Aloisio

1972

Manchete

  • p. 204

… já lhe havia ocorrido, e a ocasião ali estava. O Brasil era o único país do mundo capaz de ter um dinheiro moderno, de concepção revolucionária: os demais países, ou eram subdesenvolvidos demais e não tinham condição material, ou eram muito desenvolvidos e com irremovíveis tradições e preconceitos em relação ao seu dinheiro. Começou a escrever um longo arrazoado, dirigido a ninguém especificamente, sustentando esta e outras ideias sobre o assunto. Suas opiniões acabaram chegando um dia ao Banco Central, que resolveu abrir uma concorrência, mediante convites individuais. Oito projetos foram submetidos, sendo quatro modernos e quatro conservadores. Aloisio ganhou com o seu, o mais moderno de todos, realmente revolucionário: os requisitos da segurança contra falsificação eram atendidos através de um sistema nunca antes empregado pelos técnicos em impressão. Ele próprio vai me contando sua experiência enquanto almoçamos num pequeno (e excelente) restaurante chinês da Avenida Atlântica. Aprendo um mundo de coisas a respeito de fazer dinheiro (como imprimir, não como ganhar). Chego a retirar do bolso uma cédula e olhá-la atentamente pela primeira vez (o chinês pensa que já estou pedindo a conta). Fico sabendo, por exemplo, que o dólar americano, cédula das mais falsificadas do mundo, usa um sistema de segurança baseado na própria contextura do desenho e bolado há mais de 45 anos. Naquele tempo não era possível fotografar retícula tão fina, mas hoje já é.

Não era um falsário, nem ao menos funcionário da Casa da Moeda. Era o meu amigo Aloisio Magalhães, um artista, um mestre da comunicação visual. Muitos desses desenhos que simbolizam empresas industriais e organizações bancárias são de sua autoria: capas de livros, letreiros, cartazes, logotipos, tudo que possa comunicar-se visualmente já foi objeto de sua imaginação criadora. Há pouco tempo conseguiu introduzir o bom gosto nas comemorações cívicas, bolando o símbolo oficial dos festejos pela Independência: aquele 1972 verde-amarelo que vira 1822, cada algarismo numa espécie de canudo pelo avesso, …

A ideia de melhorar a apresentação do nosso dinheiro baseou o seu na trama de linhas superpostas e de cores diferentes, dando a nuance que der, na formação do “moiré”. Melhor do que isto eu não sei explicar. (Sim, o moarê — aquela fazenda que a mãe da gente comprava no armarinho para fazer vestidos que tiravam reflexos contra a luz, parecendo furtacor.) A ideia é tão engenhosa que os canadenses quiseram tirar patente. Mas não se tira patente de ideia tão simples, que está no ar feito passarinho: é de todo mundo e não é de ninguém. Com sua ideia aprovada, Aloisio se mandou para a Europa, para ver se o projeto era exequível. Na Itália não conseguiu nada: em matéria de improvisação o italiano é páreo para o brasileiro. (Porque, vamos dizer a verdade, só mesmo no Brasil um sujeito ganha uma concorrência dessas com um projeto que só depois vai saber se é possível executar.) Na Inglaterra os ingleses ficaram desconfiados de que ele era meio maluco, mas se dispuseram a cooperar. O problema era saber se os registros da impressão de cada cor iriam coincidir milimetricamente, como exigia a concepção original, e se havia …

Anúncios