Madeira-Mamoré, a legenda rediviva

1981

Cultura

Patrimônio

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RECOMENDAÇÕES

Roberto Moreira

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O Ministério da Educação e Cultura e o governo do Território Federal de Rondônia fazem renascer os apitos, caldeiras e trilhos da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.

Em 1979, as chuvas foram especialmente violentas em Minas Gerais e afetaram, entre outras coisas, a cidade de Ouro Preto. Em consequência disto, alguém que passasse, naqueles dias, pela Vila de São José, naquela cidade, veria o intenso movimento de enormes máquinas empenhadas nos trabalhos de consolidação das encostas que ameaçavam parte da cidade. Essa pessoa, se dotada de curiosidade, talvez se surpreendesse ao ler, na placa indicativa das obras, a responsabilidade do Ministério da Educação e Cultura, embora outros órgãos mais afins, como o DER— MG, estivessem também participando. À primeira vista poderia parecer estranho que um ministério dedicado à educação e à cultura estivesse realizando tarefas daquele tipo. Porém, para o órgão do MEC ali envolvido — o então Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) – tudo era muito coerente com a nova política adotada, política esta informada por um amplo conceito do que vem a ser “bem cultural” e de como ele deve ser protegido. O exemplo, aliás, não é único; outros poderiam ser buscados na preservação da tecnologia dos imigrantes, através do Museu ao Ar Livre de Orleans, em Santa Catarina, ou na tentativa de se compreender a fundo a cultura multidisciplinar do caju, ou ainda no artesanato de reaproveitamento do lixo industrial.

Na verdade, trata-se de novas diretrizes que vieram a se agregar ao trabalho do respeitável serviço brasileiro de proteção ao patrimônio histórico e artístico, através das contribuições aportadas pelo Centro Nacional de Referência Cultural (CNRC) e pelo Programa de Cidades Históricas (PCH), que, todos unidos, resultaram na Fundação Nacional próMemória, hoje parte da Secretaria da Cultura do MEC (SEC). Diante disto, não há por que se espantar se foi através do Ministério da Educação e Cultura, juntamente com o governo do Território Federal de Rondônia, que os apitos, caldeiras e trilhos da legendária Estrada de Ferro Madeira-Mamoré voltaram a funcionar. Trazida para o Brasil em 1878, no ano seguinte a locomotiva “Coronel Church” inaugurava 6 quilômetros da Madeira-Mamoré.

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… 1972, quando então ela foi totalmente desativada, 41 anos depois de sua nacionalização, e aos 60 de existência.

Talvez tenha sido um erro considerar a Madeira-Mamoré apenas uma ferrovia deficitária. Além de ter sido o elemento básico de colonização da região, ela se integrara plenamente aos costumes e ao atendimento das necessidades da população que se fixara ao longo de seus trilhos.

O SEMINÁRIO

O peso histórico de todo esse passado heróico e legendário e a importância cultural da ferrovia para a população de Rondônia fizeram com que, após a suspensão da licitação que destruiria de vez com o que dela restou, a Fundação Nacional próMemória se empenhasse em seu estudo. Assim, após a fase de recolhimento de documentação, preparou-se um seminário que reunisse os diversos segmentos interessados no assunto, especialmente a população rondoniense, para se discutir os destinos da ferrovia e de seu patrimônio. O Seminário Madeira-Mamoré foi realizado de 26 a 29 de novembro de 1980, na cidade de Porto Velho, numa promoção conjunta da então Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional do MEC, através da próMemória, em conjunto com o governo do Território Federal de Rondônia, então empenhado também em reativar um trecho da ferrovia.

Estiveram presentes ainda representantes de entidades de classe locais, organismos do governo do Território, as prefeituras municipais de Porto Velho e de Guajará-Mirim, administrações de localidades ao longo da ferrovia, o 5º Batalhão de Engenharia e Construção do Exército, além de técnicos do CNDU, do GEIPOT, da SUDECO, da então Secretaria de Assuntos Culturais do MEC, da Rede Ferroviária Federal e da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária.

