curt Lange, musícólogo alemão radicado no Uruguai, que se dedicou por muitos anos a pesquisar a música barroca brasileira, constituindo um enorme acervo recolhido nas igrejas brasileiras, principalmente de Minas Gerais. “MAGALHÃES. A. op.cit. p. 20 FALCÃO, J. A política cultural de Aloisio Magalhães.

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HOMENAGEM MOACIR DOS ANJOS

Cartemas, duplicação de uma mesma imagem, foi a proposição estética que Aloisio Magalhães acreditava ser possível a qualquer pessoa e que poderia transformar a arte numa experiência coletiva.

Por não distinguir fronteiras rígidas entre tantas e várias atividades, fez de cada uma delas a extensão das outras, dando curso a um processo de hibridismo e contaminação entre áreas criativas comumente separadas. Foi sua experiência como designer do então novo padrão monetário brasileiro (baseado na duplicação refletida de uma imagem) que o levou, em 1970, a conceber os cartemas. A visualização do efeito obtido pela impressão de muitas notas iguais numa mesma folha o animou a apropriar-se de imagens fotográficas disponíveis como cartões-postais, e a agrupar, de modo ordenado, vários cartões idênticos sobre um suporte de papel rígido. Por meio das combinações possíveis entre essas fotografias, criou obras em que explorava ritmos, composições gráficas e novos significados para imagens já conhecidas. Empenhado em tornar os cartemas uma proposição estética acessível a qualquer pessoa interessada – dessa maneira, seu desejo de fazer da arte uma experiência coletiva -, Aloisio Magalhães divulgou os procedimentos técnicos necessários a sua criação. Aproximava-se, de modo original, de propostas correntes na arte brasileira ao longo da década de 70, as quais buscavam a participação do público na criação de múltiplos (como Nelson Leirner), na ativação do sentido das obras (Lygia Clark) ou mesmo em sua inserção em rotas alternativas de circulação artística (a arte postal, por exemplo). A escolha das imagens utilizadas nos cartemas se ancora, contudo, na subjetividade do olhar de quem os realiza, o qual se deixa atrair por seu valor iconográfico e/ou por relações formais presentes nas fotografias. Funcionando como “célula generatriz” dos cartemas, cada uma das imagens escolhidas já embute, em potência, as possibilidades expressivas do trabalho concluído. Não somente por reiteração cumulativa dos sentidos que toda imagem carrega, mas também pela capacidade de, em contato estreito com outros iguais, os cartões usados criarem estruturas gráficas e cromáticas sugeridas em cada um deles individualmente. Há sempre presente, entretanto, um elemento de surpresa nessas construções: assim como a repetição continuada e próxima de uma imagem pode subverter ou alterar os significados que a unidade (célula) exibia de modo inequívoco, as linhas e cores que atravessam as superfícies dos cartemas por vezes diluem ou subsumem os elementos formais que denotavam as imagens apropriadas pelo artista.

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O mero aproximar-se ou afastar-se das obras, ademais, pode pôr em destaque um aspecto descritivo da imagem impressa ou reduzi-lo a mancha ou traço de uma composição deslocada, por um movimento do corpo, para a fronteira da abstração. É nessa tensão entre o que cada cartão-postal guarda e o reverso que seu avizinhamento com outros cartões idênticos abriga, que reside a eficácia e o interesse do cartema como sistema visual construído. O aspecto lúdico dos cartemas se estende, além disso, aos procedimentos materiais necessários a sua confecção, os quais tão somente requerem o manuseio aplicado de régua, lápis, tesoura e cola, instrumentos próprios a descobertas criativas feitas na infância. Ao utilizar cartões-postais de obras de fotógrafos pertencentes ao cânone artístico para construir a presente série de cartemas (objetos de arte singulares e valorizados como tais), Aloisio Magalhães não somente reitera o “valor de exibição” que essas imagens possuem – por meio de seu acúmulo sobre um suporte único – mas, paradoxalmente, as reinsere no circuito dos artefatos que possuem “valor de culto”.

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Também esses cartemas, porém, podem ser (e efetivamente o são) reproduzidos mecânica ou eletronicamente em catálogos ou transformados eles mesmos em outros cartões-postais, novamente ganhando “valor de exibição” e ampliando, uma vez mais, a circulação de imagens originalmente destinadas à contemplação. E é justo por essa ambiguidade constitutiva que esses cartemas figuram entre os mais interessantes dentre os feitos por Aloisio Magalhães: obras únicas e coleções de objetos de arte reproduzíveis, de autoria singular e também de feitura coletiva, são exemplares da fluidez dos sentidos que as imagens geram no mundo contemporâneo.

Moacir dos Anjos, historiador e crítico de arte, diretor do Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães, Recife.

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