Design para o desenvolvimento

1975

Visão – Cultura

  • p. 94

Na Standard Eléctrica o futuro começa hoje.

Num pais que, é defendido também pelo arquiteto J. Katinsky: “Um caminho para o desenho industrial brasileiro seria a absorção da inventividade popular, que se manifesta em objetos de uso corrente, em instrumentos de trabalho, procurando solucionar, em nível local, as carências resultantes de um passado colonial”. Sintomaticamente, a mesma impressão que os produtos amorfos e despersonalizados dos supermercados paulistas causaram ao holandês foi constatada por Josine de Cressonières, diretora do Centro de Design da Bélgica e secretária-geral do Conselho Internacional das Sociedades de Desenho Industrial (ICSID). Encarregada de pesquisar o estado do nosso design pelo Governo paulista, ela concluiu em seu relatório:

Embora 98% dos produtos sejam de fabricação brasileira, muito poucos têm características próprias.

Não atraem, não têm nenhuma personalidade e não vendem seu conteúdo. De fato, os produtos do Brasil parecem totalmente incaracterísticos. Mas essa carência não se deve à falta de bons profissionais. Nas várias bienais de desenho industrial, que houve no Rio, o Brasil sempre apresentou significativas amostragens de bons produtos. Só que eram produtos isolados. Pode-se dizer, portanto, que o país tem designers, mas não tem design, ou seja: conta com profissionais talentosos que precisam, no entanto, de mercado, incentivo oficial e emprego para poderem formar uma profissão. “Deixar de trabalhar no sentido da proliferação irracional de objetos isolados e atuar no sentido de controlar a quantidade e a qualidade do mundo dos objetos”, como aponta Marco Antônio Amaral Rezende, é não apenas um caminho que pode conduzir ao encontro de um estilo próprio, mas um modo de atribuir-se ao desenho industrial uma nova função, na qual o design ganha novo conceito: “uma disciplina de planejamento, para atuação, num contexto sócio-econômico-cultural-político”, diz Lúcio Grinover, “o que envolve o designer nos processos de planejamento do próprio ambiente humano”.

Já existem exemplos importantes, embora pouco numerosos, da atuação do desenho industrial sobre a cidade, como componente do planejamento urbano, como o Sistema de Comunicação Visual e Equipamento Urbano da Avenida Paulista,  em São Paulo, ou o projeto de identidade visual dos equipamentos da Companhia Municipal de Limpeza Urbana, do Rio de Janeiro. São casos de design social, cujo principal mercado é aberto pelos poderes públicos. Embora algumas empresas de médio e grande porte comecem a interessar-se pelo desenho brasileiro, ainda são constantes os exemplos de despersonalização: não temos um estilo para os quase 1 milhão de carros que fabricamos — a não ser algumas raras exceções, como o Brasília, da Volkswagen. Do mesmo modo, os 100 milhões de dólares que exportamos em calçados são quase todos de modelos copiados do estrangeiro. Há também fabricantes nacionais que enviam diretores anualmente à Europa e Estados Unidos, para fotografarem sigilosamente modelos novos, que são depois devolvidos em forma de produtos de exportação.

Esse processo é adotado quase como uma necessidade, e assim justificado pelos fabricantes. Um dos diretores do Instituto Brasileiro do Couro, Calçados e Afins explicou a Visão: “Se a cópia existe, é que não podemos fugir dela. Como está atuando num mercado altamente competitivo, o fabricante brasileiro tem procurado não apenas copiar essa modelagem, como igualmente adaptá-la ao gosto dos importadores”. A criação da nova assessoria de desenho industrial no quadro do Ministério da Indústria e do Comércio é a providência mais objetiva e concreta já tomada em favor do design brasileiro, mas a atuação do grupo repousa sobre um planejamento mais antigo, efetuado pelo ex-secretário de Tecnologia Industrial do MIC, Luiz Corrêa da Silva.

Embora todas as principais iniciativas tenham partido dos poderes públicos, até agora, pode-se dizer que o desenho industrial não depende apenas do impulso do Governo. É preciso que a indústria acredite nele e o assuma. Nos seus quase oito meses de funcionamento, a assessoria de desenho industrial da Secretaria de Tecnologia Industrial do Ministério da Indústria e do Comércio não chegou a produzir uma revolução visível, mas o trabalho que vem desenvolvendo, discretamente, é o primeiro passo oficial no sentido de transformar o desenho industrial em instrumento poderoso do nosso desenvolvimento econômico e cultural. Isso é o que esperam, principalmente, os profissionais que ali trabalham, como os dois que deram esta entrevista a Visão. Diva Maria Gonçalves Araújo e Luiz Blank pertencem à quinta e sexta gerações de designer formados pela Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI), do Rio de Janeiro.

VISÃO — Por que o Brasil ainda é um pais tão mal desenhado?

Diva — Por razões estruturais, o empresário brasileiro quase sempre tem que adaptar produtos importados, fabricados para outro meio cultural, outra economia, outras necessidades. Essa adaptação ocorre, aqui, sempre às pressas, enfrentando problemas de mercado, de mão-de-obra, e para atender a uma determinada faixa de consumidor.

Luiz — Na verdade, o Brasil ainda não foi desenhado. Ele está começando a ser de uns dez anos para cá. O nosso processo industrial, como o cultural, tem toda uma história de importação. Agora, por uma série de razões também históricas, está surgindo uma necessidade colocada pelo mercado: o produto precisa ser brasileiro, até mesmo por uma questão de balanço de pagamentos.

Anúncios