A reativação da Madeira-Mamoré foi a grande reivindicação dos participantes do seminário, cujo documento oficial, aprovado na última sessão plenária, dizia: “A proteção, a recuperação e a utilização da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré deverão constituir-se num processo, reunindo todo um conjunto de ações de curto, médio e longo alcance, buscando sua reintegração objetiva e ampla ao espaço físico-geográfico, econômico-social e histórico-cultural, no contexto da sua área de influência, inclusive a nível da vizinha República da Bolívia”. O documento considerou que “Rondônia deve sua existência à ferrovia que, durante 60 anos, foi o esteio do desenvolvimento da região” e que “representa também um legado histórico, social e cultural de incomensurável valor para a região e a nação”.

O trabalho árduo na reabertura da estrada.

Diante disto, sua principal recomendação foi a “reativação completa da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré de Porto Velho a Guajará-Mirim, dentro de um plano regional integrado que vise favorecer a promoção do homem, iniciando-se pela imediata reconstrução do trecho Porto Velho ao quilômetro 25 com ramal até o Salto do Teotônio, e o trecho …

José Leme Galvão

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Na estação de Porto Velho, a festa no reencontro dos apitos e chaminés com as águas do rio Madeira, ao fundo. Na página ao lado, a “Coronel Church” deixa o 5º BEC rumo ao Museu Rondon, e os ferroviários elegem o companheiro Juventino. 

… ser utilizada como transporte urbano e interurbano para a população”.

Ao lado da recomendação principal, o documento prescrevia ainda diversas medidas de proteção e preservação do patrimônio da Madeira-Mamoré, “que são de caráter urgente, realizáveis a curto prazo e com baixo custo”, tais como inventário geral dos bens, reintegração dos bens que estão em poder de terceiros, recolhimento sistemático de documentação e fontes de pesquisa e a proposição de planos alternativos de uso, em caráter provisório, das instalações da ferrovia para atividades culturais e recreativas. O seminário preocupou-se também em recomendar a utilização dos dispositivos legais que cuidam da proteção às áreas de interesse turístico, cultural e paisagístico, além de promover o tombamento dos bens móveis e imóveis de interesse cultural, nos três níveis de governo.

… com a finalidade de elaborar um programa de trabalho que implemente as recomendações, articulando os organismos direta ou indiretamente envolvidos, bem como a comunidade, e indicando os meios necessários à execução das medidas propostas”. Por fim, entre as moções aprovadas pelo seminário, consta o apoio à constituição de uma Associação dos ex-Ferroviários e Amigos da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, que, na época, estava sendo articulada em Porto Velho. Uma amostra do trabalho da próMemória de recolher a documentação sobre a Madeira-Mamoré foi realizada durante o seminário, através de uma exposição de fotografias selecionadas entre 426 que a próMemória conseguiu recuperar das quase duas mil fotos tiradas, de 1907 a 1912, pelo fotógrafo norte-americano Dana B. Merrill, que documentou, para a empresa construtora, a edificação da ferrovia. Equipado com uma rudimentar máquina da época e ainda utilizando-se de negativos de vidro, Merrill conseguiu um excelente trabalho de documentação fonográfica. Dotado de extraordinária sensibilidade, ele registrou a construção da ferrovia, as condições de trabalho dos operários, os tipos físicos das diversas nacionalidades, as construções feitas para os diversos fins, e assim por diante, o que faz deste conjunto de fotos uma preciosidade, quer em termos documentais, quer pela sua qualidade.

Assim é que, às 8h45min do dia 5 de maio deste ano, a locomotiva número 15, fabricada nos Estados Unidos, em 1941, estacionou no pátio da velha estação da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, em Porto Velho, depois de rodar os oito quilômetros que separam a capital da localidade de Santo Antônio. Já às primeiras horas da manhã daquele dia era grande o movimento na estação, às margens do rio Madeira. Centenas de pessoas, emocionadas, assistiram à reativação da ferrovia, simbolizada na primeira viagem que transportou autoridades, convidados, ex-ferroviários e seus familiares. Após a viagem de meia hora, ao longo do rio, entre carcaças de locomotivas e vagões abandonados desde 1972, a velha 15 estacionou sob os aplausos dos presentes e o espocar de foguetes, toques de sinos e apitos de trem. Assim, para …

