Visão Moderna

1967

UT Libraries 2008

Visão – vol. 31

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Mas a precariedade de informações não chega a esconder o triste quadro do nosso ensino técnico: entre os países que apresentam a menor porcentagem de pessoal de nível superior em relação à força de trabalho total, o Brasil situa-se com 0,9%, abaixo da Colômbia (1,9%) e do México (1,4%). Enquanto isso ocorre, as poucas instituições de ensino de nível superior técnico não são ampliadas. Numerosas carreiras técnicas comuns nos países desenvolvidos não são sequer objeto de curso especial dentro de nosso sistema educacional. Quais os núcleos de formação específica de cientistas? O ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), os departamentos de Física de duas ou três universidades, Diretoria de Eletrônica da Marinha, Escola Técnica do Exército, o IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada), o Instituto de Manguinhos, e mais algumas iniciativas esparsas, que lutam inclusive para sobreviver, com falta de pessoal e de verbas, sem instalações e instrumentos, numa espécie de apostolado dos abnegados que preferiram não emigrar atraídos pelas vantajosas propostas dos países desenvolvidos. O triste …

Contudo, mesmo considerando a rede de escolas técnicas (insignificantes para a demanda do mercado de trabalho brasileiro), acrescente-se a obsolescência do padrão pedagógico, inteiramente inadequado para uma rápida produção de especialistas: professorado “desciclado”, instalações precárias, recursos pedagógicos e metodologia desatualizados. Todos os especialistas reconhecem que o ensino médio brasileiro é o ponto de estrangulamento de todo o problema de formação de mão-de-obra. A falta de conexão entre o sistema de produção e o sistema escolar produz um desentrosamento tão grande entre os dois processos que se torna praticamente inútil a formação técnica ministrada pelo sistema escolar. A instalação de cursos técnicos, pelos grandes investimentos que exige, só pode ser feita no Brasil pelo Governo, à exceção de Estados como São Paulo, onde a rede de escolas técnicas é maior que toda a rede nacional junta. Que tem feito o Governo Federal para prover este setor básico do mercado de trabalho? Sua rede de escolas corresponde apenas às unidades da Federação. Dominado em cerca de 70% pelas escolas particulares, que, em geral, não investem ou não podem investir na aquisição de equipamento técnico, o nosso ensino médio não pode fornecer a matéria-prima para os níveis superiores.

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… alunos matriculados no primeiro ano ginasial não chegam ao terceiro ano colegial. E, dos 10% que furam essa longa peneira pedagógica, só metade tem acesso às vagas das universidades.

Quanto aos outros 50% que conseguiram transpor onze ou doze anos (primário e secundário) de estudos, ninguém jamais investigou para onde vão eles. Provavelmente formam os marginais que não se engajam no sistema de produção, porque não receberam a mais elementar preparação técnica. De que lhes serviu todo o verbalismo beletrista deste curso acadêmico, se não os habilita a ganhar a vida num país em processo de industrialização? Onde o humanismo dessa formação medieval? É fácil imaginar a decepção desses jovens que durante a vida toda foram estimulados a ingressar na Universidade, que a priori sabia que ou não tinha vagas para ele ou não podia prepará-lo para uma função social numa sociedade em desenvolvimento. O pouco que se faz — Fora do sistema escolar — que parece alimentar o velho preconceito contra a formação profissional, resquício colonial da desclassificação social do trabalho manual, — duas entidades fazem grande esforço para suplementar a desvinculação do sistema escolar brasileiro ao sistema de produção: Senai e Senac, com seus cursos elementares de formação de pessoal qualificado, o que demonstra também que o sistema escolar considera atividade lateral a profissionalização. E se não fosse o espírito “anti-humanístico” da Federação das Indústrias e do Comércio, o Brasil estaria ainda desequipado para o mais elementar esforço de desenvolvimento. Mas, mesmo nos setores onde já existe uma nascente mentalidade científica e tecnológica, existem também as barreiras do espírito subdesenvolvido. Durante anos, o DASP apresentou uma imagem que era o símbolo da burocracia. Os raros técnicos e cientistas do serviço público tiveram que enfrentar as portarias, pareceres, avisos, decisões: ora era tempo integral, ora era a equiparação do cientista ao burocrata escrevente, ora era a exclusividade, ora a acumulação de cargos. O resultado foi a desestimulação das carreiras técnicas, os baixos salários e a necessidade de acumulação de vários empregos ou simplesmente a fuga para o estrangeiro. Até as Forças Armadas conhecem o problema: muitos técnicos de alto nível, logo que se diplomam, preferem outras soluções profissionais no País ou no estrangeiro. O sistema paralelo — Diante da impassividade letárgica do sistema escolar brasileiro, que não se sensibiliza para as tarefas do desenvolvimento, muitas empresas já iniciaram suas próprias providências. Os homens da indústria compreenderam mais depressa que os “intelectuais” do ensino a seriedade e a urgência do problema. Não só as empresas particulares, mas organizações paraestatais como a Sudene, a Petrobrás, as hidrelétricas, o Banco do Brasil, Volta Redonda criaram seus departamentos de treinamento de mão-de-obra em todos os níveis, inclusive recorrendo a bolsas de estudos para especialização de técnicos no estrangeiro.

Que teria feito a Petrobrás se fosse esperar que a universidade brasileira lhe fornecesse geólogos?

São milhares as pessoas que utilizam os cursos por correspondência, sobretudo no setor de Desenho Técnico (considerado hoje como o latim de um sistema escolar voltado para a produção), sem falar em eletrotécnica e eletrônica, especialidades a que não se pode ter acesso senão por intermédio de recursos desse tipo.

Em nível superior, só existe uma escola de Desenho Industrial (Guanabara), unidade que não pode atender às solicitações do mercado num aspecto da maior importância: o dos royalties. O levantamento do problema de produção da energia atômica despertou o problema da evasão de capital humano, levando o Governo a cuidar do repatriamento de centenas de cientistas nacionais que se radicaram em outros países.

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