O desenho desprezado

Visão, 12, vol. 37, 1970.

fonte: UVª Library 2010

Vida Moderna

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Todos os objetos que formam o universo material do homem moderno são — ou deveriam ser — produtos do “design”. É uma atividade que torna as coisas econômicas, práticas e eficientes. Dá lucro e prestígio a empresas e países.

Para quem consome, facilita a vida e a torna mais cômoda. Mas, no Brasil, “design” não tem tradição nem tradução. E o chamado “desenho industrial” é tratado pelos próprios industriais com solene desprezo.  As consequências disto são desastrosas. Em meados da década de 50, os japonêses descobriram que quase todos os seus produtos eram cópia de similares estrangeiros. Estarrecidos com o alcance de sua desenfreada pirataria industrial, resolveram fazer uma exposição de autocrítica — a “Exposição da Vergonha”. Tamanho foi o choque causado pela evidência concreta da apropriação indébita, que o hábito acabou e em seu lugar começou a se desenvolver um design japonês próprio. Em 1968, os alunos da Escola Superior de Desenho Industrial da Guanabara pesquisaram as condições do design na indústria brasileira. Com os resultados, montaram um pavilhão-denúncia à japonesa. E puseram uma legenda, resumindo tudo: “Copiamos hoje o que antes importávamos”. Mas, ao contrário do que aconteceu no Japão, a denúncia não levou a nada. “Nada” foi a palavra empregada por  técnicos do Governo ao alarem do que teria sido feito para criar um design brasileiro. Os macâtes do atraso. Se improvisar custa barato e copiar menos ainda, por que o industrial irá contratar um especialista em design — considerado, de resto,’ apenas um embelezador de formas — se pode recorrer a qualquer um, não-especializado, ou fazer uma viagem ao estrangeiro e trazer na bagagem algumas “ideias novas” — ou, ainda, pagar royalties a tal ou qual país?

Primeiro, a cópia ou as “adaptações” nem sempre se ajustam às condições da empresa nacional e, menos ainda, às expectativas do consumidor, a quem a publicidade ensina a se tornar mais exigente. Segundo, para vender lá fora, a cópia traz todas as desvantagens e nenhum benefício.

Trouxe economia de dinheiro e possibilidade de maiores lucros, pois um carro projetado aqui mesmo, feito por pessoas que aqui vivem e conhecem os gostos e desejos do comprador, tem mais facilidade de penetração no mercado”.

José Serber, da Escriba (móveis), concorda: “O projeto estrangeiro, à primeira vista, é mais cômodo, pois vem mastigado. Mas, na verdade, não compensa. O nosso produto ganhou em termos econômicos, de produtividade e de funcionalidade, ao ser projetado de acordo com as condições reais da empresa, do país e do consumidor”.

Só impressão.

A II Bienal Internacional de Desenho Industrial no Museu de Arte Moderna do Rio até fins de janeiro e depois em São Paulo — parece ser o indício de que algo está mudando.

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Nove entidades a patrocinam, entre as quais a Confederação Nacional da Indústria e três ministérios: Indústria e Comércio, Relações Exteriores e Transportes. No MAM estão expostos, além dos trabalhos de dez profissionais brasileiros convidados, cerca de mil produtos dos quatro países da Escandinávia, cujo design tem prestígio e fama em todo o mundo.

A presença dos países escandinavos numa mostra sem nenhum objetivo comercial é suficiente para dar a impressão lá fora de que o Brasil é o país do design, quando, na verdade, nesse campo é muito mais o país do quando-um-quer-tudo-se-faz. “Seria muito bom que estivéssemos em condição de mandar desenhos brasileiros para o resto do mundo, mas nós não podemos mandar desenho brasileiro nem para o Brasil”, diz o designer Lívio Levi. “Ainda não temos um mecanismo de incentivos à criação de novos modelos industriais. Sabemos que existem firmas que contratam seu designer, investem recursos financeiros, desenvolvem um certo produto para, depois, um industrial concorrente tomar seu modelo, fazer pequenas modificações, sem ter passado por toda aquela fase de pesquisa.”

Mudar Situações.

No Brasil, não só a profissão de desenhista industrial não existe, como se faz a maior confusão em torno do nome. Design significa plano, projeto, construção, criação. Ao se traduzir o termo para o português, lançou-se mão, na falta de equivalente, da expressão desenhista industrial, o que levou a confundir essa profissão com outra mais antiga, a do desenhista técnico, com que nada tem a ver.

O desenhista industrial não desenha: planeja e projeta. A identificação e caracterização de suas funções estão mais no processo do que no resultado, embora o processo determine quase sempre a solução.

O Professor Karl Heinz Bergmiller, alemão radicado no Brasil, foi um dos melhores alunos da excelente Hochschule fur Gestaltung, de Ulm, Alemanha. Profissional de prestígio internacional (um de seus projetos, uma cadeira, foi adquirido pelo acervo de Desenho Industrial do Museu de Arte Moderna de Nova York), Bergmiller considera o design como um comportamento ativo e consciente que orienta a modificação de situações, desde que a consequência desse comportamento possa ser prevista e calculada. “O design abrange um vasto campo de atividades: um engenheiro, um dirigente de empresa, são designers; a Suécia, Noruega, Dinamarca e Finlândia constituem a representação estrangeira à II Bienal Internacional do Rio de Janeiro.

A parte nacional da exposição inclui trabalhos de Aloisio Magalhães, Goebel Weyne, Karl Heinz Bergmiller, Roberto Verchleisser, João C. Cauduro, Ludovico Martino, Fernando Lemos, Alexandre Wollner, Livio Levi, Lúcio Grlnover e Michel Arnoult.