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A banda da Polícia Militar tocou o Hino nacional e um ex-ferroviário hasteou a Bandeira Brasileira. No palanque, armado ao lado da estação, o Governador de Rondônia, Jorge Teixeria, presenteou algumas autoridades com pequenos pedaços de trilhos de 1907, montados sob a forma de uma espécie de troféu, e os alunos das escolas do Território presentearam o governador com um poster da locomotiva e uma medalha de agradecimento pelo empenho em recuperar a ferrovia. Em seguida, concretizou-se outra das importantes medidas sugeridas pelo seminário: foi apresentado o Grupo de Coordenação Técnica para a Restauração do Patrimônio da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. O grupo é composto de representantes das seguintes instituições: Secretaria da Cultura do MEC, através da próMemória, governo do Território Federal de Rondônia, prefeituras de Porto Velho e Guajará-Mirim, Superintendência de Desenvolvimento do Centro-Oeste, Instituto dos Arquitetos do Brasil — Seção Rondônia, Instituto Histórico e Geográfico de Rondônia, Ministério dos Transportes e um representante dos ferroviários. Após a apresentação do grupo técnico, o Secretário da Cultura do MEC, professor Aloisio Magalhães, e o Governador Jorge Teixeira assinaram um convênio que visa a recuperação, preservação e utilização dos bens culturais situados no Território de Rondônia, com ênfase na Estrada de Ferro e no Forte Príncipe da Beira, construído pelos portugueses na fronteira com a Bolívia, em princípios do século XVIII. Em seguida, o governador descerrou a placa comemorativa da reativação da estrada e inaugurou o Museu Rondon, montado em um dos galpões da estação de Porto Velho, reunindo grande número de peças ferroviárias, inclusive a “Coronel Church”.

Depois, recuperada, participou do funcionamento da ferrovia, já neste século e, após a desativação em 1972, permanecia nas dependências do 5º Batalhão de Engenharia e Construção do Exército, de onde foi levada agora para o Museu.

Assim falou Aloisio Magalhães, em seu discurso, lembrando o papel desempenhado pelo Marechal Rondon para o desenvolvimento da região e para sua integração ao País. No dia anterior, se vivo, Rondon estaria completando 116 anos. O Secretário da Cultura do MEC ressaltou ainda a bravura dos que construíram a estrada de ferro, lembrando o sofrimento e o sacrifício de tantos para que ela se tomasse realidade. Disse ainda da importância da reativação da Madeira-Mamoré para o patrimônio cultural brasileiro e agradeceu ao Governador Jorge Teixeira pelo seu empenho na recuperação. Por fim, dedicou a reabertura da ferrovia à comunidade de Rondônia, José Leme Galvão Roberto Castelo pelo seu esforço na luta pela sua recuperação.

Por sua vez, o governador reafirmou seu compromisso em levar adiante a recuperação total da estrada e anunciou a chegada de uma máquina de Tubarão (SC), para auxiliar nos trabalhos. Agora, disse ainda, o governo do Território vai empenhar-se na recuperação do segundo trecho, de Santo Antônio até Abunã. Jorge Teixeira lembrou também o esforço daqueles que, no passado, construíram a estrada e os ex-ferroviários, cuja participação hoje foi decisiva para a sua reativação. Pediu ainda a continuação dos esforços conjuntos entre o governo e a comunidade para a recuperação total da estrada. As festividades foram encerradas com a exibição de um documentário sobre Rondônia e de um outro filme, realizado em 1962 sobre a estrada de ferro, cuja cópia foi doada ao governo do Território pela Fundação Nacional próMemória.

O PROJETO CONTINUA

Passados os momentos de emoção e júbilo, os trabalhos de recuperação da memória histórica da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré continuam. Está-se providenciando o inventário dos bens móveis e imóveis, a fim de que se possa fazer os tombamentos necessários à sua urgente proteção. E, neste momento, uma equipe do Programa de Comunicação da Fundação Nacional próMemória encontra-se em Rondônia produzindo material documentário em vídeo-teipe, a ser exibido em circuito aberto pela rede de televisão da Amazônia e também em circuitos fechados para a rede escolar do Território, uma vez que a divulgação em geral e a interação com o aparelho educacional, em particular, são também recomendações do seminário, com vistas à preservação da memória daquela que, um dia, recebeu o nome de “Ferrovia do Diabo”.

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