Uma Semente no Recife

P. M. Bardi

1986

UT Libraries 2008

Senhor

  • p. 68

O papel dos museus nas invenções culturais

Foi um prazer ir ao Recife há alguns dias para abraçar Gilberto Freyre e participar de um debate, na Fundação Joaquim Nabuco, dedicado a museus, abordando o Museu de Arte de São Paulo e sua ação pouco canônica, pois em 40 anos os desvios e as viradas na tradicional entidade paulista foram numerosos e nem todos aprovados. Tive ocasião de visitar e fazer elogios ao “Museu do Homem do Nordeste” da própria Fundação, uma resenha completa e abrangente da epopéia que se concentrou em Pernambuco ao longo dos séculos coloniais e depois, do Reinado até a Abolição, da qual Joaquim Nabuco foi um dos batalhadores. 

Naquele museu cada visitante se informa sobre o que, há quase 20 anos, no Masp, tentamos mostrar em síntese, na exposição “A mão do Povo Brasileiro”: dar evidência à capacidade e à genialidade do homem que no campo, patrão, colono, bóia-fria ou escravo criou na complicada empresa de formar uma nação. No Recife minha antiga iniciativa magnificamente estruturada, através de informações técnicas, familiares, até íntimas, trazendo da História as provas mais evidentes, sem nada deixar de fora, cada fato mostrado através do braço e da inteligência inventiva, própria de quem deve resolver problemas existenciais. Instrumentos da lavoura: consequência de reflexão e de bom senso; ver certos arados primitivos de madeira leva a pensar numa tecnologia primária industriosa e eficiente, dando ao caipira extraordinário merecimento. Particular emoção se sente na saga do açúcar: maquinários, meio de transporte, habitações, aparecem ao lado do trabalhador junto com a participação religiosa, o cotidiano, o lazer: uma série de objetos que, além do sabor etnográfico, valem como relíquias. A cada século, começando naturalmente pelos donos da terra, membros de uma civilização que costumamos chamar pré-colombiana, até os primeiros desembarcados, a História é ali contada passo a passo, desde a Senzala até a Casa Grande, estando presentes as páginas de Gilberto Freyre. O debate acima citado teve o velho mestre, codificador da nossa antropologia, a presidí-lo: sua palavra constantemente precisa nas definições, o senso de um humanismo cordial, caseiro: um olho na ciência, outro na vida. Tratou de museus, de posições nordestinas e paulistas, evocando nosso sempre amado Assis Chateaubriand. Na minha apresentação, naturalmente, associei o fundador do Masp à realidade da Fundação Joaquim Nabuco, provocando vários depoimentos sobre a atualidade daquele importante centro de estudos. Me parece que os
debatedores foram unânimes …

INL caso de museus de arte, o interesse pelo Masp foi intenso, e alguém notou que as programações da entidade paulista, em vários setores, foram antecipadoras. De fato, fomos o primeiro museu a instituir escolas, algumas inexistentes no Brasil, como a de Design e a de Propaganda, além de desfiles de moda que apresentamos em 1950 etc. Foram duas horas de debates, incluindo problemas de restauro, sendo lembrado o nome de Deoclécio Redig de Campos, o brasileiro ex-diretor dos Museus do Vaticano. Estava presente também o abade superior da Ordem dos Beneditinos sabendo que eu fora escolhido, em
1978, para a reconstituição da imagem de Nossa Senhora Aparecida, complicado restauro levado a termo pela chefe de conservação do Masp, Maria Helena Chartuni. Após o debate fui levado pelo beneditino para visitar o seu mosteiro, em Olinda,  para examinar um antigo painel italiano, o qual será restaurado no Masp. Eis a que pode levar um debate positivo de um paulista no Recife. Seria o caso de falar, o que talvez faça no futuro, do quarto centenário da chegada dos beneditinos em Olinda, tema de uma monografia a ser editada pela Sanbra da qual serei o prefaciador.

Giugiaro diante de uma de suas obras de arte: “Ousadia, Brasil!”

… do mestre. O design brasileiro ainda não atingiu a pré-história, ao menos no que diz respeito à área de transportes. Esta afirmação, que deve ferir os brios nacionalistas daqueles que insistem em provar o contrário; do estilista italiano Giorgelto Giugiaro, considerado o principal designer da atualidade. Giugiaro esteve em São Paulo, na semana passada para fazer uma série de …