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Os incompreendidos

Apesar de arquiteto, Maurício Roberto sempre esteve ligado também às iniciativas pioneiras no campo do desenho industrial: foi o primeiro diretor da ESDI, que ajudou a implantar, e, como diretor-executivo do MAM, fundou em 1968 o Instituto de Desenho Industrial.

“Como técnico, sempre soube, pela experiência, que as soluções técnicas são as mais econômicas; como empresário, sei que é vital a racionalização da produção; e, como arquiteto, detesto os formalismos e me preocupo com a economia e a funcionalidade. Portanto, não foi difícil descobrir a importância do design e lutar pela sua implantação no Brasil.”

“O dia em que o empresário brasileiro descobrir que o desenho industrial é, antes de tudo, racionalidade e economia, alguns dos problemas fundamentais da nossa indústria começarão a ser resolvidos” Os planos de Maurício Roberto são amplos e ambiciosos. Além do contato com organizações internacionais similares, da exposição permanente de produtos brasileiros,do departamento de documentação, o IDI desenvolverá projetos, pesquisas, planejamento de sistemas de produtos e dos meios de comunicação visual para entidades oficiais ou organizações privadas.

Estabelecerá também um estreito contato com os designers, que serão solicitados a participar em projetos como: equipamento de transporte coletivo, equipamento para parques e jardins, equipamento escolar,  luminárias de praças, normas ergonômicas, sinalização de metrô, sistemas de sinais, placas indicativas urbanas, imagem de eventos públicos (festivais, congressos, etc). “E Isso sem falar no nosso Design Center que, entre outros serviços à indústria e à profissão, estimulará os bons produtos e orientará o consumidor, através dos certificados de boa forma.”

Alexandre Wollner

Presidente insatisfeito

Alexandre Wollner é o atual presidente da ABDI (Associação Brasileira de Desenho Industrial), que tem como intenção divulgar a profissão junto aos empresários e agregar e catalogar os designers e trabalhos para referências. Um dos raros brasileiros a se diplomar pela Escola de Ulm, profissional pioneiro no Brasil (sua programação visual para a Equipesca começou a ser feita em 1957), Wollner acha que a ABDI não cumpriu a sua função.

“Encontramos a ABDI totalmente desorganizada. Há entre os associados grande número de amadores que gostam da profissão, mas não a exercem ou só a exercem quando solicitados esporadicamente. Esses profissionais, a maioria, não tem interesse, pelo menos momentâneo, de informar ou cooperar na difusão da profissão; estão de molho esperando para ver o que acontece.” Wollner pretende agora fazer com que a ABDI penetre agressivamente na área do empresariado brasileiro: “O industrial precisa saber que não queremos só pedir colaboração; também nós temos uma grande colaboração a dar.

Pois o desenho industrial é uma necessidade de um país de baixa produtividade e não a sua degenerescência, o estilismo, que visa primordialmente a uma classe privilegiada, acarretando com isso linhas pequenas de produção, sempre modificadas, o que se torna oneroso ao país, além de excluir uma grande parte da classe de poder aquisitivo médio. O Brasil não tem produção suficiente para essa constante renovação de linhas e as indústrias que assim agem adotam uma política de curto prazo, quando deveriam corresponder a uma realidade econômica nacional.”

O belo econômico

Nada irrita mas um designer do que ouvir que o produto projetado por ele é “muito bonito”. Isto porque a beleza, para ele, não é um fim. mas uma consequência da função do produto, que só será bonito se funcionar. O designer não busca a beleza como o artista e nem pensa o objeto como um inventor. Ele pensa um problema. Uma situação-problema lhe é dada, e ele, através de métodos racionais e científicos que nada tem a ver com o seu gosto e preferências estéticas, chega à solução racional. E nunca através de um “estalo” que o assaltou num momento de inspiração.

O objeto é o resultado de uma equação em que estão envolvidos vários fatores: econômico, funcional, de produção, de utilidade, etc. A resposta correta a essas questões objetivas vai produzir um objeto adequado a suas funções. E, ao ser funcional, ele carregará consigo beleza; não uma beleza aplicada, mas implicada no próprio produto. O Volkswagen é um carro “feio”, segundo os padrões artísticos tradicionais de beleza, mas um belo carro do ponto de vista do design, porque cumpre suas funções. Uma faca de mesa bem desenhada terá sempre a lâmina maior do que o cabo, ao contrário dos modelos antigos, mas não por uma opção estética e sim porque essa nova relação foi determinada por medições ergonômicas (desempenho dos músculos, posição dos dedos, esforço exigido, etc.) no sentido de obter maior rendimento, menor esforço, mais comodidade. Os móveis bem desenhados para uma produção em série são, do ponto de vista do consumidor, mais bonitos, práticos e funcionais: são simples, podem ser desmontados e têm grande resistência. Mas, antes de apresentarem essas razões visíveis, representam, para o produtor, economia, vantagem na competição e facilidade na distribuição, porque são feitos segundo um sistema de peças componíveis. Isso possibilita estoque de matéria-prima, fabricação em massa das peças, fácil empilhamento (não mais os enormes depósitos, mas prateleiras onde são guardados os componentes a serem montados), transporte mais barato (o preço é por metro cúbico e não por peso) e outras vantagens que podem ser resumidas numa palavra: economia. Da mesma maneira, um martelo bem projetado vai ser mais “bonito”, mas o que interessa é o resultado que hoje já pode ser medido por análises ergonômicas de manejo: ele vai pregar mais pregos do que o antigo e cansar menos quem o utiliza.

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